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| Tião Martins |


O herdeiro de Rousseau

Tião Martins
Tião Martins

Já não nos apaixonamos por espelhinhos, como os primeiros ocupantes do território, mas nossa alma nativa ainda adora copiar maus costumes. Se pinta uma novidade asquerosa no Primeiro Mundo, nós do Tercei­ro logo tratamos de imitar. E é aí que mora o perigo, pois tolice é algo que não falta neste nosso planeta, que já deveria estar vacinado contra certos descaminhos.

E descaminho gigante é o que aca­ba de escolher o secretário francês pa­ra a Juventude, um cidadão chamado Martin Hirsch. Tomara que não dure muito no cargo e que seu mau exemplo não chegue a Brasília, onde o di­nheiro público é farto e desprotegido e abundam os gênios da gastança sem retorno (o que entra no bolso deles só retorna na forma de mesada para os filhos, as netas e as belas amantes).
Com as suas ideias revolucionári­as, o tal Hirsch faria aqui o maior es­trago de todos os tempos.

Esse francês estapafúrdio, que se diz preocupado com a evasão escolar, acaba de inventar uma espécie de pa­gamento a rapazes e moças que não enforcarem as aulas nas escolas técnicas dos arredores de Paris. Promete pagar um prêmio em dinheiro (10 mil euros ou 26 mil reais) às turmas com menor número de faltas.
Como teremos eleições no ano que vem, Brasília ficará encantada com esse projeto. Imaginem a ca­cho­eira de recursos públicos que um político honesto receberá para sua campanha, suas mãos limpas e seus bolsos ávidos, se a ideia chegar ao Bra­sil. Nem o paraíso teria farra igual a es­sa.

“Se pinta uma novidade asquerosa no Primeiro Mundo, nós do Tercei­ro logo tratamos de imitar. É aí que mora o perigo”

Mas os franceses não ficam por aí. Para completar a doçura melada dessa ideia, certas escolas técnicas da França já estão oferecendo ingressos para jogos de futebol aos alunos que não faltam às aulas. É como se declarassem à meninada que as escolas são tão inúteis e anacrônicas quanto um número antigo de telefone. Enlou­que­ceram, os franceses?
 
Se copiarmos, no Brasil, a brilhante criação desse herdeiro de Jean-Jac­ques Rousseau, é evidente que iremos aperfeiçoá-la. Em lugar de dar ingressos para jogos do Olympique, o melhor time de Marselha, como promete uma escola técnica do sul da França, dividiremos a grana entre ca­da deputado e vereador, que decidirá os times e os jogos premiados nos cin­co municípios brasileiros.

Além disso, não vamos nos limitar às escolas técnicas, pois seria privilégio insustentável. Sendo mais ricos e generosos que os avaros franceses, es­tenderemos o benefício aos alunos da universidade, do ensino médio e do fundamental. E, evidentemente, uniremos esse prêmio ao programa Bolsa Família. Afinal, pais e mães também são brasileiros e, portanto, filhos de De­us.

Como se dizia no início do século passado, se não vamos restaurar a mo­ralidade, que se locupletem todos: os torcedores do Atlético e do Cruzeiro, cla­ro, mas também os que preferem o América, o Uberlândia, o Tupi e o De­mocrata de Sete Lagoas. O Ipatinga e também outro América, o de Teófilo O­toni. Não podemos é tolerar o privilé­gio.

Na França, cerca de 11% dos alunos faltam regularmente aos cursos. E, em escolas profissionalizantes, os au­sentes chegam a 80%, segundo Hirs­ch, que até no departamento de es­tatística parece irmão-gêmeo dos nossos ministros. Sua Excelência diz que 150 mil jovens franceses saem to­dos os anos do sistema educacional sem obter o diploma, ou seja, um de ca­da cinco alunos.

Mesmo assim, o salvador da pá­tria está levando pedradas de todos os la­dos, a começar por autoridades do próprio governo, como a ministra do ensino superior, Valérie Pecresse. Es­sa madame sem coração, que deve o­diar futebol, considera degradante, para a França e os franceses, que o go­verno pa­gue a um adolescente para cumprir su­a obrigação como estudante e torcedor.

Como os franceses são conhecidos por seu péssimo humor, devíamos importar monsieur Martin Hirsch ur­gentemente, antes que o mandem pa­ra a guilhotina. Pode ser a cabeça que falta na cam­­panha presidencial da doutora Dil­minha Rousseff, a rainha dos di­plomas.

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