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Entrevista

| Marina Spínola |


Em entrevista exclusiva a Encontro, FHC afirma que o presidente Lula é bom herdeiro, fala sobre os pré-candidatos do PSDB à presidência e diz: “Sou contra as privatizações a qualquer custo”


''O Brasil está melhorando muito''

* Eugênio Gurgel

Poucos chegaram até onde ele chegou. Fernando Henrique Car­doso foi senador, ministro da Fa­zenda, presidente da república por dois mandatos consecutivos e é uma das principais lideranças políticas do país. O príncipe sociólogo, como é chamado no meio acadêmico, além da Universidade de São Paulo (USP), ensinou nas universidades de San­tiago, no Chile; da Califórnia (Stanford e Berkeley), nos Estados Unidos; de Cambridge, na Ingla­ter­ra; de Paris-Nanterre, na École des Hautes Études en Sciences Sociales, e no Collège de France, na França. Foi presidente da Associação Inter­nacional de Sociologia e recebeu o título de Doutor Honoris Causa de mais de 20 universidades. Possui al­guns milhares de ex-alunos mundo afora, incluindo ex-presidentes da república na América Latina e dirigentes de multinacionais.
 
Atualmente, dedica-se ao Insti­tuto Fernando Henrique, entidade sem fins lucrativos criada para preservar e disponibilizar o próprio acer­vo e o da sua mulher Ruth Car­doso, falecida no ano passado, de­pois de um casamento de 56 anos. Hoje, FHC divide o seu tempo entre a política, as atividades acadêmicas e as palestras ao redor do mundo. Neste mês, por exemplo, o ex-presidente lançará seu livro A arte da política – A história que vivi, em tradução para o sueco, na Universidade de Es­to­colmo. A trajetória de vida é o respaldo para um dos mais altos valores cobrados no Brasil para a realização de palestras. As estimativas dão conta de que o minuto de palestra do ex-presidente custa em torno de R$ 2 mil. Detalhe: os valores não tem sido impedimento, a agenda do palestrante está lotada até o segundo semestre de 2010.
 
Aos 78 anos de idade, FHC demonstra uma vitalidade impressionante e ainda causa furor por onde passa. Ele esteve em Belo Horizonte, para proferir palestra no encerramento do encontro regional de contabilistas. O tom do discurso foi amenizado – em nada lembrava o presidente da república que protagonizou uma das mais recentes ba­talhas ideológicas no Brasil: a das privatizações. “Não sou a favor de privatizar a todo custo. E nem acho que o mercado regula tudo. O mercado resolve os problemas dele e o Estado tem que fazer o que o mercado não faz”, disse.
 
FHC passou pouco mais de um dia na capital mineira e – diferentemente do que ocorre sempre que vem à cidade – não se encontrou com o governador mineiro. “O Aécio jantou em minha casa há quatro dias. E hoje ele não estaria na cidade”, justificou aos jornalistas, ressaltando as boas relações que mantém com um dos pré-candidatos à presidência. Na cidade, FHC concedeu entrevista coletiva à imprensa e, depois, falou com exclusividade à Encontro. Fa­lou sobre economia, sucessão presidencial, criticou o presidente Lula por antecipar artificialmente a disputa eleitoral. Mas quando o assunto é o candidato do seu partido à presidência da república, o tucano é bastante ponderado e não vê problema na indefinição do PSDB. “Temos dois líderes (José Serra e Aécio Neves) muito benquistos pelos seus estados. E as pesquisas mostram que os dois juntos, numa mesma chapa, aumentam as intenções de voto. Mas isso não significa que temos de decidir amanhã quem será o candidato”.

* Eugênio Gurgel
“As pesquisas mostram que o PSDB tem dois líderes muito benquistos pela população para disputar a presidência da república. Isso é ótimo, mas não temos que decidir o candidato agora”

ENCONTRO – Nas eleições presidenciais de 2010 o PSDB irá usar a mesma estratégia do PT de priorizar os palanques estaduais, em detrimento de candidaturas próprias?
FHC – Em detrimento, não. Não creio que se faça isso. A eleição é nacional. Claro que num país como o Brasil, tão variado, tão regionalizado, se você não prestar atenção em cada município não ganha eleição. Mas o tema é nacional, a eleição é nacional.

ENCONTRO – Pesquisa do Ibope, mostrou a chapa puro-sangue tucana (Serra e Aécio) com 41% das intenções de voto, contra 16% da chapa PT/PMDB. A pesquisa indicou que, com ou sem Aécio Neves, o candidato José Serra vence a ministra Dilma. Qual a sua avaliação sobre isso?
FHC – Não vi a pesquisa. Me falaram de uma pesquisa que diz que, juntos, em qualquer posição – seja um como presidente, seja o outro, desde que estejam juntos na mesma chapa – isso aumenta a porcentagem de votos. Ora, isso é bom. Mostra que a população confia em dois importantes governadores do PSDB. Vamos trabalhar para que isso aconteça.

