NEWSLETTER:
Receba novidades da Encontro em seu e-mail
EDIÇÕES ANTERIORES:
Ano:
Mês:              
ACERVO:
Capas
Entrevista

| Marina Spínola |


O secretário-geral do PSDB, Rodrigo de Castro, um dos políticos mais próximos do governador mineiro, defende aliança com o PMDB no estado, fala sobre sucessão presidencial e confirma: se os tucanos vencerem as eleições, os juros cairão e o câmbio será desvalorizado


''Aécio ainda pode ser candidato a presidente''

* Claudio Cunha

Nascido em Viçosa (MG), o deputado federal Rodrigo de Castro (PSDB), 38 anos, pode-se dizer é um fenônemo na política mineira. Em sua primeira eleição, foi o mais votado no  estado na legislatura 2007/2010 e em oito meses chegou à secretaria-geral do PSDB, o segundo posto na hierarquia do partido. Teve participação ativa no projeto do governador Aécio Neves, com quem rodou o país, na tentativa de construir a candidatura do mineiro à presidência do Brasil.

Está decidido a criar uma nova forma de fazer política dentro do PSDB, que valorize as bases e dê voz às lideranças locais. Demonstra uma ponta de desilusão por não ter conseguido organizar as prévias que poderiam ter levado Aécio Neves a ser o candidato do PSDB no pleito nacional de outubro. Talvez por isso demonstre alguma esperança de José Serra não se afirmar candidato e dispara: Aécio pode rever a sua posição e ser candidato a presidente. “Enquanto Serra não anuncia a sua candidatura, nós não temos candidato. E caso ele não anuncie, o Aécio pode reexaminar sua decisão”, diz.
 
Em entrevista exclusiva à Encontro, Rodrigo de Castro falou sobre as eleições para o governo de Minas e arriscou adiantar rumos da política mineira nos próximos meses. Ele acredita, por exemplo, que dificilmente haverá candidatos dos três partidos – PSDB, PT e PMDB – nas eleições para governador no estado. “A disputa deve ficar entre PSDB e PT. O PMDB deve se ligar a alguma legenda. E tem grandes chances que seja conosco, pois a afinidade do PMDB em Minas é muito maior com o PSDB”. O deputado disse que o partido está com bom diálogo com o PMDB e com o próprio ministro Hélio Costa, possível candidato do PMDB ao Palácio da Liberdade.
 
Rodrigo de Castro elogiou o presidente Lula, a quem considera “um grande líder nacional, com carisma extraordinário”. Entretanto, confirmou que caso o PSDB eleja o novo presidente da República serão feitas mudanças na economia, como desvalorizar o câmbio. Criticou a relação do Parlamento com o Executivo, qualificando-a de total submissão e fisiológica, e defendeu diálogo entre o PT e o PSDB para alterar a relação entre os dois poderes.

ENCONTRO – Há possibilidade de o PSDB não ter candidatura própria em Minas e apoiar o ministro Hélio Costa (PMDB)?
RODRIGO DE CASTRO – Não. O PSDB terá candidato ao governo mineiro e este candidato é o Anastasia. É claro que temos diálogo franco com o PMDB e bom diálogo com o Hélio Costa. Tanto o PSDB quanto os nossos aliados estão de braços abertos para receber o PMDB.

* Claudio Cunha
”Não há lugar para três candidatos na eleição para o governo mineiro. O mais provável é que a disputa fique entre PSDB e PT. O PMDB mineiro, inclusive o ministro Hélio Costa, tem mais afinidade com o nosso partido do que com os petistas.”

ENCONTRO – Mas ele ainda apresenta índices poucos expressivos nas pesquisas de intenção de votos. A oito meses das eleições, é possível alterar este quadro?
RODRIGO DE CASTRO – Claro. Ele nunca se candidatou a nenhum cargo eletivo e, por isso, apresenta maior índice de desconhecimento. Mas vem crescendo nas pesquisas, já alcançou dois dígitos e chegou a 12%. Vai ter grande visibilidade na medida em que será candidato ao governo de Minas exercendo o cargo de governador, já que  Aécio terá de se desimcompatibilizar. No ano passado, visitou 150 cidades mineiras e tem desempenhado esta função política cada vez com mais desenvoltura, tranquilidade e naturalidade. Além disso, terá Aécio Neves ao seu lado. Portanto, vamos ganhar o governo mineiro.

ENCONTRO – Na sua opinião, o PT irá lançar candidato ao governo de Minas?
RODRIGO DE CASTRO – Tudo indica que sim.

