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Artigo

| José João Ribeiro |


O homem que apagou Brad Pitt

* divulgação
Christoph Waltz em Bastardos inglórios: austríaco desconhecido

Se fosse à mão armada, o assalto não seria mais desconcertante. No no­vo filme de Quentin Tarantino, Bas­tar­dos inglórios (Inglourious bas­terds), o homem diversas vezes consagrado co­mo o mais bonito e carismático do mundo, Brad Pitt, interpreta o carcamano-meio-pé-quebrado Aldo Rai­ne, líder de uma trupe judia que percorre o território europeu durante a II Guer­ra Mundial, matando e escalpe­lando soldados nazistas, como mí­nima for­ma de compensar todo o horror dos campos de concentração.

Novamente Tarantino nos presenteia (presente?) com um banho de sangue, trilha sonora saudosista com mú­sicas de Ennio Morricone, cenas e diálogos inspirados em mestres com Ser­gio Leone. Tudo muito frenético, tudo muito pop, não fosse que o combinado protagonista Aldo Raine é impiedosamente apagado por um cer­to coronel Hans Landa, trabalho primoroso do desconhecido ator austríaco Chris­toph Waltz. Nunca um oficial de alta patente no 3º Reich despertou tanta simpatia e torcida da platéia nas centenas de filmes já produzidos so­bre o ho­locausto. Dificilmente ocorrerá ou­tra vez.

O fato é que desde o primeiro ca­pítulo do filme (dividido em cinco), o coronel Landa nos captura e explica a razão do prêmio de melhor ator no Festival de Cannes, ocorrido em maio, quando toda a crítica ausente na Croi­sette se perguntou espantada quem raios era Christoph Waltz e por que ele, e não Brad Pitt, ergueu muito sorridente a honraria dourada concedida a Bastardos inglórios.
 
Não que o esforço de Pitt tenha sido em vão. Seu sotaque, trejeitos e queixão grudam co­mo chicletes em nossas mentes, mas é Waltz (certeza entre os indicados a melhor ator coadjuvante no próximo Oscar) que toma a pulso forte toda a projeção de quase três horas. Ele e Brad Pitt só estão juntos em cena no último capítulo da sangrenta fábula e é neste momento que se estabelece o descompasso gritante, na atuação cínica e gaiata de Chris­toph Waltz, dominando com perfeição todos os idi­omas possíveis inseridos no roteiro. Fica uma certeza: Mr. Pitt é credor de Quentin Tarantino e todos nós podemos atestar isso.

Bendita repetição

Muitos são categóricos: “Pedro Al­modóvar anda se repetindo em seus últimos projetos. A fonte secou e a partir de agora teremos sempre mais do mesmo.” Pura bobagem e recalque. Almodóvar é sempre brilhante e ele como ninguém sabe expressar emoções e sensibilidades de uma interessante e rica fauna humana que nos desperta e faz amar renovadamente a vida. Sua nova película, Os Abraços partidos (Los abrazos rotos), é parte integrante de um processo de amadurecimento que vem desde 1995, ano do íntimo A Flor do meu segredo, quando abandonou parte de sua ga­lhofa e resolveu se levar a sério (mas não muito), contando histórias repletas de rebuscadas tramas, com personagens primorosos e essenciais em sua filmografia.
 
Muito difícil esquecer o trabalho da apaixonante Penélope Cruz, se­manas a fio, após assistir a mais esta joia pertencente a um selo soberano, que poucos cineastas possuem. Des­taque também para a belíssima trilha de Alberto Iglesias. Ainda nos Abra­ços partidos (como aconteceu em Volver, com a maternal Carmen Maura), Almodóvar resgata a inconfundível atriz Rossy de Palma, que andava bastante sumida. Assistir uma vez só, é pouco.

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