ENCONTRO – Então o sr. defende a chapa puro-sangue?
FHC – Não estou defendendo. Estou apenas dizendo que é muito bom para o partido ter dois candidatos que estão tão bem nas pesquisas. E é bom mesmo. Mas não sei se é a melhor opção ter os dois na mesma chapa, é preciso avaliar com calma. Isso não quer dizer, a meu ver, que se deva decidir agora ou depois de amanhã quem será o candidato.

ENCONTRO – O PSDB não está demorando demais para definir o candidato à presidência?
FHC – Eu não acho que seja tarde. Houve uma precipitação do governo, do presidente Lula, que escolheu uma candidata – eu nem diria pouco conhecida – mas sem prática eleitoral. Assim, ele começou a precipitar a campanha. Mas isso é problema dele, que tem candidata que precisa ser conhecida. Nós, não. Temos dois pré-candidatos benquistos. Então, não vejo necessidade de precipitação. Esta é uma decisão complexa, tem a sua essência, que ocorrerá no tempo oportuno. Ambos têm qualidades, ambos são apreciados pelos seus respectivos estados e governados. Então, não se pode tomar decisão precipitada. É preciso dar chances equivalentes aos dois.

ENCONTRO – Quando o PSDB vai definir seu candidato?
FHC – Não quero precipitar o debate. Vamos definir no ano que vem, no momento mais oportuno.

ENCONTRO – Por que o PSDB parece ter temor às prévias? O sr. é a favor?
FHC – Um partido deve ter um modo de selecionar. No Brasil, o modo natural é a convenção. Nós (o país) não temos a tradição da prévia, muito menos da primária, o que é mais complicado ainda. Ou seja, não temos a tradição do conjunto de mi­litantes participar [da definição do candidato]. Nossos partidos não têm a vitalidade que já tiveram alguns no passado ou que têm alguns fora do país. Muitos não são propriamente militantes. Então, não se agrega efetivamente legitimidade ao processo. A convenção, sim. Na convenção, são as pessoas que estão na militância e são credenciadas.

* Eugênio Gurgel
“ O  mundo viveu a segunda maior crise financeira do século. Se o Brasil conseguiu sair dela mais cedo, não pode ignorá-la. Isso é um desrespeito aos que perderam o emprego”

ENCONTRO – Como deve ser a escolha do candidato?
FHC – A convenção é uma maneira, mas pode não ser necessária e não vejo problema. A prévia, geralmente, repete o que a opinião pública diz. Quem tem mais chance nas pesquisas de opinião, geralmente, tem mais chance na prévia. Mas pode não ser assim. Pode haver um entendimento, que é legítimo. Se você tem dois candidatos, precisa de um mecanismo de seleção. Se eles chegarem a entendimento e só houver um candidato, não precisa. Não acho que esta seja uma coisa difícil de resolver – desde que haja clareza na definição, nos mecanismos e nos critérios de seleção.

ENCONTRO – Qual a importância de Minas Gerais na definição do candidato do PSDB à presidência?
FHC – É fundamental. É básico. Minas tem importância fundamental na definição do candidato do PSDB. A próxima eleição passa, necessariamente, por Minas Gerais.

ENCONTRO – Como o sr. avalia a confirmação do apoio do PMDB à candidatura da ministra Dilma Rousseff?
FHC – Em primeiro lugar, eu não sei se está confirmado. Isso é decidido adiante, quando haverá as convenções partidárias. Tudo isso é precipitação. Como o presidente Lula está empenhado em precipitar tudo, ele tem que começar a provocar os apoios. Os apoios são sempre reversíveis até que se façam as convenções, que serão realizadas em junho do ano que vem. Temos muito tempo ainda, portanto, isso é mais um fato jornalístico do que propriamente política eleitoral.  Serve apenas para fazer manchete.

ENCONTRO – O presidente Lula afirmou por diversas vezes que a crise financeira foi apenas uma “marolinha”. O  sr. concorda?
FHC – De forma alguma. A crise foi uma questão muito séria. Foi a segunda crise mais séria já enfrentada no mundo desde o século passado. Só perdeu para a crise de 1929. Um relatório recente de grande banco internacional diz que até hoje o consumo das famílias nos Estados Unidos não se recompôs. E as taxas de in­vestimento também não se recompuseram nem lá nem aqui. Tivemos políticas anticrise que permitiram a continuidade do consumo no Brasil. Mas o investimento ainda não voltou. E as exportações ainda estão sofrendo. A crise teve efeito me­nor do que podia ter sido, graças a Deus. Mas nós crescemos 5% no ano passado e este ano será 0%. Muita gente está desempregada. Acho que é desrespeito aos que ficaram desempregados dizer que não houve nada. Tivemos a possibilidade de sair mais depressa da crise e, felizmente, estamos saindo.

