| Marina Spínola |
Segunda língua? Eis a questão...

Um deslize na língua portuguesa cometido pela celebridade-mirim Sasha Meneguel, 11 anos, no site de miniblogs Twitter, esquentou o debate sobre o ensino da língua estrangeira para crianças. Ao contar que faria uma “sena” (sic) no set de filmagem de Xuxa e o mistério de Feiurinha, Sasha foi alvo de inúmeras críticas e piadas. Em defesa da filha, Xuxa justificou o erro com o argumento de que Sasha foi alfabetizada em inglês. Do mundo virtual para a vida real, a Encontro pegou carona na polêmica e investigou as vantagens e os desafios do ensino de idiomas na infância.
Originalmente criadas para atender os filhos de estrangeiros de passagem pelo Brasil, as escolas bilíngues são caracterizadas pela oferta do idioma estrangeiro com carga horária igual ou maior do que aquela dedicada à língua materna. Desde os dois anos de idade, a criança passa a frequentar as aulas oferecidas em idioma estrangeiro. A ideia é iniciar o aprendizado da segunda língua e da língua-mãe e realizar a alfabetização nos dois idiomas, simultaneamente.

O ensino do inglês, em imersão total a partir dos 2 anos de idade, foi fator decisivo para a empresária Carla Figueiredo escolher a escola dos filhos. “Antes de qualquer coisa, hoje em dia, para ser um cidadão é preciso conviver neste mundo globalizado e para isso é fundamental dominar o inglês”, avalia Carla, que matriculou os filhos João Pedro (5 anos) e Eduardo (2) na escola canadense Maple Bear, em Belo Horizonte. Segundo ela, o filho mais novo, que está tendo a primeira experiência em ambiente escolar, aprende o português e o inglês simultaneamente. “O Eduardo entende as perguntas em inglês e responde em português. É muito interessante como ele faz isso de forma natural”, conta.
A coordenadora pedagógica da recém inaugurada Maple Bear, Marisa Coelho, explica que é natural a criança transitar nos dois idiomas, usar palavras das duas línguas numa mesma frase, e isso estaria longe de ser um problema. Segundo ela, até a formalização da alfabetização também é comum a criança cometer equívocos no português e na língua estrangeira. “Não se trata de confusão entre os idiomas. É sinal de desenvolvimento. A criança está passando por um momento em que as estruturas sintáticas e a semântica estão se desenvolvendo. Ela experimenta e aprende com os erros”, pondera.

Nathan Azevedo, 9 anos, estuda há cinco na Fundação Torino, em Belo Horizonte, onde foi alfabetizado em italiano e em português. Ele conta que no início confundia as duas línguas e chegou a cometer alguns erros de ortografia. “Mas qual é o problema? Eu estava aprendendo e todos os meus amigos, inclusive os que só estudavam o português, confundiam algumas coisas. É normal. Não tenho mais nenhuma dificuldade. E o italiano, hoje, também é a minha língua”, enfatiza o menino, com brilho no olhar e bastante desenvoltura. Ele já conta os dias para embarcar para a Itália, no próximo ano, como ocorre todos os anos com os alunos da 5ª série.
De acordo com a professora da Faculdade de Letras da PUC-Minas, Rosana Espírito Santo, os erros revelam o lugar do aluno no processo de aprendizado e é preciso um tempo para o conhecimento se cristalizar. Segundo ela, os pais devem estar atentos à qualificação do profissional que irá lidar com o ensino do segundo idioma. “Também é importante que os pais fiquem alertas para o desenvolvimento integral da criança, identificando as suas potencialidades em geral”, avalia.

Alfabetizados em inglês na Escola Americana de Belo Horizonte, os irmãos Helena, 15 anos, e Sérgio Câmara, 11, contam que não tiveram dificuldade para aprender a segunda língua e se sentem bastante à vontade com o idioma inglês. “A proximidade com uma nova cultura diferente e o contato com pessoas de diferentes nacionalidades, além do domínio do inglês, me fazem sentir muito mais preparado para enfrentar o mundo de hoje”, assinala Serginho. A mãe deles, Cíntia Vilela, diz que ficou apreensiva nos primeiros seis meses de escola dos filhos ainda pequenos, receosa quanto aos obstáculos que poderiam surgir. Mas, segundo ela, as dificuldades foram as mesmas enfrentadas na rotina de toda criança no processo de aprendizado. “Hoje, eles são fluentes nas duas línguas e a Helena já começou a estudar francês e está tendo muita facilidade”, diz.
Ela toca numa das vantagens do ensino de idiomas na infância apontadas por alguns estudos. “Não existe um consenso sobre o assunto. Mas muitas pesquisas indicam que ao aprender uma segunda língua na infância, são abertas novas janelas de oportunidades para outros aprendizados, a criança apresenta maior ganho no desenvolvimento cognitivo, facilitando o aprendizado em outras áreas”, considera a professora da Faculdade de Educação da UFMG, Rita Lajes. Ela, no entanto, faz um alerta: a escolha de uma escola bilíngue ou o aprendizado de uma língua estrangeira não deve ser feito apenas pela oportunidade de aquisição de outro idioma. “É importante que a aquisição de uma segunda língua não seja considerada somente fator de distinção social, em que o idioma é visto apenas como a porta de entrada para o mercado de trabalho. A educação bilíngue precisa ser vista como uma oportunidade de formação de um sujeito de pensamento crítico, que vai aprender a respeitar as diferenças convivendo em um ambiente multicultural”, esclarece. Ela frisa que não deve haver prevalência de um idioma em relação ao outro e os pais devem estar atentos ao projeto pedagógico proposto pela instituição de ensino. “Estas escolas devem formar cidadãos brasileiros”, afirma.

