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Segurança

| Eliza Peixoto |


Belo-horizontinos de diversos bairros resgatam o conceito de vizinhança solidária na busca por mais segurança com programa em parceria com a PM


Vizinhos, sim, e amigos também

* Geraldo Goulart
Marcus Vinicius Tamietti: organização beneficia a comunidade inteira

Eram dez horas da manhã quando a técnica de enfermagem Edina da Rocha Coelho, moradora do bairro Renascença, região nordeste de Belo Horizonte, chegou à janela de seu apartamento e observou na rua uma cena no mínimo suspeita: um carro parado com o motor ligado, um rapaz olhando com atenção os outros veículos estacionados e fazendo sinais com a mão para alguém escondido. Ela não teve dúvidas: pegou o apito e começou a apitar, avisando os vizinhos de que algo estranho ocorria. Eles responderam e o som de dezenas de apitos to­mou conta da rua. Assustados, os suspeitos entraram no carro e fugiram. Do veículo que seria roubado, conseguiram levar apenas o som. Avisada, a polícia chegou em cinco minutos e saiu em perseguição ao carro dos la­drões que, por sinal, era roubado. Esta foi uma ação preventiva do programa Rede de Vizinhos Protegidos, uma par­ceria entre a população de alguns bairros da capital e a Polícia Militar de Minas Gerais (PMMG), que leva segurança às ruas onde está implantado, por meio da participação dos moradores. Para Edina, que viveu esta experiência, “foi a prova concreta do funcionamento do programa e de que va­le a pena ser solidário.”

* Geraldo Goulart
Edina da Rocha Coelho: apito é arma poderosa para alertar vizinhança

A essência do Rede de Vizinhos é a proximidade entre polícia e comunidade, a vigilância constante e a cumplicidade entre os moradores, cujos olhos funcionam como câmeras vivas de segurança. A arma usada é o apito. Além disso, a população adota estratégias de prevenção ao crime sob orientação da PM. O bairro Cai­çara, na região noroeste, foi o pioneiro na implantação do programa, em 2006 e, devido ao sucesso com a diminuição dos crimes no local, foi se espalhando para outros locais. Atualmente está funcionando em cerca de 40 bairros. A extensão mais recente do programa foi no tradicional Santa Tereza, lançado em setembro com a simulação de um “apitaço” na praça Duque de Ca­xias, coração do bairro da região leste.
Dicas de segurança

A oportunidade faz o ladrão; portanto, para evitar assaltos:

Não exiba ou conte dinheiro em público.
Carregue cartão de crédito ao invés de dinheiro ou talão de cheques.
Bolsas ou sacolas de compras devem ser transportadas junto ao corpo e do lado de dentro da calçada.
Desconfie de estranhos que tentem uma aproximação.
Evite ruas escuras ou desertas. Se não tiver jeito ande pelo meio da calçada e contra o sentido do trânsito, assim será mais fácil perceber a aproximação de veículo suspeito.
Antes de sair de qualquer local verifique se há algum suspeito por perto.
Evite usar relógio e jóias em locais de grande concentração de pessoas.

* Geraldo Goulart
Geraldo Magela da Costa: adisposição dos vizinhos é fundamental para projeto funcionar

Geraldo Magela da Costa, presidente do Consep 20 (Conselho de Segurança Pública da 20ª Cia. do 16º Batalhão de Polícia Militar) e do Gru­po Assistencial Amigos de Belo Ho­rizonte (Gaam-BH ), é um dos responsáveis pela implantação do programa em vários bairros das regiões leste e nordeste da cidade. Ele explica que a questão não é só a segurança, mas também envolve o relacionamento entre vizinhos, o resgate da amizade, do convívio social e da solidariedade entre as pessoas, a liberdade de conversar com os amigos na porta de ca­sa, enfim é a recuperação da qualidade de vida. Segundo ele, “o programa é uma iniciativa da PMMG e para implantá-lo é necessária a participação de uma organização civil, que represente o bairro, e acerte a parceria junto ao batalhão de polícia responsável pela re­gião. Co­mo nem to­dos  os bairros con­tam com uma as­soci­a­ção de moradores, a Gaam faz essa pon­te. De­pois dos contatos com a polícia, é mar­cada uma reunião com os morado­res com a presença dos militares pa­ra que eles decidam pela adesão. Depois disso, cada um faz o trabalho de mobilização em sua rua, pois é preciso que a maioria dos moradores participe, adquirindo e co­locando a placa indicativa na casa ou prédio e o apito, que é padronizado para o som ser reconhecido por todos, quando, em caso de perigo, se fizer um “apitaço”. Geraldo Magela alerta, no entanto, que não basta colocar a placa; é preciso o envolvimento e a disposição dos vizinhos para observar o movimento da rua, das casas e avisar a todos, por meio do apito, se existir uma situação suspeita. Ao mesmo tempo entra-se em contato com a PM, por um telefone especial.
* Geraldo Goulart
Ernesto von Sperling, da Amesion, explica detalhes do projeto a Daniela Azevedo com ajuda do tenente Matos