ENCONTRO – E os juros mais baixos e o dólar em queda podem resultar numa herança maldita para 2010 e 2011?
FHC – Isso tudo são jogos de palavras: herança maldita, bendita. O presidente Lula foi um bom herdeiro, está usando bem o que herdou. Não sei como isso será usado no ano que vem. Claro que é preciso prestar atenção, tomar alguma me­dida para retomar o rumo. Não no­tei que haja algo que seja suficiente para que a herança seja maldita. Tomara que não. Eu tenho mais preocupação com outra coisa: os gastos fiscais. Estes são irreversíveis e podem criar uma situação de dificuldades mais adiante.
* Eugênio Gurgel
“O presidente Lula foi um bom herdeiro, está usando bem o que herdou. Para o futuro, tenho outra preocupação: os gastos fiscais”

ENCONTRO – Recentemente, o presidente Lula fez um comentário sobre Judas e Jesus Cristo, indicando que no Brasil o presidente precisa fazer alianças para governar.
FHC – Olha, ele disse que o Brasil tem um problema político sério, que quando eleito, o presidente e o seu partido não têm maioria no Con­gresso e isso leva a uma política de coalizão – que pode ser feita antes ou depois das eleições. Eu fiz antes das eleições. A responsabilidade de quem ganha é conduzir o Brasil para o melhor. Sempre existem pessoas atrasadas e você tem de ter a capacidade de conduzi-las. Isso faz parte do jogo. O ruim é quando você faz alianças espúrias, quando são feitas não para um programa para a eleição, mas depois da eleição e para ganhar votos no Congresso. E, quando chega o momento, parece que há mais fariseus do que cristãos. Aí fica difícil, inverte-se a lógica. Em vez de puxar o atraso para melhorar, você que é puxado pelo atraso. Isso não aconteceu comigo.

ENCONTRO – O governo está jogando todas as fichas no caráter plebiscitário das eleições do ano que vem. Isso é bom para o PSDB? Como sair desta armadilha?
FHC – Não acho que seja uma armadilha. O PSDB tem muita coisa positiva a reivindicar. A obrigação de quem vem depois é fazer mais. O PSDB mudou o rumo e o presidente Lula seguiu o nosso rumo. O PSDB deu uma guinada.

ENCONTRO – O Brasil está melhorando?
FHC – No geral, o Brasil está melhorando há muito tempo. Depois da Constituinte de 1988, alçamos voo. Houve a inflação, que atrapalhou. Controlamos a inflação, abrimos a economia, veio o presidente Itamar Franco. E na democracia, as classes sociais reivindicam mais, fomos aperfeiçoando as políticas públicas, estamos melhorando. Então, não vejo inconveniente ne­nhum. Eu acho que isso é demagogia. Fazer plebiscito de quê? Do rumo? O rumo é o mesmo. Vamos em frente. O que temos que discutir é: quem é capaz de inspirar para avançar mais? Isso é o candidato que terá que falar para o país. E não quem não é candidato. O povo não é bobo. O povo quer olhar para a pessoa e saber: confio ou não confio? ´Esta pessoa que está me dizendo que irá fazer isso, ela terá capacidade de fazer? E o que ela está dizendo que vai fazer é o que eu quero? Isso depende do desempenho dos candidatos.

ENCONTRO – Em Minas Gerais, especificamente, há uma discussão sobre a necessidade de agregar valor à produção de minério. Há um projeto que está tramitando no Congresso há muito tempo e não é aprovado. Por quê?
FHC – Olha, isso vale para o Brasil todo. O setor não tem legislação como tem para o petróleo, que deu novo tipo de royalty mais substancial. Acho que é razoável que seja feita revisão da legislação, mas não saberia dizer por que o Congresso não aprova.

ENCONTRO – Há alguma possibilidade de o sr. sair candidato a algum cargo eletivo no ano que vem?
FHC – Eu disse isso desde que deixei o governo: cada um tem que saber a sua hora. Isso não quer dizer que todos têm que fazer o que eu faço. Ao contrário. Eu sei que existem ex-presidentes que são senadores. Mas não é o meu caso. Eu acho que não preciso ter uma posição eletiva para emitir opinião. Já fui presidente duas vezes, já fui senador, já fui ministro. Não acho que eu deva dar cotovelada na nova geração para pegar lugar. Nós temos dois líderes bem cotados. Por que mais um? Para confundir mais? Deus me livre! Eu quero ajudar!

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