| Beth Leite |
Natureza curativa

A depressão é apontada por alguns estudiosos como o mal do século. Os números são alarmantes: embora não se tenha um cálculo exato, estima-se que cerca de 30% da população mundial sofra da doença, sem saber. Para minimizar esse desconforto, inúmeras pesquisas têm sido desenvolvidas por laboratórios de todo o mundo e os fitoterápicos vêm garantido cada vez mais espaço nas prateleiras, inclusive do Sistema Único de Saúde.
O Ministério da Saúde divulgou em fevereiro de 2009, uma relação com 71 espécies vegetais que poderão ser usadas na produção de novos medicamentos fitoterápicos e disponibilizadas para a rede pública de saúde. Nela constam duas ervas que a sabedoria popular vem aclamando como poderosos antidepressivos naturais: Erythrina mulungu e Passiflora sp.
Um avanço do governo federal que tem mostrado abertura para introduzir no SUS medicamentos da curativa flora brasileira. “Chegamos a 71 espécies depois de fazer um levantamento nos municípios que utilizavam plantas medicinais e fitoterápicos. Também priorizamos a inclusão de plantas nativas que possam ser cultivadas em pelo menos uma das regiões do país e que possam atender às doenças mais comuns nos brasileiros”, explica José Miguel do Nascimento Jr., diretor do Departamento de Assistência Farmacêutica e Insumos Estratégicos do Ministério da Saúde.
A finalidade da lista é orientar estudos e pesquisas que possam subsidiar a elaboração da lista de plantas medicinais e fitoterápicos a serem disponibilizados para uso da população, com segurança e eficácia para o tratamento de determinada doença.

O Brasil, segundo o Ministério da Saúde, é o país com a maior diversidade genética vegetal do mundo, com perto de 55 mil espécies já catalogadas (de um montante que pode chegar a 550 mil espécies) e onde a fitoterapia construiu uma longa trajetória ligada à sabedoria popular. Chás e outros produtos elaborados exclusivamente à base de plantas já fazem parte da nossa tradição, especialmente no interior do país, aonde medicamentos sintéticos sempre chegaram com maior dificuldade.
Experiência com plantas medicinais é o que não falta a Marcos Guião, fitoterapeuta, professor e consultor em plantas do cerrado. Ele criou unidades de atendimento à população carente através da fitoterapia no bairro Alto Vera Cruz e em uma cidade do Alto do Jequitinhonha.“Já indiquei e tratei de inúmeras pessoas com diagnóstico de depressão com o mulungu, a passiflora e outras plantas e na maioria dos casos os resultados foram satisfatórios. Impossível dizer que todos devem se tratar com fitoterapia quando entram em depressão, pois são muitas as variáveis que envolvem cada caso. Mas também não se deve ignorar esse tipo de recurso terapêutico por inúmeros motivos: baixo custo, não causa dependência química, dificilmente provoca algum tipo de efeito colateral e é muito bem aceito pelos pacientes. Isso sem falar nas pilhas de trabalhos científicos comprovando a ação destas e de outras plantas em todas as partes do mundo”, atesta.

A passiflora alata é a flor do maracujá “e vem sendo muito utilizada para tratar tristeza e depressão principalmente quando existe o fator ansiedade associado à frustração por não se conseguir realizar coisas do tipo “tirar carteira de motorista” ou “prestar exame de vestibular”. É um quadro de depressão causado por um fator externo, onde o indivíduo não consegue se manter equilibrado em situações de pressão psicológica”, ensina Guião.
A eritrina mulungu prossegue o fitoterapeuta, “é uma árvore que mostra toda a beleza de suas flores vermelhas ou alaranjadas agora no inverno. As cascas e as flores são utilizadas para cuidar principalmente daqueles casos onde o deprimido demonstra mau humor, agressividade ou negação peremptória de ajuda. Difícil chegar perto desse tipo de doente, porque ele simplesmente não deixa, agredindo com palavras e ações a todos e a tudo”.
Vitória Martins Schembri, farmacêutica homeopata, diz que a lista de antidepressivos naturais inclui ainda o hipericum perforatum popularmente conhecido como erva de São João, a kawa kawa e a valeriana officinalis, todas elas com ação ansiolítica, calmante e anti-depressiva.
Mas ela faz um alerta. “Os fitoterápicos oferecem recursos para a saúde humana, mas devem ser usados com cautela. Existe um consenso popular de que aquilo que não faz bem, mal também não faz. Isso não é verdade. É preciso cuidado porque diversas plantas são venenosas e cada pessoa tem uma sensibilidade individual. A cicuta, uma planta bonita da mesma família da salsinha, mata. A passiflora, por exemplo, deve ser usada com cautela por quem tem pressão baixa devido à sua ação hipotensora. Algumas ervas podem provocar alguns efeitos indesejados se interagirem com outros remédios”.
Há 18 anos à frente da Homeopatia Magna Mater, Schembri atesta que a procura por medicamentos naturais vem aumentando gradativamente. “Atribuo isso a vários fatores. Primeiro pelo fato de a fitoterapia, a homeopatia, a acupuntura e a antroposofia serem oferecidas pelo SUS, atraindo muitas pessoas que reconhecem os benefícios dessas terapias tradicionais e que hoje, felizmente, têm o respaldo do governo. Outro fato é que os medicamentos naturais não têm efeitos colaterais. Todos esses recursos são válidos, desde que usados com prudência. E por último percebo a busca das pessoas em se tratar de forma mais respeitosa. É a consciência de uma ecologia que volta o indivíduo para si, uma cultura de preservação e conservação, um conceito de sustentabilidade do ambiente e de si mesmo”, pontua.
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