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| José João Ribeiro |


Apostas douradas

* Divulgação
Cena do filme Educação

Com o preço dos ingressos cada vez mais nas alturas, muitos brasileiros entram nas salas de exibição somente quando acreditam de fato que determinado filme merece ser prestigiado antes de seu lançamento em home video. Além disso, no país não acontece (ainda) o fenômeno norte-americano, que praticamente empurra todo cidadão de bom senso para o multiplex mais próximo em qualquer santo fim de semana. Nossa febre, vale afirmar, persiste em ir sofrer nos estádios acompanhando apaixonadamente pífios campeonatos futebolísticos.

Para aqueles que valorizam seus suados caraminguás, um precioso aviso: esta é de longe a melhor época do ano para ir ao cinema. As produtoras nos EUA reservam seus tesouros para estrear sempre de novembro em diante, com o intuito que estes fiquem fresquinhos nas cabeças votantes dos prêmios mais representativos da indústria (Oscar, Globo de Ouro, Sindicato de Atores, Sindicato de Produtores, de Roteiristas, Associações de Críticos, Bafta etc.). É a conhecida e aguardada “temporada do ouro”.

No Brasil, os já indicados a qualquer-coisa, começam a pipocar na segunda quinzena de janeiro, têm seu ápice na festa de Momo e, se brincar, dependendo da quantidade somente se esgotam em abril ou maio nas salas de projeção.

Para as primeiras semanas de 2010 temos filmes para todos os gostos: George Clooney, bastante desiludido e prático, atravessa a América assolada pela crise econômica em Amor sem escalas (Up in the air), demitindo funcionários em empresas (o que os americanos chamam de downsizings), novo filme do cada vez melhor Jason Reitman (Juno). Já em Invictus, nova empreitada do mestre Clint Eastwood, Morgan Freeman finalmente realiza seu sonho de interpretar Nelson Mandela, dividindo a cena com Matt Damon, como um jogador de rúgbi muito loiro e muito forte. Há ainda o projeto dos irmãos Coen que optaram por revisitar o Livro de Jó no meio-oeste caipira em Um homem sério (A serious man). Na categoria “filme bonito”, escolha Educação (An education), com roteiro do pop Nick Hornby, drama em que uma típica teenage girl (a revelação Carey Mulligan, barbada entre as indicadas) se apaixona por um homem mais velho.

Fato curioso: um filme lançado diretamente em DVD no país (que ninguém viu) por erro da distribuidora Imagem Filmes, no ano passado, se tornou o queridinho dos críticos americanos. É Guerra ao terror (The hurt locker), da diretora Kathryn Bigelow. Ele está presente em todas (você leu certo: TODAS!) as listas de melhores de 2009, assim como a de indicados a melhor filme. Resultado da escorregada: mea culpa da Imagem e estreia em circuito, garantida nas primeiras semanas de fevereiro.

Alerta ainda para Preciosa (Precious), belíssimo e doloroso longa-metragem com a história de uma garota negra, analfabeta e obesa (Gabourey Sidibe), que padece entre seus colegas adolescentes e em casa, onde estabelece uma delicada relação com a mãe (Mo’Nique, certamente a ganhadora de melhor atriz coadjuvante nos prêmios da Academia).

No terreno “notáveis atuações”, há a estreia do designer Tom Ford como cineasta, com a quintessência do bom gosto e requinte A single man (título no Brasil? Desconsidere. É horroroso: Direito de amar). Nele, o desempenho do britânico Colin Firth é nada menos que extraordinário. Mas não esqueça de conferir Coração louco (Crazy heart), filme que a Fox lançou apressadamente para o bom rapaz Jeff Bridges ganhar o Oscar por interpretação masculina.

Para encerrar, depois de tantas dicas afoitas e diversificadas, ao mesmo tempo extremamente obrigatórias aos apaixonados pela sétima arte, uma provocação: Qual destes será eleito melhor filme no Oscar, que terá dez indicados (número inédito) este ano? Resposta: nenhum deles. Vale afirmar que o dinheiro, o mercado berrará mais alto e Avatar, a superultramegaprodução ganhará o prêmio. Novamente James Cameron presta um desserviço histórico ao cinema, impondo um cansativo longa-metragem, repleto de clichês, raso, chato, com diálogos de chorar e que seguramente envelhecerá mal, muito mal. Mesmo com reconhecido e impressionante avanço tecnológico, é triste, lamentável.

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