ENCONTRO – Quem será?
RODRIGO DE CASTRO – O PT vive uma forte divisão interna, polarizando dois grandes nomes: o ex-prefeito Fernando Pimentel e o ministro Patrus Ananias. O grupo ligado ao Patrus acredita que apesar da vitória do grupo do Pimentel nas eleições internas para presidente do partido em MG, o Patrus tem mais chances de vencer as prévias partidárias. É muito difícil dizer. Mas, no quadro que se tem hoje, eu diria, que o candidato seria Fernando Pimentel.

ENCONTRO – Então, como deve ficar a disputa eleitoral em Minas?
RODRIGO DE CASTRO – Não há lugar para três candidatos na eleição para o governo mineiro. O mais provável é que a disputa fique entre PSDB e PT. Outra hipótese menos provável seria PSDB X PMDB, com o PT coligado. Se o PT não se coligar a nenhum, o PMDB irá se unir ao PT ou ao PSDB. E acho que há boas chances de o PMDB se unir ao PSDB em Minas. O ministro Hélio Costa terá que se desligar do governo Lula em março. Nós chegaremos a julho com o Serra alcançando bons índices nas pesquisas. O PMDB mineiro, inclusve o ministro Hélio Costa, tem mais afinidade com o nosso partido do que com os petistas. Isso tudo nos leva a crer que poderemos ter Hélio Costa no nosso palanque.

ENCONTRO – Como andam as discussões em torno do vice da chapa ao governo mineiro?
RODRIGO DE CASTRO – Não é o momento de definir o vice, porque a primeira etapa é formar esta aliança. A partir do momento que tivermos a aliança definida, pensaremos e definiremos o nome do vice.
* Claudio Cunha
”Atualmente, a relação do Congresso com o governo federal é de total submissão e de fisiologismo. Isso é muito danoso para o país. Reconheço que a prática esteve presente em todos os governos, mas nunca foi tão forte como agora”

ENCONTRO – O governador Aécio Neves é fundamental na sucessão mineira?
RODRIGO DE CASTRO – Sem dúvida. Aécio é, hoje, o maior líder político de Minas Gerais, é respeitado e admirado por todos os mineiros, é um grande nome da política nacional, fez o melhor governo da história de Minas. Nos últimos dois anos, a agenda política do governador ficou muito voltada para a esfera nacional. Agora, poderá dedicar mais tempo a Minas Gerais e ao projeto de manter o ritmo de progresso em Minas. Mas o Anastasia tem brilho próprio, tem história, tem perfil. De modo que a presença do governador vai realçar estas características do candidato.

ENCONTRO – O perfil do vice-governador Anastasia é eminentemente técnico e executivo. Não é político tradicional. Esse é o argumento usado pelo PSDB para desqualificar a candidatura da ministra Dilma à presidência da República. Isso não é incoerente?
RODRIGO DE CASTRO –  Não. São coisas diferentes. Não se pode comparar as duas trajetórias. O professor Anastasia tem muito mais experiência, muito mais êxito e muito mais conhecimento. O que foi feito em Minas, ninguém discute, e foi reconhecido até mesmo pelo Banco Mundial como a melhor experiência na área de planejamento no país. Já o grande feito da ministra Dilma, que é gerenciar o Plano de Aceleração do Crescimento (PAC), é altamente contestado. Eu diria que o PAC é mais uma obra de ficção do que propriamente um caso de sucesso de planejamento. A única similaridade, portanto, ao meu ver, é o fato de que ambos – Antonio Anastasia e Dilma Rousseff – nunca foram votados.

ENCONTRO – Como foi o processo político que culminou na desistência do governador Aécio Neves na disputa com José Serra à candidatura ao  Palácio do Planalto?
RODRIGO DE CASTRO – A proposta do Aécio era de uma candidatura que partisse das bases, que fosse acolhida nas bases do partido. Ele defendia as prévias e não queria ser candidato de cúpula. Ele se propôs o desafio de percorrer o Brasil em 2009 e visitou todos os estados brasileiros. Sou testemunha de que ele foi recebido de maneira muito carinhosa. Mas o PSDB não conseguiu organizar as prévias. Tivemos problemas com as determinações legais baixadas pelo TSE e a própria organização do partido, que ainda é muito tímida para fazermos um grande evento. A partir do momento em que as previas ficaram inviabilizadas ele entendeu que não seria bom a candidatura nascer de uma disputa. Então, Aécio Neves abriu mão para o governador José Serra.