A solidariedade dos vizinhos funciona além da rede de segurança. Mar­cus Vinícius Tamietti, morador do bairro Concórdia e integrante do Gaam, conta que em sua rua um idoso teve um AVC. Sua mulher entrou em contato com um dos integrantes da Rede, que providenciou o atendimento médico rapidamente. Ele ressalta que a organização não substitui a PM: “A pessoa não vai enfrentar um bandido. Vai espantá-lo e agilizar a chegada dos militares.” Marcus comenta também que “as pessoas, agindo organizadamente, beneficiam a comunidade no diálogo com os órgãos públicos”. E cita como exemplo o caso de corte de árvores, de melhoria na iluminação pública e nas soluções de outros problemas. Como, por exemplo, no bairro Renascença, onde um prédio abandonado servia de moradia para drogados e ponto de venda de drogas. A população se uniu, fez um abaixo assinado, reivindicou providências à prefeitura, e o prédio foi desocupado e fechado, graças à ação da Rede.

O comandante do Policiamento Comunitário do setor 3 da 20ª Cia. do 16º Batalhão, que atende vários bairros da região nordeste, sargento Ro­naldo Adriano de Almeida, conhece de perto os resultados do programa. “Desde 2006, quando começou a ser implantado, a taxa de crimina­li­dade na região caiu em torno de 70% e estamos conseguindo man­tê-la bai­xa, com a parceria da população. Uma coisa é certa: quando a co­munidade se envolve, os bons resultados aparecem. Não é à toa que as PMs de Roraima e Ron­dônia estiveram aqui para conhecer o programa e aplicá-lo lá”, comenta. O exemplo mais recente desta parceria foi no bairro Silveira: três rapazes arrombaram o portão de um prédio e foram presos porque um vizinho percebeu a movimentação es­tranha e avisou à polícia. O sargento Ronaldo ressalta que “é preciso criar a cultura da segurança preventiva na po­pu­lação, para dificultar a ação dos bandidos. As pessoas devem adotar certas atitudes que evitam a surpresa de as­saltos. A PM tem procurado agir preventivamente e a colaboração da po­pulação é fundamental.”
 
Em outras regiões da capital, existem iniciativas semelhantes, baseadas na solidariedade entre vizinhos e voltadas para a segurança pública, como o De Olho na Rua, que envolve a participação dos porteiros dos prédios na vigilância, repassando informações sobre suspeitos, por meio de rá­dio, para PM. No bairro Sion, região sul, a Associação dos Moradores e Em­­presários do Sion (Amesion), por exemplo, desde 2002, trabalha com o projeto Sion Seguro. O coorde­­nador deste projeto e diretor da Amesion, Ernesto von Sperling, ex­plica que os princípios são os mesmos do programa Rede de Vizinhos – mo­bilização e participação dos moradores em parceria com a polícia na ga­ran­tia da segurança. Nesse caso, a PM mantém, na sede da associação, uma pequena base com um po­licial de plantão 24 horas, para atender com mais rapidez às denúncias fei­tas pelos moradores. Ernesto co­menta que “desde o início da implantação do Sion Seguro, percebe-se que houve queda nos casos de roubos e assaltos. As pessoas se sentem mais seguras e conscientes de que também são responsáveis pela segurança da comunidade. Não é uma responsabilidade apenas da polícia, mas de todos”.

Mais dicas

Proteja sua casa

Mantenha um bom sistema de iluminação externa.
Não deixe portas e portões abertos, ainda que por pouco tempo.
Antes de sair de casa ou da garagem, observe se existem pessoas ou veículos suspeitos nas proximidades.
Ao atender estranhos, mantenha os portões fechados e as pessoas do lado de fora.
Contrate apenas empregados que apresentem referências idôneas. Confirme-as e confira o endereço deles antes de empregá-los.
Oriente as crianças a não abrir a porta para estranhos.
As pessoas que fazem pesquisas ou que prestam outros tipos de serviços para a comunidade (Cemig, Copasa, Correio etc) devem estar com a credencial da empresa e com a carteira de identidade.
Selecione com cuidado os prestadores de serviços em sua casa (pintor, pedreiros, bombeiros etc.).
Caso note alguma pessoa, motocicleta ou veículo estacionado ou passando repetidamente e observando a sua residência ou o prédio, observe as características e telefone para a Polícia Militar (190).
Instale grades nas janelas, olho mágico, trancas nas portas e interfone.
Não deixe sua residência com aparência de vazia, com cortinas fechadas e luzes acesas dia e noite.
Se for viajar, evite comentar o assunto perto de pessoas estranhas.
Não dê esmolas na porta.
Procure formar uma rede de vigilância comunitária para que haja observação mútua de residências.
Oriente sua família e os empregados para não dar informações particulares a pessoas desconhecidas.
Utilize apenas os serviços de entrega em domicílio, com os quais já estiver acostumado.


Chame a Polícia Militar quando verificar

Luzes acesas ou barulho em casa de vizinhos que estejam viajando.
Pessoas com atitudes suspeitas ou grupos anotando as placas dos veículos estacionados.
Táxi, carro particular ou caminhão recebendo mercadorias volumosas, com as pessoas agindo de maneira nervosa, e sem os cuidados necessários com os objetos a serem transportados.
Estranhos parados em portas ou perto de edifícios ou casas, por muito tempo.

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