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Artes plásticas

| Daniele Hostalácio |


Glauco Moraes: artista, curador e crítico, ele milita no universo das artes plásticas e busca um dialeto próprio, marca registrada de seu trabalho


Talento múltiplo

* Geraldo Goulart
Talento multifacetado: Glauco Moraes abre seu ateliê para Encontro

Uma exposição de Artes Plásticas realizada na Galeria do PIC Cidade, em 2003, chamou a atenção da crítica especializada. Entre as telas, uma de 3 m por 2,90 m, Os Dez Mandamentos de Moisés. Propositalmente, o artista usava uma temática religiosa, considerada já esgotada, para fazer um trabalho inegavelmente contemporâneo, ousado e provocador. Em meio à tela, várias palavras escritas, e envolvendo o trabalho, uma moldura barroca, folheada a ouro. A obra produziu um choque e arrebatou os críticos. Glauco Moraes, que assinava os trabalhos, foi chamado de a Descoberta do Novo Milênio.
 
A exposição ficou como um divisor de águas na vida do artista plástico, nascido no Amapá, criado até os 3 anos de idade na Guiana Francesa e, a partir dali, um nômade pelo país, tendo vivido em Goiânia, Brasília, Rio de Janeiro e Belém, até lançar sua âncora em Belo Horizonte, em 1989, onde está radicado desde então. Usando acrílica sobre tela, e um estilo barroco-figurativo expressionista-contemporâneo, ele não precisa recorrer a uma profusão de cores para produzir uma obra que exala força. Usa principalmente o preto e o branco, eventualmente uma outra cor e um tema predominante: a figura humana estilizada, com forte raiz brasileira e referência à cultura africana, e o geométrico abstrato. “Esse é o meu carimbo na arte”, revela.

Glauco iniciou sua jornada como artista plástico dedicando-se ao desenho de retratos. “Minha primeira pintura foi feita aos 9 anos, de forma extremamente espontânea. Achei um rosto bonito e o desenhei”. Não parou mais. Precoce, ainda aos 16 anos de idade ele já ministrava aulas de desenho. “Mas meu pai era muito rígido, por isso decidi fazer o curso superior de matemática; paralelamente, meio escondido, fiz Artes Plásticas na Guignard, onde formei em 1996”, conta.

Predestinado a ser artista, pintar era para ele uma necessidade, muito mais que uma escolha. Montou um ateliê de pintura, continuou dando aulas de desenho e, aos poucos, começaram as primeiras exposições. A marca de seu trabalho é um dialeto, que ele criou aos 14 anos de idade – legível, mas que ninguém consegue decifrar – e que ele usa em sua obra, inserindo nas telas vários escritos. “Hoje, o dialeto já possui cerca de 12 mil palavras e está num dicionário que chamo de Diário Secreto. A minha grande obra não está na tela em si, mas nesse grande dicionário”. A escrita se faz presente em quase metade de sua produção. “Já expus o dicionário dentro de uma cúpula de vidro, com cadeado, junto a outras obras. Só depois da minha morte terão acesso ao Diário Secreto e talvez consigam traduzir o que escrevo nas telas”, conta.
 
Van Gogh, Gustav Klint e Anselm Kiefer são os mestres inspiradores do trabalho de Glauco Moraes, que realiza uma pintura matérica. “Muitas pessoas, como a artista Yara Tupynambá, afirmam que minha pintura é gráfica, pelo fato de eu usar muito preto e branco e pouca cor”, observa o artista de 39 anos e 14 anos de carreira. Nesse tempo, ele ganhou vários salões de arte e realizou inúmeras exposições. Sua obra pode ser encontrada, hoje, especialmente na Galeria Primeiro Andar, na capital mineira, e numa galeria em Nova Iorque.

* Geraldo Goulart
A obra de Glauco Moraes tem um tema predominante – a figura humana estilizada – e uma marca: a presença de escritos num dialeto criado pelo próprio artista

Com uma personalidade múltipla, Glauco fez pós-graduação em Arte Contemporânea na Escola Guignard e também um MBA em Gestão Empresarial, o que lapidou sua visão comercial do mercado das Artes e foi importante para o desenvolvimento de uma outra vertente sua, a de curador, atividade que surgiu na esteira de sua atuação como professor de Artes – em 1999, ele abriu a Maison Escola de Arte. “Tornei-me curador por volta do ano 2000. Eu percebia talentos entre os meus alunos da Maison e decidi começar a lançá-los no mercado”, conta.
 
O trabalho de curador, explica, exige o esforço e a sensibilidade de saber distinguir decoração, artesanato e obra de arte, exigindo apuro conceitual plástico e conhecimento do mercado das artes para definir o valor comercial das obras. “O curador direciona o artista. A evolução de uma carreira nas Artes Plásticas é feita através do curador, uma espécie de cicerone”, declara. “Quando ele lança uma pessoa, é como se estivesse assinando o pedigree daquele artista. É um risco”, observa Glauco, que é também crítico de arte.

“Escolhi Minas para viver e trabalhar porque, quando um trabalho é bem sucedido aqui, isso passa a ser uma referência para o restante do país. Além disso, tem o clima da cidade e o aconchego das pessoas”, diz. Contribuir para o cenário das Poéticas Visuais em Minas é um compromisso que Glauco Moraes assumiu e que explica seu mais novo projeto: ele será o curador das páginas de Artes Plásticas da revista Encontro, a partir da próxima edição. “A cada mês, será indicado um artista plástico de renome, ou um veterano que está fixado na arte mineira, para ser retratado na revista. A ideia é que as páginas sejam um espaço de divulgação para o mercado mineiro e nacional e, também, contribuam para que o público leigo possa conhecer mais os artistas”. A lista de nomes que irão integrar o projeto, avisa, já está pronta

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