ENCONTRO – Qual foi o objetivo do governador Aécio Neves com este gesto?
RODRIGO DE CASTRO – Foi um gesto nobre e de muita sagacidade. Porque na eventual disputa de cúpula, como São Paulo tem um peso muito forte no partido, haveria o risco de ele não ser o escolhido. E o destino de Aécio ficaria atrelado ao partido. Com a sua decisão de sair da disputa, Aécio Neves recuperou as rédeas do seu destino político e a responsabilidade da candidatura presidencial está toda no Serra. Então, hoje há grandes chances de José Serra ser o candidato do PSDB, pois isso só depende dele. Mas como ele ainda não disse o “sim”, ainda há possibilidade de Aécio rever a sua decisão. As portas não estão fechadas.
* Claudio Cunha
”O câmbio sobrevalorizado dá muito prejuízo aos produtores nacionais, à agricultura e à indústria. Estas questões não foram enfrentadas com coragem pelo governo Lula. Nós [PSDB] vamos fazer isso”

ENCONTRO – O sr. está dizendo que Aécio ainda pode ser o candidato do partido à presidência?
RODRIGO DE CASTRO – Claro. Agora, só depende do Serra. Ele tem até março para se decidir e anunciar a sua candidatura.

ENCONTRO – Por que o Serra ainda não anunciou a sua candidatura?
RODRIGO DE CASTRO – Ele tem as suas razões. Ele diz que como São Paulo é um estado gigantesco, e por conta do compromisso com a população do estado, é preciso aguardar o momento adequado para se posicionar. Dia 31 de março é a data limite.

ENCONTRO – Sendo o Serra o candidato a presidente, Aécio Neves sairá para o Senado?
RODRIGO DE CASTRO – Sim. E será um entusiasta em Minas da candidatura José Serra. O PSDB mineiro e todos os partidos da base aliada do governador Aécio estarão juntos com o Serra.

ENCONTRO – Mas o eleitor mineiro de Aécio Neves está frustrado. É possível transferir esses votos para Serra?
RODRIGO DE CASTRO – É claro que há uma decepção. Todos gostariam de ver Aécio Neves candidato a presidente. Mas na medida em que este cenário não se concretiza, o Serra passa a ser a melhor opção para o brasileiro, inclusive o povo mineiro. Com o Aécio participando ativamente da campanha,  iremos demonstrar isso para o eleitor e seremos muito competitivos. Aécio tem condições de dar a vitória a José Serra em Minas Gerais.

ENCONTRO – Há possibilidade de o Aécio ser vice do Serra?
RODRIGO DE CASTRO – Isso está descartado. Aécio tinha o projeto de ser presidente, mas isso não se concretizando, ele estará no Senado. O Senado precisa de um nome como Aécio. Nos próximos anos, ele continuará sendo um grande líder nacional, referência na política brasileira e poderá contribuir muito para o Brasil no Senado da República.

ENCONTRO – E como ficaria a segunda vaga para o Senado?
RODRIGO DE CASTRO – A eleição para o Senado é sempre muito disputada. O quadro ainda está indefinido principalmente por parte da oposição. O PT está dividido e ainda não se entendeu com o PMDB. O PSDB pode compor com algum partido e a segunda vaga também pode ser nossa, seja com o Itamar Franco ou outro grande nome que vier a nos apoiar.

ENCONTRO – Essas eleições serão realmente um plebiscito? Isso é bom para o PSDB?
RODRIGO DE CASTRO – Este plebiscito é falso. O PT quer reviver uma agenda que não existe mais. O governo FHC e o governo Lula fazem parte do passado. Nas eleições deste ano, o que estará em jogo é o futuro, aquilo que o Brasil deseja daqui para a frente. O país precisa de uma agenda muito mais ampla, inclusive, do que foram os governos FHC e Lula. 

ENCONTRO – O senador Sérgio Guerra afirmou  que o PSDB fará mudanças na economia, caso eleja o novo presidente da República. O que podemos esperar do PSDB?
RODRIGO DE CASTRO – Há falta de sintonia entre a figura do presidente Lula e a administração pública – ele é um grande líder no país, com carisma extraordinário e fez movimentos importantes, especialmente, na área social. Mas a política econômica é extremamente ortodoxa. O governo petista aparelhou a administração pública e tomou os movimentos sociais, como é o caso do movimento estudantil. Hoje, ele é um movimento pelego, esvaziado, sem bandeiras. Temos uma nova agenda para o país, centrada na administração pública eficiente, fazendo com que o Estado gaste menos com a máquina e mais com o cidadão. A gestão dos programas está muito ruim no governo Lula, basta ver os números do PAC. Na economia, a estabilidade é uma conquista que não pertence a partidos, é da sociedade. Os fundamentos devem ser preservados, mas há duas questões que devem ser enfrentadas: as taxas de juros escorchantes e o câmbio sobrevalorizado, que prejudica setores como a agricultura e a indústria de exportação. Estas questões não foram enfrentadas com coragem pelo governo Lula. Nós vamos fazer isso.
* Claudio Cunha
”Defendo o diálogo entre PT e PSDB, para alterar a relação submissa e fisiológica entre o Legislativo e o Executivo. São os dois grandes partidos do país, já governaram e sabem das dificuldades”

