| André Lamounier |
| Kátia Massimo |
O Fenômeno MRV

No final da tarde de uma terça-feira de dezembro de 2008, o empresário Rubens Menin Teixeira de Souza, presidente da MRV Engenharia, recebe telefonema de sua secretária, Vanessa de Oliveira Campos. “A Dilma quer falar com o senhor”, disse a secretária. Tratava-se da ministra da Casa Civil, Dilma Rousseff, que queria convidá-lo para reunião no Palácio do Planalto. Na pauta do encontro, ocorrido na semana seguinte, o programa do governo de estímulo à casa própria. Menin, juntamente com outros dirigentes de grandes construtoras nacionais, foi convidado a ajudar o governo a conceber o projeto.
Menin voltou para casa entusiasmado. Reuniu seus principais assessores e determinou: “Vamos produzir o mais completo projeto”. Três meses depois, o presidente Lula lançou o programa “Minha Casa, Minha Vida”. Boa parte do projeto concebido pelo governo trazia algumas das principais propostas feitas pela MRV. “A equipe da construtora mergulhou nos estudos. Eu queria apresentar o melhor possível”, diz Rubens Menin.
O fato revela um pouco da personalidade do engenheiro Menin. “Ele é detalhista ao extremo”, conta Teodomiro Diniz Camargos, dono da construtora de mesmo nome e ex-presidente do Sinduscon, o sindicato que reúne o setor de construção em Minas Gerais. Em outras palavras, Rubens Menin, ou Rubão, como é chamado pelos amigos, é do tipo obstinado, que não se contenta em fazer bem feito, quer sempre fazer o melhor.

“O programa do governo é o mais bem concebido projeto de habitação dos últimos 30 anos”, disse Rubens Menin. Os números da MRV são uma demonstração cabal do fato. Entre abril e junho deste ano, as vendas da empresa praticamente dobraram em relação aos três meses anteriores. Pulou de 452 milhões de reais para mais de 850 milhões de reais. Para sublinhar: em apenas três meses.
O excepcional desempenho não parou por aí. Até setembro de 2009, a companhia vendeu 2,07 bilhões de reais, superando todo o ano de 2008, que já fora o melhor resultado da empresa até então, quando vendeu 1,5 bilhão de reais. “O ano de 2009 é o melhor da nossa vida”, afirma Rubens Menin.

Os resultados alcançados pela MRV nos últimos anos refletem a atuação do empresário Menin. Dono de personalidade ousada e irriquieta, projetou a primeira obra aos 18 anos, quando ainda era estagiário da Vega Engenharia, construtora mineira voltada para a classe média.
Na época, o jovem universitário do curso de engenharia civil ficou intrigado com os altos custos da habitação. Lançou a si mesmo o desafio: projetar uma casa a baixo custo. O primo Homero Andrade e Silva, dono da Vega, duvidou da capacidade do jovem estagiário e ainda apostou com ele um jantar, caso Menin concluísse com êxito sua ideia. O estagiário ganhou o jantar. Situada no bairro Vila Clóris, zona norte da cidade, a casa projetada e construída por Rubens Menin existe até hoje. “Fiz uma planilha para levantar a casa com o mínimo necessário”, diz. “Saiu exatamente como planejei”.
Nascia o embrião do que depois se tornaria a MRV, a maior construtora de habitação popular da América do Sul e uma das dez maiores do mundo ocidental. O sucesso da empreitada levou o estagiário a sonhar com o próprio negócio. Com a ajuda do pai, Geraldo Teixeira de Souza, que emprestou dinheiro, e de Mário Menin, outro primo, Rubens resolveu investir na construção de mais dez moradias do mesmo padrão. Cinco anos depois, em 1979, se associou a Mário e ao dono da Vega Engenharia, seu ex-patrão, para fundar a MRV. “M” de Mário, “R” de Rubens e “V” de Vega.