Na avaliação da coordenadora acadêmica da Cultura Inglesa em BH, Cynthia Anastasia, é preciso adaptar a agenda das crianças aos novos tempos, conciliando a escola, o tempo vago e as atividades extras. Ela considera importante que os pais tenham bom senso e sensibilidade para identificar aquilo que o filho gostaria de fazer. “A proposta de ensino precisa ser lúdica, considerar o universo da criança para que ela tenha motivação para aprender”, afirma.
Para a psicóloga e diretora das escolas Red Balloon em Belo Horizonte, Gisele Gilbert, a grande vantagem de se aprender um segundo idioma na infância é a possibilidade de criar um laço afetivo com a língua estrangeira. “Tudo o que é feito na infância, com criatividade e carinho, é mais gostoso e contribui para a criação de um elo de afeto com o aprendizado que ficará ao longo da vida”, pontua. Ela também diz que é preciso cuidar para que o ensino da língua estrangeira não signifique cobranças e acúmulos de expectativas sobre as crianças.

A pedagoga Coli Casasanta traz no DNA a paixão pela educação. Ela é filha da pioneira Lucia Casasanta, um ícone da pedagogia em Minas Gerais e no Brasil. À frente da escola que, há 35 anos leva o nome da mãe, Coli reconhece a importância das línguas estrangeiras no mundo contemporâneo, mas é contra o ensino de idiomas na infância. “A criança tem que aprender primeiro a língua-mãe, aquela em que ela vai se expressar, vai falar de si e de sua alma. Somente depois que ela tiver consolidado o vocabulário da língua materna, deveria ser exposta a outro idioma”, considera. Ela entende que a linguagem surge da necessidade de se expressar. Para ela, as exceções ficam por conta das famílias bilíngues, em que o segundo idioma decorre da necessidade de se comunicar com os familiares.
Para Coli Casasanta, as janelas de oportunidade devem ser utilizadas com brincadeiras, músicas, poemas, e todas as outras formas de expressão. É primordial – no entendimento da especialista – que a rotina da criança tenha um tempo vago, pois é neste período que ela vai organizar o aprendizado, aprender a se conhecer e a se respeitar. “A infância é o território onde são erguidos os alicerces da sua personalidade. A principal tarefa da infância é a construção de si mesmo. Acho complicado sobrecarregar o dia das crianças com tantas atividades. E também sou contra roubar o tempo vago da infância para um aprendizado precoce, que não decorre de uma necessidade real daquela fase”, sustenta.
Por outro lado, não se pode ignorar que muitas palavras estrangeiras, especialmente do inglês, já foram incorporadas à língua portuguesa. “A partir dos 5 anos, quando a criança já possui um bom repertório em português para se comunicar com os seus pares, o inglês pode ser introduzido como uma ferramenta para ajudar com os vocábulos. É uma proposta lúdica e não de ensino de outra língua”, diz Coli Casasanta.
Controvérsias à parte, o interessante é que no rastro da polêmica travada na blogosfera renova-se o debate cada vez mais necessário sobre o papel da escola e das famílias na formação de cidadãos do mundo globalizado. E, diante da falta de consenso, boas doses de responsabilidade e de bom senso não fazem mal a ninguém.

A diversidade cultural no ambiente escolar mudou os planos de Augusto Barreto, 15 anos. Craque do time de futebol da Escola Americana de Belo Horizonte, ele começou a frequentar o colégio este ano, quando teve seu “passe” comprado pela instituição. O convívio com jovens de diferentes nacionalidades e o contato com uma cultura internacional acalentam o sonho de jogar no exterior e cursar uma faculdade norte-americana. Ele conta que a dificuldade com o inglês, disciplina que sempre foi um desafio para ele, vem sendo superada com o apoio dos colegas “Acho este ambiente multicultural muito interessante, e é por isso que pretendo estudar no exterior”, diz Augusto. Nos últimos quatro anos, a Escola Americana de BH exportou 25 atletas para universidades dos Estados Unidos.
Para a diretora didática brasileira da Fundação Torino, Daniela Mendes, a aquisição de outro idioma pode proporcionar uma formação cultural diferenciada, já que a criança desde pequena aprende a conviver com as diferenças e a ser mais tolerante.
Entretanto, os pais que desejam proporcionar aos filhos o ensino bilíngue no Brasil enfrentam alguns desafios. Os preços das mensalidades são salgados. Em Belo Horizonte variam de seiscentos a dois mil reais, e existem poucas opções na cidade. São apenas quatro escolas do tipo.
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