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Humor

| Zu Moreira |


Minas Gerais é celeiro fértil de cartunistas, como mostrou o Primeiro Salão de Humor de BH


Rir pra não

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Cristo Redentor do cartunista Boligan: visão bem humorada sobre o lixo, tema do I Salão de Humor de BH

Minas Gerais é um estado que sem­pre deu e continua dando ao país várias gerações de talentosos profissionais na arte do humor gráfico. De Borjalo a Mangabeira, passando por Ziraldo, Zélio, Henfil, Nani e Nilson, depois Lor, Aroeira, Oldack Esteves, Son Sal­vador e Melado, até chegar a Quinho, Mário Vale, Lute, Cau Gó­mez e Duke. “Minas me lembra um pou­co a Ir­landa, que produz um tanto de gê­nios. E todos eles têm grande senso de hu­mor. O mineiro tem um temperamen­to introvertido, por cau­sa das mon­tanhas. Isso leva a pessoa a ter vida interior, com grande senso de ob­servação, o que resulta em uma verdade própria”, arrisca o carioca Ja­guar, que pelo talento bem poderia ter o DNA mineiro.

No Brasil, há uma quantidade im­pressionante de humoristas mineiros. “Percebo mais neles a ironia fina, que já é uma característica da profissão, mas acho que os mineiros são mais fe­­rinos”, diz Luiz Eugênio Quin­tão Guer­ra, o Genin, fun­dador do jornal O Cometa Ita­bi­rano e colabo­ra­dor de várias publicações.

Minas é mesmo um estado que res­­pira cartum. “Se Dunga fosse convocar uma seleção bra­­sileira de cartunistas, não tenho dúvida, levaria 11 mi­neiros”, garante o recifense Sa­mu­el Ru­bens de Andra­de, o Sa­muca, char­­­­­­gista do jornal Di­ário de Per­­nam­buco, que­ acaba de lançar o li­vro de cartuns Sem pa­­lavras, Minas tem uma variedade de humor. “As me­lhores es­colas es­tão aqui, como Bor­jalo, Henfil, mi­nhas referências no Bra­­sil, como o próprio Zi­raldo”, completa.

* Geraldo Goulart
Ziraldo e Lor: dois dos maiores talentos do estado

Muitos torcedores/leitores poderiam não concordar com uma seleção 100% mineira, mas pelos serviços pres­tados ao futebol brazuca, pelo me­nos dois teriam vaga garantida no time. Fernando Pie­ruccetti, o Manga­beira, criou na década de 1940, quan­do trabalhava na Folha de Minas, talvez um dos símbolos mais significativos do esporte, ca­paz de ser mais fa­moso que o próprio nome do clube: o Galo. “O A­tlé­tico sempre foi um ti­me de raça. Mais parece um galo de bri­ga, que nunca se entrega e luta até morrer”, contava o chargista, que morreu há cinco anos. Ao lado do ex-jogador Zé do Monte, Man­gabeira é considerado  dos grandes responsáveis pela po­pularização do mascote. Além do Ga­lo, criou também a Raposa do Cru­zeiro, o Coelho do América e o pró­prio Canarinho da Seleção Bra­sileira.
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Inspirada no clássico O Pequeno Príncipe, o cartum de Rodrigo Rosa, vencedor do Primeiro Salão de Humor de BH

