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| Marina Spínola |


Dirigente empresarial explica por que o álcool está tão caro nos postos


“O preço do álcool está fora da realidade”

* Henrique Pimentel
Luiz Custódio Martins, presidente do sindicato que reúne os usineiros: o Consumidor deve usar o álcool se este estiver 30% abaixo da gasolina. Caso contrário, deve usar a gasolina

Nos últimos meses, o Brasil vem assistindo ao aumento no preço do álcool combustível. Em Belo Horizonte, o preço médio do litro já acumula alta de 6,23% só em 2010. Em alguns postos, o combustível já é vendido acima dos dois reais. “O preço está fora da realidade se considerar que o custo de produção é de 80 centavos por litro”, afirma o presidente do Sindicato da Indústria do Açúcar e do Álcool de Minas Gerais (Siamig/Sindaçúcar-MG), Luiz Custódio Cotta Martins.  Ele explica que o vilão da história foi a  chuva, que se antecipou e pegou de surpresa os produtores, prejudicando a produção. Com a demanda aquecida por causa do aumento de veículos flex e a queda na produção, os preços foram às alturas.

Em entrevista a Encontro, Luiz Custódio fala sobre o momento que jogou o setor sucroalcoleiro no foco dos holofotes, diz que não faltou seriedade dos empresários e usineiros e defende a opção pela gasolina enquanto o preço do álcool não for 30% inferior ao combustível fóssil.
 
ENCONTRO – Por que o preço do álcool aumentou tanto nos últimos tempos?
LUIZ CUSTÓDIO – Nos últimos cinco anos, o setor sucroalcoleiro cresceu muito. Surgiram muitas usinas e foram feitos investimentos altos. Em oito anos, foram instaladas 105 novas empresas no Brasil. Minas Gerais foi o estado que registrou maior crescimento na produção de cana, açúcar e álcool. Com o crescimento da oferta, em 2007 e 2008, o álcool estava sendo vendido com o preço abaixo do custo de produção, que é cerca de 77 centavos por litro e, em maio, ele estava sendo vendido a até 58 centavos do litro. Nesse período, houve crescimento muito grande de veículos flex. Isso fez aumentar a demanda e o consumo de álcool. Ocorre que as chuvas prejudicaram a produção na última safra. Os produtores não conseguiram colher e transportar a cana. Mais de 50 milhões de toneladas ficaram nos campos, o que daria para produzir 1,8 bilhão de litros de álcool e dois milhões de toneladas de açúcar. E quando a oferta fica menor que a demanda, o preço aumenta.
 
ENCONTRO – Quando o preço deve normalizar?
LUIZ CUSTÓDIO – A partir do fim de abril. Este ano, vamos começar a safra mais cedo, no mês de março. Em maio, a oferta será maior do que a demanda e o preço vai cair.
 
ENCONTRO – O preço estava defasado?
LUIZ CUSTÓDIO – Não. O preço estava baixo porque a oferta era grande. Muitas usinas entraram no mercado, o mercado internacional não abriu como estávamos esperando, o mercado interno estava aquecido e as empresas precisavam fazer dinheiro, porque a crise internacional fez sumir o crédito interno.
 
ENCONTRO – A confluência dos fatores (queda na produção e crescimento da demanda) foi boa para o setor, já que o preço aumentou?
LUIZ CUSTÓDIO  – Não. O preço foi corrigido. Mas o setor está deixando de moer a cana. Nesta safra, cerca de 50 milhões de toneladas não estão sendo moídas. Ou seja, o setor também está tendo prejuízo, porque a cana será moída na safra seguinte com rendimento muito ruim.


ENCONTRO – O presidente Lula afirmou recentemente que faltou seriedade por parte dos empresários. Ele está correto?
LUIZ CUSTÓDIO – O presidente Lula é o grande defensor dos biocombustíveis, foi o único que correu o mundo em defesa dos biocombustíveis. Mas não houve falta de seriedade. Houve um problema conjuntural e climático, que afetou a produção e os preços subiram muito. O preço do álcool está fora da realidade, se considerar que o custo de produção é de 80 centavos por litro e ele está sendo vendido a um real e 20 centavos. O litro de álcool está muito acima do preço de custo.

ENCONTRO  – O presidente Lula aconselhou os consumidores abastecerem com gasolina. Esta é uma saída?
LUIZ CUSTÓDIO – A regra geral é esta. O carro flex foi feito para usar dois produtos: álcool e gasolina. O consumidor deve optar pelo álcool se ele estiver 30% mais barato que a gasolina. Se não for assim, é para usar gasolina.

ENCONTRO – Há risco de desabastecimento de álcool anidro para misturar na gasolina?
LUIZ CUSTÓDIO – Não. O nosso compromisso é que não falte o álcool para misturar na gasolina, mesmo com o aumento do consumo. A tendência é que as pessoas consumam mais gasolina, enquanto o preço do álcool estiver assim. Somente em dois estados brasileiros – Tocantins e Mato Grosso – o álcool ainda é mais viável economicamente que a gasolina.

ENCONTRO – O que pode ser feito para que não haja tanta oscilação no preço do álcool?
LUIZ CUSTÓDIO  – Nós estamos estudando com o governo federal a criação de mecanismos de estabilidade, que possam estabilizar o preço, o que é bom para todo mundo: produtor, distribuidor, donos de postos e consumidor. Estamos estudando formas de financiamento de estocagem, mecanismos para que o álcool se torne uma commodity no mercado internacional e possa ser negociado na bolsa. As autoridades estão preocupadas com isso. Outro problema sério é a questão dos impostos. Cada estado adota um imposto diferenciado. É fundamental uniformizar a tributação. Defendo que os combustíveis renováveis tenham  tributação menor que os fósseis para que o consumidor tenha condições de optar por um produto produzido no Brasil, que gera mais empregos e polui menos que a gasolina e mantém a mão de obra no interior. É necessário também ter uma distribuição melhor com a cadeia produtiva. Hoje, só os produtores mantêm o estoque. A distribuidora deveria contribuir.
 
ENCONTRO ­– O Brasil fez uma grande aposta no etanol para o mercado internacional, mas as expectativas não se confirmaram e as exportações do produto caíram. O que houve?
LUIZ CUSTÓDIO – Hoje, praticamente o Brasil e os Estados Unidos detêm cerca de 72% da produção mundial de álcool. Para ele se tornar uma commodity, os outros países têm que produzir, ninguém quer depender do Brasil e dos Estados Unidos em termos de matriz energética. Então, o mercado externo não se abriu – como todos esperavam. Em 2008, o Brasil exportou cinco bilhões de litros de álcool – foi a maior exportação dos últimos tempos – porque os Estados Unidos conseguiram tornar o álcool competitivo no país, mesmo com as taxas altas.  Este ano as exportações foram modestas: três bilhões de litros, porque os EUA fecharam o mercado.
 
ENCONTRO – A fama do setor é a de desrespeitar às condições de trabalho e a legislação ambiental. Isso procede?
LUIZ CUSTÓDIO  – Até 2014, 100% do setor estará mecanizado em Minas Gerais e não haverá mais a queima da cana. O compromisso nacional foi pioneiro. As empresas que cumprirem a legislação vão receber o selo verde. Isso vai separar o joio do trigo. Em todo os setores, há aqueles que sujam a imagem e prejudicam. Com a adesão de 90% das empresas mineiras ao compromisso ficará muito claro quem são os empresários sérios.

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