“O DNA da empresa nasceu nas primeiras casas que construímos”, diz Menin, em referência ao perfil de construção popular de sua construtora. Hoje, a MRV é uma potência que constrói cerca de 130 apartamentos por dia, em todo o Brasil.
Para chegar a esse patamar, contudo, não foi fácil. Primeiro, era necessário investir e, principalmente, trabalhar muito. Quando a MRV atingiu certo tamanho, os sócios de Menin decidiram desacelerar o negócio. Afinal, já eram grande construtora mineira. Menin, não. Comprou a participação dos primos e decidiu desbravar o país afora. Em 2007, para continuar a crescer no ritmo que planejava, precisava de capital. Decidiu oferecer ações da empresa na bolsa de Nova Iorque. Foi um sucesso. Levantou nada menos que 1,2 bilhão de reais. Sua empresa entrou para o rol das companhias que valem bilhões e ele se tornou um dos homens mais ricos do Brasil.
“Para crescer , é preciso dinheiro”, argumenta Menin. “E eu queria fazer a empresa crescer”. Em julho deste ano, a MRV voltou ao mercado financeiro e fez nova oferta de ações para investidores. Captou mais 570 milhões de reais. Foi a primeira empresa brasileira a voltar ao mercado financeiro depois da crise de 2008. O resultado da nova captação reflete a credibilidade da companhia junto a investidores. Também, não é à toa. As ações da MRV valorizaram-se, de janeiro à primeira quinzena de outubro de 2009, 294%, segundo dados da consultoria Economática, das mais respeitadas do país. Hoje, Menin detém 40% da companhia. Os principais executivos e funcionários da MRV também tornaram-se acionistas. Ao todo, são 123 funcionários que possuem 11% da empresa. O restante, está pulverizado entre investidores do mercado.
Depois de fazer fortuna e transformar sua pequena construtora numa das mais valorizadas do planeta, era de se esperar que Menin descansaria. Ledo engano. A determinação de Rubão para o trabalho é de impressionar. Visita suas obras constantemente e gosta de verificar detalhes. É detalhista ao extremo. Carrega sempre consigo um pequeno gravador digital. Tudo que verifica registra no gravador, para depois cobrar providências dos responsáveis.
Dois dias por semana, inevitavelmente, faça chuva ou faça sol, decola em um de seus aviões particulares para percorrer as obras em uma das 74 cidades onde a empresa está presente. Chega a visitar até cinco cidades por dia. Decola pontualmente às 6h da manhã – sem brecha para aguardar algum retardatário. Menin é implacável: quem não for pontual, fica para trás.

A MRV foi fundada em Belo Horizonte, em 1979
Está presente em 74 cidades de Minas Gerais, São Paulo, Rio de Janeiro, Espírito Santo, Paraná, Santa Catarina, Rio Grande do Sul, Bahia, Ceará, Rio Grande do Norte, Goiás, Mato Grosso do Sul, Mato Grosso, além do Distrito Federal. Pretende chegar a 80 cidades, até o final do ano
Rubens Menin Teixeira de Souza
Presidente da MRV
Engenheiro civil, 53 anos, mineiro, casado com a advogada Beatriz Nazareth, três filhos e dois netos
Projetou a primeira moradia popular aos 18 anos, com dinheiro emprestado pelo pai
Aos 23, fundou a MRV, em sociedade com dois primos
Hoje, detém 40% das ações da empresa, primeira posicionada no segmento da construção popular do país e nona entre as dez maiores das Américas, de acordo com classificação da Economática, de agosto de 2009

“Ele é muito exigente”, diz a filha, Maria Fernanda Menin, que dirige o departamento jurídico da empresa, na qual ingressou como estagiária de direito aos 18 anos. “Tem também raro senso de justiça, capaz de reconhecer e premiar o mérito das pessoas com as quais convive”. Consequência: a companhia tem pequena rotatividade de funcionários e boa parte deles está na empresa há mais de 20 anos. “Meu pai é absolutamente profissional em tudo que faz”, conta Maria Fernanda.
Primeiro funcionário da MRV, o atual vice-presidente Hudson Gonçalves está na empresa há 30 anos. Construiu a vida profissional e pessoal em torno do crescimento da companhia. É símbolo do perfil do funcionário MRV. Veste a camisa e, como consequência, ascendeu rapidamente na carreira. “Meu sangue é verde-musgo”, diz, em alusão às cores da logomarca. “O sucesso da MRV é consequência da liderança de Menin”.
De fato, Menin tem estilo de liderar que impressiona. “Ele é líder integral: na empresa, na família e, até, entre o grupo de amigos”, afirma o empresário Marcelo Patrus, dono de uma das maiores transportadoras do país e amigo de Rubão há mais de dez anos. “Prova disso, é que seus filhos também são exemplo de boa educação”, completa.
Liderança e foco. Essas duas palavras provavelmente definam de forma exemplar as razões do sucesso alcançado pela MRV. Ao longo dos últimos 30 anos, nasceram e morreram muitas construtoras pelo país. Dentre as bem sucedidas, um traço marcante é a característica diversificada de seus empreendimentos. A empresa inicia como popular, cresce um pouco, e começa a fazer obras também para a classe média. Outras, nascem construindo para os ricos e logo desenvolvem braços para também participar do mercado de habitação popular. A MRV não. “Nosso sucesso reside no fato de que há 30 anos fazemos a mesma coisa: habitação popular”, diz Rubens Menin.
Mas nem tudo foram flores na trajetória da construtora mineira. No início da década 80, o mercado de construção civil brasileiro atravessou sua maior crise, quando a economia do país entrou em ruínas: hiperinflação e explosão da dívida externa. Para piorar, em 1986, a Caixa Econômica Federal decidiu suspender os créditos para a habitação popular, pegando o mercado de surpresa. Sem crédito, nem apoio, o setor desabou.
Para contornar o problema, a MRV lançou plano próprio de financiamento, o Sistema Fácil de Habitação (SFH), e deu, em plena crise, o primeiro salto em seus negócios. Uma década depois, a crise de credibilidade tomou conta do mercado imobiliário após a quebra da Encol, em 1997. A MRV lançou no mercado, de forma pioneira, o seguro bancário. O cliente que não recebesse o imóvel no prazo, recebia o dinheiro de volta, garantido por uma instituição bancária. A empresa mineira começava a desenvolver outra característica em seu DNA: superar crises. “Com as crises, aprendemos a tomar conta dos custos”, diz Menin. “Elas foram ótimas”.

