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| Tião Martins |


“Hoje, ainda que a possibilidade do amor não tenha desaparecido, sua sobrevivência sofre a mesma ameaça a que estão sujeitas expressões dos sentimentos”


Quase um milagre

Tião Martins
Tião Martins

Sem a intenção de comovê-los, posto que têm sua própria estratégia de sobrevivência, talvez mais adaptada que a nossa a tempos escuros, penso que seria saudável se os meninos de hoje aprendessem algo com os meninos antigos. Estes, quando apaixonados, faziam versos inteiros ou de pé-quebrado e ganhavam assim um lugar no coração das meninas.

O amor, acreditem, cresce pela reiteração, que é a sua maior força. Amor silencioso, amor que não fala ou se reprime vai minguando com o tempo e, quando menos se espera, desaparece, substituído pelo vazio, a rotina e a inconsistência.

Nos tempos antigos, as meninas guardavam os poemas, as pétalas de rosas ou as frases soltas escritas em um guardanapo de papel entre as páginas do seu “Diário Íntimo”. Ninguém lhes ensinou que, agindo assim, construíam uma proteção para o próprio amor. Proteção que, em momentos de dúvida, serviria para recuperar a emoção original e preencher eventuais vazios. Mas eram sábias, as meninas, e alguns meninos não ficavam muito atrás.

Hoje, ainda que a possibilidade do amor não tenha desaparecido, sua sobrevivência sofre a mesma ameaça a que estão sujeitas outras expressões dos sentimentos. É como se viver algo mais profundo tivesse se tornado estranha e anacrônica mania, tratável com as pílulas das raves, baladas e nights. “A desilusão e a dor de amor estão fora de moda” – diz João Henrique, que acaba de completar 20 anos, chegou à nona ou décima paixão e se considera um expert no assunto.

Mas esse mesmo João levou um choque, quando a oitava namorada lhe disse que o talento dele para a música é muito sensual: “Fiquei sem palavras, pois ela me pegou assim, de surpresa. Acho que nunca vou esquecer.”

Os sonetos antigos tinham esse mesmo dom da imortalidade, pouco importando a sua obediência estrita à métrica e à rima. O simples fato de que o rapazinho tivesse perdido horas de sono para rimar amor e dor ou girassóis com anzóis (e conciliar os 14 versos de um soneto sem grande impropriedade), já era suficiente para que a menina não o esquecesse.

O pragmatismo característico do nosso tempo não aconselha que os meninos embarquem em tal aventura, mas não lhes faria mal ler os poemas do passado ou aqueles que nascem hoje no laboratório de poetas como Anderson Braga Horta, mineiro de Carangola que há mais de 40 anos escolheu Brasília como porto seguro.

Caiu-me nas mãos, em um fim de semana, o Soneto antigo, do Braga, enviado pelo Paschoal Motta, e encontrei nele ressonâncias de Manuel Bandeira e até de Tomás Antônio Gonzaga. Podem pensar e dizer que o poeta e o seu leitor são resíduos do século XX, não lhes cabendo promover tamanho saudosismo explícito, pois ninguém mais usa o verbo prelibar, o adjetivo perjuro ou a construção de versos na ordem indireta.

O único risco de escrever assim é que o número de pessoas capazes de ler e apreciar poemas é menor a cada dia. Mas Bandeira, João Cabral e Drummond não mediam a sua arte (e a nossa Adélia Prado também não) pelo número de leitores apressados. Nos seus versos, tão inesquecíveis quanto as Flores do mal, de Baudelaire, Braga afirma que “mais forte é amor, se dividido” ou “que do amor sou apenas passageiro”.

Versos, assim como o beijo, nascem para ficar na memória ou entre as páginas do “Diário Íntimo” que a menina e o menino só escrevem hoje em seu próprio coração, quando existe o coração amoroso e não apenas o “grande órgão propulsor” da música de Noel Rosa.
Todo poema, garotos, é quase um milagre. Como o próprio amor.

* Tião Martins é jornalista e escritor.

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