ENCONTRO – É possível governar, hoje, sem mensalão?
RODRIGO DE CASTRO – Com certeza, sim. Temos o caso de Minas Gerais. Aqui, estabelecemos uma relação de respeito, confiança e diálogo com a Assembleia Legislativa, reconhecendo o papel da oposição. Há um diálogo sereno com todos os deputados, mas nunca uma relação de troca.

ENCONTRO – E o fato de o senador Eduardo Azeredo (PSDB/MG) ter se tornado réu no Supremo Tribunal Federal, por conta do suposto mensalão mineiro?
RODRIGO DE CASTRO – Não existe mensalão mineiro. Houve problema na prestação de contas da campanha do senador Eduardo Azeredo. Ele é honesto e motivo de orgulho para todo o PSDB. Não temos o menor constrangimento de falar isso.

ENCONTRO – O que leva um governante, como o governador do Distrito Federal José Arruda (DEM/DF), com popularidade e experiência, a cair nos desvios da política?
RODRIGO DE CASTRO – É muito difícil dizer  por que que se chega a isso. Mas o fundamental é que não precisa chegar. A política pode ser feita de maneira séria. É lícito um deputado indicar emendas para as suas bases de apoio, defender seus interesses junto ao governo, isso faz parte da atividade política. Mas é sempre danoso quando se caminha para a zona cinzenta de transformar esta relação em apenas relação de troca e de ganho pessoal.

ENCONTRO – O escândalo com o governador Arruda prejudica a candidatura tucana à presidência do Brasil e a relação do PSDB com o DEM?
RODRIGO DE CASTRO – Não. Foi um episódio muito decepcionante, mas localizado. Não acredito que isso nos prejudique.

ENCONTRO – O sr. começou o primeiro mandato de deputado federal depois de uma crise que fez desmoronar a imagem do Congresso. Como tem sido a sua experiência na Câmara?
RODRIGO DE CASTRO –  Na Câmara, vivi o pior momento do Congresso Nacional. Hoje, a relação do Congresso com o governo federal é de total submissão e de fisiologismo, o que é danoso para o país. Isso sempre esteve presente em todos os governos, inclusive no nosso [FHC, 1995-2002]. Mas nunca esteve tão forte como é agora no governo do PT. Parece que os partidos e os parlamentares estão no Congresso para indicar alguém ao governo e terem retorno particular. A pergunta é: qual será a próxima crise?

ENCONTRO – É possível mudar este quadro?
RODRIGO DE CASTRO – Sim. Para isso, defendo, no próximo governo, o diálogo entre PT e PSDB, para alterar a relação submissa e fisiológica entre o Legislativo e o Executivo. São os dois grandes partidos do país, já governaram e sabem das dificuldades e têm grandes quadros e projetos para o Brasil. Também é importante fortalecer aqueles parlamentares que realmente queiram trabalhar com propostas sérias e queiram enfrentar os grandes temas que vemos pela frente, como por exemplo, as reformas estruturais que o país ainda não viveu.

ENCONTRO – Na sua opinião, quem é a grande liderança política brasileira da atualidade, fora das hostes do PSDB?
RODRIGO DE CASTRO – A nova geração me enche de ânimo. Cerca de 10% do Congresso tem menos de 33 anos. Tem o ACM Neto na Bahia (DEM/BA), a Manuela d’Avila, no sul do país (PCdoB/RS), por exemplo. São pessoas que surgem com novas ideias e arejam a política. É um privilégio fazer parte desta nova geração e ter papel de destaque na política nacional.

Sugerir matéria


Mais lidas

© Editora Encontro Importante Ltda - 2009
Rua Haiti, 176, 3º andar, Sion 30.320-140, Belo Horizonte - MG, Fone (31) 2126-8000


Desenvolvido por eutsiv
uaiGo