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Dez Perguntas Para

| João Paulo Martins |


O professor da UFMG que se tornou diretor da Google para América Latina fala sobre a empresa, o futuro da web e, claro, a concorrente Microsoft


''Usuário quer estabilidade e rapidez''

* Geraldo Goulart
Berthier Ribeiro, executivo da Google no Brasil: “É inadmissível esperar quatro minutos para a máquina ligar”

YouTube, Orkut, GMail são só al­gumas das ferramentas mais populares da Google, que iniciou as operações de seu escritório no Brasil em 2005. Nesse mesmo ano adquiriu a empresa mineira Akwan Informa­tions Technologiques, composta por professores do Departamento de Ciên­cia da Computação (DCC) da UFMG. Essa aquisição representou também a incorporação do site de busca TodoBr, que era muito popular na época. E com isso, o professor Berthier Ribeiro Neto, do DCC, passou a integrar o quadro de funcionários da Google. Hoje ele é seu diretor de tecnologia para a América Latina e vive em São Paulo. Após realizar palestra no XIX Congresso Brasileiro da Quali­dade e Produtividade, na Fundação Dom Cabral, em Alphaville Lagoa dos Ingleses, concedeu entrevista à Encontro, onde falou da parceria com o governo de Minas no projeto Teia e de outros assuntos, como o sistema operacional Windows, do concorrente Microsoft.

ENCONTRO – Como surgiu seu interesse pela internet?
BERTHIER RIBEIRO – Para eu responder à sua pergunta, vou voltar 15 anos no tempo. Nós estamos em 1995, quando terminei meu doutorado na Califórnia e retornei ao Bra­sil. Foi quando ingressei no Depar­tamento de Ciência da Computação da UFMG, onde continuo como professor, mas antes era em tempo integral, e agora é parcial. Eu era bem envolvido com a vida acadêmica quando começamos a perceber a transformação que estava sendo ge­rada pela internet. Em 1998 nós conseguimos um financiamento para um projeto de pesquisa, mas fomos questionados sobre o que seria feito com ele. Uma resposta comum é que com o financiamento iríamos formar alunos e publicar artigos. Mas alegaram que isso seria feito independentemente do dinheiro e queriam saber o que faríamos a mais com ele.

ENCONTRO – Então foi aí que nasceu o buscador TodoBr?
BERTHIER RIBEIRO – Nós resolvemos fazer uma máquina de busca na internet. Na época o Google não era popular como hoje, e fizemos o TodoBr. O que aconteceu é que o tráfego cresceu muito rapidamente. Pas­savam dois meses e o tráfego dobrava. E desse jeito não dava para continuar com o projeto dentro de um laboratório, sem estrutura adequada, sem pessoas qualificadas para cuidar disso.

ENCONTRO – Como foi parar na Google?
BERTHIER RIBEIRO – Negociamos com a Universidade e cri­amos uma empresa (Akwan). Uma so­ciedade anônima, cujas ações foram depositadas na Fundação Mendes Pi­mentel (Fun­dep), e tiramos a empresa do âmbito acadêmico. Os sócios fundadores, eu fui um deles – eram quatro professores e duas pessoas de fora da UFMG – tinham a ideia de continuar o trabalho que vinha sendo feito. Mas logo vimos que isso não ia funcionar, tirei licença sem vencimento e fui trabalhar em tempo integral na Akwan. Ela conseguiu sobreviver e no final de 2004 a Google nos contatou dizendo que tinha interesse na empresa, e após negociação, foi vendida. E ela foi transformada no Centro de Enge­nha­ria da Google para a América Latina. Foi assim que eu acabei na Google.

ENCONTRO – E esse centro de engenharia tornou-se escritório no Brasil?
BERTHIER RIBEIRO – Só há um escritório de engenharia da Google na América Latina, que é esse em BH. E o de São Paulo fica com a parte de vendas, desenvolvimento de negócios, toda a parte legal está lá. O de Belo Horizonte ficou voltado para tecnologia, desenvolvimento de produtos. As operações da Google são em geral assim, divididas, mesmo na sede da empresa (Califórnia).

* Geraldo Goulart
“Se você criar um produto, se for de interesse de uma fração significativa dos usuários, só então a gente parte para considerações de negócios”

ENCONTRO
– E qual é a filosofia da empresa?
BERTHIER RIBEIRO – A tecnologia está voltada para os usuários, o que é de interesse ou importante para eles. Se você tem uma tecnologia que atrai público, audiência, então você tem um pessoal que se preocupa em complementar a oferta, que em geral, é com propaganda. São dois momentos, a criação da tecnologia, que nessa hora não deve sofrer interferência de questões financeiras, que ficam para depois. Se você criar um produto, se for de interesse de uma fração significativa dos usuários, só então a gente parte para considerações de negócios.

ENCONTRO – Qual a importância da parceria firmada com o governo de Minas no projeto Teia?
BERTHIER RIBEIRO – Foi uma iniciativa do governo do estado, da Secretaria de Educação. O interessante da iniciativa é o teor da proposta, onde você tem atores entre os usuários, que colaboram com o conteúdo, que seja de utilidade para outros atores, que são, por exemplo, estudantes, ou pessoas da rede. Essa arquitetura aberta, onde você não tem um centro que gera informação para os outros, e sim, milhares de atores que geram e consomem informações. Essa abertura nas relações é um tema de grande paixão para nós.

ENCONTRO – O Teia representa a internet ideal, democrática?
BERTHIER RIBEIRO – Acreditamos numa internet aberta, e portanto apoiamos esse projeto, cujo objetivo é de maior interesse dos usuários. E ele tem sido bem-sucedido, e qualquer sucesso futuro terá como razão esse princípio.

ENCONTRO – Como surgiu a ideia de trazer o Street View, mapeamento fotográfico de ruas e pontos de interesse, para Belo Horizonte?
BERTHIER RIBEIRO – O Street View teve um acordo muito diferente do que fizemos com a Secretaria de Educação de Minas Gerais. Ele foi firmado com a Fiat, e utilizaríamos seus carros para percorrer as ruas das principais cidades do país, tirando fotografias para complementar a oferta de mapas para navegação virtual, em 360 graus. No Street View temos nove câmeras dispostas no veículo.

ENCONTRO – E o sistema operacional que vocês pretendem lançar?
BERTHIER RIBEIRO – Ele é um projeto. Por isso não temos muito o que dizer. O importante é que parte da mentalidade da Google para melhoria da experiência do usuário. Esses sistemas que estão aí foram criados 25 anos atrás. Hoje é inadmissível esperar três, quatro minutos para a máquina ligar. Quando você vai ao cinema, só quer saber a que horas vai começar a sessão. O usuário quer estabilidade e rapidez. A ideia é ‘qual sistema operacional podemos construir para melhorar a experiência de navegação?’.

ENCONTRO – Vocês pensam em concorrer com o Windows?
BERTHIER RIBEIRO – Nosso foco em princípio é o netbook (menor que um notebook e visa ao uso da internet e e-mails). Nossa i­de­ia não é concorrer com a Mi­crosoft. Faremos o possível para ter um produto que proveja uma experiência melhor ao usuário. Mas quem po­de avaliar isso são eles próprios.

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