Outro que contribuiu para a po­pularização de mascotes no futebol brasileiro foi Henrique de Souza Fi­lho, o Henfil, quando trabalhava no Jornal dos Sports, no Rio de Janeiro. O criador da Graúna se incomodava com o fato de os símbolos dos clubes cariocas serem inspirados em personagens norte-americanos, como o Popeye (Flamengo) e o Pato Donald (Bo­tafogo). Em 1969, os torcedores sol­­taram um urubu no gramado antes do clássico Flamengo e Bo­tafogo. A a­ve deu sorte ao time rubro-negro que ganhou a partida por 2 a 1. “No dia se­guinte ele fez uma charge”, lembrou o filho do cartunista, Ivan Cosenza, responsável pelo acervo do pai. O Henfil também criou outros personagens do futebol carioca lembrados até hoje, como um português bigodudo, o Ba­calhau, para o Vasco, um sujeito en­gravatado, o Pó-de-Arroz, pa­ra o Flu­minense, o Cri­cri, que era o torcedor do Botafogo da­quela é­poca, e o Gato Pin­gado, que era o do Amé­rica  do Rio.
* Geraldo Goulart
Jaguar: “O mineiro tem temperamento introvertido. Isso leva a pessoa a ter vida interior, com grande senso de observação”

Mas, apesar da veia cômica dos mineiros, foi um gaúcho, Ro­drigo Rosa, que venceu a categoria cartum do primeiro Salão de Hu­mor de BH, cujo tema é o lixo. “Ele é genial”, aponta. Rosa venceu com um cartum inspirado na obra do francês Antoine de Saint-Exupéry, o clássico O pe­que­no príncipe. No de­senho, o per­sonagem central é suspenso por um balão de urubus em meio a um lixão, do tipo Ilha das Flores. A mostra pode ser vista em Itabira, para onde seguiu abrindo a Semana de Drum­mond.

Apesar da tradição mi­neira, para fa­zer fa­ma muitos car­­tu­nis­tas locais tiveram que deixar as montanhas e ga­nhar outros ho­ri­zon­tes: “Fui o primei­ro a não ir pa­ra o Rio, dessa tur­ma aí”, diz Luiz Os­valdo Rodrigues, o Lor, 60 a­nos, e um dos 25 mineiros ho­menageados no primeiro Salão de Humor de BH, além de atuar como curador na mostra. “Bor­jalo e Mangabeira são cartunistas de uma geração em que havia u­ma imprensa no Rio de Janeiro que cen­tralizava a co­municação. Era um mi­neiro que le­va­va outros mineiros para lá. Ziraldo recebeu o Henfil, o Nani, o Nilson, o Mayrink, vários cartunistas foram re­cebidos pelos que já estavam na grande imprensa do Rio. Tenho im­pressão de que isso nos in­fluenciou. É uma hipóte­se”, disse Lor, natural de Lambari, no sul de Minas.
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Sarkozy e Carla Bruni em versão bem-humorada de Dalcio Machado

Embora o início da ascensão dos mineiros sobre o universo do humor gráfico remonte aos idos dos anos 40, a história do cartum do Brasil começa ainda no tempo da colonização, com Dom Pedro sendo retratado de maneira escrachada pelos desenhistas da época, como R­afael Bordalo Pinheiro, Luís Borgo­mainerio e Angelo A­gos­tini, considerado um dos primeiros cartunistas brasileiros (embora italiano de nascença) e o mais importante artista gráfico do Segundo Rei­nado. Esses artistas tiveram papel fundamental no movimento abolicionista. Mas coube a um mineiro, Ziraldo Alves Pinto, 77 anos, lançar a primeira revista em quadrinhos brasileira feita por um só autor: A Turma do Pererê. Os trabalhos de Ziraldo, se­gundo sua própria biografia, já foram traduzidos para diversos idiomas e “representam o talento e o hu­mor brasileiros no mundo”.
 
Outra curiosidade é que os mineiros também contribuíram para a in­cursão do humor gráfico na TV. Bor­jalo, que atuou 36 anos na Rede Glo­bo, adaptou seus desenhos para a telinha. Um dos destaques foi a Ze­brinha Falante, criada em 1973 para di­vulgar os resultados da loteria esportiva. Já nos anos de 1990, usando computação gráfica, criou alguns "car­tuns-eletrônicos" para as vinhetas de intervalo da Globo, os famosos "plim-plins", que reuniram a nata do cartum nacional, entre os quais, claro, figuravam vários mineiros.

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