| Rafael Campos |
Campeões da vida

“É a vida de volta. É mais importante do que ganhar ou perder”. Essa frase resume bem o sentimento de atletas considerados especiais, não por terem conquistado medalhas ou premiações milionárias, mas pela vitória mais relevante de suas vidas: a superação. O desabafo é de Sérgio Gatto, de 42 anos, ex-vice-presidente do Comitê Paraolímpico Brasileiro. Praticante de tênis sobre cadeira de rodas há 19 anos, o paulista sempre foi um apaixonado pelo esporte, sentimento que não foi enfraquecido mesmo depois de levar um tiro na perna. “No início foi difícil, mas a sensação de ter voltado às quadras foi indescritível”, afirma.
Esporte é sinônimo de superação para dezenas de atletas que todos os anos se reúnem nas quadras de tênis de Belo Horizonte e região metropolitana. O fato de não poderem mais caminhar nem de longe é empecilho para seguirem no esporte. “O tênis é hoje uma das coisas mais importantes para mim”, afirma Rafael Medeiros Gomes, de 19 anos, número um na classificação mineira e cadeirante há cinco anos. Se hoje ele é considerado um vencedor, atribui grande parte disso à família. “Meus pais sempre me apoiaram, pois sabiam da importância disso”, revela ele, que aos dois anos de idade ficou paraplégico, devido a um cisto aracnóide, lesão congênitas que atinge parte do sistema nervoso central. O atleta já se acostumou a disputar competições internacionais. “BH é hoje o principal lugar do tênis sobre cadeira de rodas, pois daqui temos oportunidade de disputar campeonatos de grande expressão”.
Rafael é o primeiro da lista também de outra categoria: a de duplas. Ele forma com o mineiro Daniel Rodrigues, de 22 anos, atual segundo colocado em Minas, a principal dupla do país na modalidade. Em comum os dois atletas não possuem apenas o talento; eles fazem parte da Ong Tênis Para Todos. A entidade surgiu em 2004, na capital, a partir de um projeto experimental realizado no Parque das Mangabeiras, região centro-sul. O objetivo era o de democratizar o acesso ao esporte. Assim, atletas carentes e com necessidades especiais ganharam um alento para seguirem e se desenvolverem no cenário do tênis. “Este projeto foi de suma importância para todos os atletas que queriam ingressar no esporte, mas encontravam dificuldades”, diz Daniel.

Gerson Carlos de Souza é o diretor-executivo do programa, que ajudou a idealizar. Ele conta como a entidade atua junto aos atletas. “Disponibilizamos bolas, raquetes, treinadores e o espaço para treinar. O atleta tem que arcar apenas com o transporte”, destaca, depois de confidenciar: “Essa iniciativa foi desafiadora”. Atualmente, a Ong atua nas quadras da Dynamis Tennis Center, no Olhos d’Água, em BH. Segundo Gerson, o projeto é o maior organizador de competições internacionais da modalidade na América Latina, o que lhe valeu status de programa referência na área esportiva.
Érico Moreira Vasconcelos, de 42 anos, natural de Volta Rendonda (RJ) e morador de Brasília (DF), já se habituou a participar de torneios em BH e reconhece: “A capital mineira tem se destacado, graças ao trabalho sério da Ong”, conta o atleta, acrescentando sobre a importância do esporte para ele, paraplégico há 19 anos, devido a um acidente. “O tênis serve como um desafogo. Faz bem para mente e corpo, além de acabar com o preconceito que existe. Os outros nos enxergam como pessoas produtivas e inseridas na sociedade”, desabafa.

A partir deste ano, a entidade passou a promover o Minas Open, Brasil Open, BH Open, além do Winner Brasil. Recentemente, os 20 principais atletas brasileiros, além de cadeirantes do Uruguai, Colômbia e Chile estiveram na capital, participando do BH Open. Na chave principal, Carlos Jordan, de Brasília, foi o vencedor ao derrotar Christophe Royet, francês radicado em BH. Na chave B, o colombiano Fábio Padilla venceu o mineiro Leonardo Araújo. E na categoria feminina, a chilena Maria Ortiz derrotou a brasiliense Rejane Cândida.
Na primeira quinzena deste mês, os principais cadeirantes mineiros e de outros estados voltam a se encontrar para a disputa do Winner Brasil. O torneio será no Teuto Esporte Clube em Betim, na Região Metropolitana de Belo Horizonte.
Num primeiro momento, as cadeiras de rodas de tênis podem guardar várias semelhanças em relação às convencionais, mas conversando com especialistas, esta ideia é totalmente desfeita. Segundo Sérgio Gatto, que além de praticante é professor da modalidade, o equipamento não serve para o uso diário. “A cadeira é desconfortável para o dia a dia, apesar de ser ágil para o esporte”, explica. Cada cadeira é adaptada de acordo com o tamanho e peso do atleta.
Pode-se dizer que a modalidade é nova, criada em 1976, nos Estados Unidos, por Jeff Minnenbraker e Brad Parks. Mais tarde aconteceria o primeiro torneio, realizado em Griffith Park, na Califórnia (EUA). Em 1988, a Federação Internacional de Tênis em Cadeira de Rodas era fundada, recebendo o apoio da Federação Internacional de Tênis. José Carlos Morais, em 1985, foi o primeiro cadeirante brasileiro. Ele conheceu o esporte quando foi à Inglaterra pela Seleção Nacional de Basquete em cadeira de rodas.
A estreia do Brasil nos Jogos Paraolímpicos foi em Atlanta (EUA), em 1996, tendo como representantes, além de Morais, Francisco Reis Júnior.
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