Responsável pela diretoria técnica da MRV, o outro filho de Rubens, Rafael Menin, engenheiro civil, também ingressou na empresa como estagiário, aos 18 anos. Para crescer na companhia, precisou tomar muito sol nos canteiros de obras. “Meu pai é típico empresário que faz questão de manter a barriga no balcão”, diz. “Além do mais, é um visionário”. Realmente, Rubens Menin enxergou no déficit habitacional brasileiro o grande trunfo para o mercado de construção, quando a maioria dos construtores à sua época queriam trabalhar para quem tinha dinheiro.
Nascido de família de classe média, Menin trouxe o desejo de construir no sangue. Os pais, engenheiros civis, trabalhavam no extinto Departamento Nacional de Água e Esgoto. Filho caçula, Menim viu os dois irmãos mais velhos, Sérgio e Ângela, também se graduarem em engenharia. Além do gosto pela construção, Menim desde cedo manifestou espírito empreendedor e a determinação para não acomodar. “Ele representa tudo o que valorizamos como exemplo de pessoa comprometida, séria e absolutamente esforçada”, diz a filha Maria Fernanda.
“Na minha opinião, ele tem duas características marcantes. Uma delas é a enorme capacidade de aglutinar”, diz o construtor Teodomiro Camargos. “A outra, é que não deixa um ponto sem amarra. Tudo o que faz tem começo, meio e fim”.
Rubens Menin é, indiscutivelmente, um obcecado pelo que faz. Nas três décadas de atuação da empresa, sempre esteve preocupado com as consequências de seu crescimento. “Meu negócio exige muita atenção, porque envolve muita gente”, diz ele. Atualmente, a MRV emprega 13 mil pessoas e mais de 80 mil famílias moram em imóvel construído pela empresa. É líder – com larga folga sobre o segundo colocado – no mercado nacional de habitação popular, tanto em vendas quanto em número de unidades construídas. Em valor de mercado, é avaliada em 3,12 bilhões de reais, atrás apenas da Cyrela, no Brasil, e sendo a nona das Américas (incluindo Estados Unidos), de acordo a classificação das dez maiores do setor em cotação na bolsa, divulgada no final de agosto passado pela consultoria Economática.
Quando começou 2009, a empresa projetava fechar o ano com 30 mil unidades vendidas. Teve de rever o número. Deve fechar com 42 mil unidades, valores antes estimados para serem alcançados somente em 2011. Salto ainda maior já está previsto para 2010, quando estima vender perto de 4 bilhões de reais.
Hoje, a MRV atua em 74 cidades de 14 estados brasileiros. Todos os empreendimentos são orientados pelo conceito de localização, preço e financiamento, e baseados em um projeto de construção modular, em padrão único, que pode ser replicado em diferentes localidades, de forma simultânea. O modelo permite obter ganho em escala, com redução de custos e prazos de construção, de modo a aumentar a rentabilidade.
Na projeção do analista financeiro Eduardo Silveira, especialista em mercado imobiliário, da corretora Fator, as ações da MRV continuam carregando grande potencial de alta, ancoradas nas condições positivas do mercado e na consequente perspectiva de crescimento da empresa. Silveira aponta a MRV como a mais favorecida pelo programa do governo federal, graças à forte experiência e concentração na faixa popular. Recentemente, o governo ampliou o limite de financiamento do programa habitacional, de 80 mil reais para 130 mil reais, nas cidades com mais de um milhão de habitantes. “Isso permitirá à empresa crescer ainda mais sua participação em mercados como Rio de Janeiro e São Paulo”, diz o analista.
Para reforçar sua posição no mercado, a MRV adotou como estratégia incrementar a aquisição de terrenos. No final de setembro deste ano, o banco de terrenos da construtora era estimado em 9,5 bilhões de reais, suficiente para sustentar as metas de lançamentos dos próximos três anos. “Isso torna as perspectivas para o futuro muito favoráveis”, afirma o analista da Fator.
Depois de tanto sucesso, que mais poderia desejar Rubens Menin, 53 anos, avô de dois netos, João Pedro e Maria Beatriz? “Quero implantar o programa MRV 40 mil”, diz ele, referindo-se ao objetivo de superar a marca de 40 mil unidades residenciais construídas (e não unidades vendidas) num só ano. Isso significa levantar no mínimo 154 unidades por dia, com cerca de 17 mil empregados. “Estou preparando a empresa para isso”, diz “Quando chegarmos lá, aí sim, estaremos lado a lado com as maiores construtoras mundiais”. A pergunta, para a qual Menin ainda não tem resposta: quando a MRV será a número 1 do mundo ocidental? Alguém aposta um jantar?
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