| Rafael Campos |
Um século de medicina

Mais de 11,5 mil estudantes disputaram no último vestibular 450 vagas nos três cursos da Faculdade de Medicina da Universidade Federal de Minas Gerais (UFMG) – medicina, fonoaudiologia e tecnologia em radiologia e diagnóstico por imagem. O primeiro, tradicionalmente, foi o mais concorrido entre os 73 cursos de graduação oferecidos pela universidade: foram 34,52 candidatos por vaga. Para entender os motivos que fazem da faculdade, às vésperas de seu centenário, uma das mais disputadas do estado e uma das mais qualificadas do país, a Encontro mergulhou a fundo em sua história, folheou livros antigos, teve acesso a documentos históricos e conversou com testemunhas importantes de sua trajetória.
“Escolhi a faculdade, pois acredito que ela tem um compromisso com a sociedade”. A afirmação é da caloura Greiciane Parreiras Lage, de 26 anos, que a partir deste ano irá se aprofundar no curso de medicina. Greiciane e mais 159 alunos que ingressam neste primeiro semestre – os outros 160 começam as aulas em agosto – terão um gostinho especial: iniciam os estudos no mesmo mês em que acontece a largada para as comemorações do centenário da faculdade. E sem dúvida é uma época para comemorar. A faculdade está a todo vapor, uma amostra é a criação do novo curso de tecnologia em radiologia e diagnóstico por imagem, que passou a ser oferecido no último vestibular.
Até o ano que vem, outro curso deve-se somar à grade da escola, o de gestão em gerontologia, que a exemplo do de tecnologia em radiologia e diagnóstico por imagem foi criado a partir do Plano de Reestruturação e Expansão das Universidades Federais (Reuni). “A faculdade continua evoluindo para continuar sendo, ao meu ver, a melhor faculdade de medicina do país”, afirma o diretor da faculdade, Francisco Penna. E é estreitando os laços com o poder público que a instituição pretende permanecer neste caminho.

Um exemplo disso é o internato rural, estágio obrigatório realizado no 11º período. Os alunos são enviados a 37 cidades do interior mineiro, onde são desenvolvidas ações de saúde coletiva. É uma bela oportunidade para os estudantes e futuros médicos conhecerem de perto a situação real da saúde precária em alguns municípios e aprenderem a como agir em situações adversas. “O estudante de medicina aprende fazendo, atendendo e discutindo com o professor”, explica o diretor da faculdade, Francisco Penna, que está indo para o seu segundo mandato.
Foi exatamente desta disciplina de Internato Rural que surgiu o projeto Manuelzão. Poucos sabem, mas o projeto que visa a revitalizar a bacia do Rio das Velhas nasceu em 1997 de uma demanda que os professores sentiam no internato; ou seja, além de diagnosticar e tratar as doenças nos moradores era preciso trabalhar as causas delas. Atualmente, o Manuelzão, que tem como um dos coordenadores Apolo Heringer Lisboa, é um dos principais projetos de extensão da faculdade de medicina da UFMG.

As ações de apoio à saúde pública não param por aí. O programa Nacional de Telessaúde, do Ministério da Saúde, tem na Medicina da UFMG um importante aliado, devido a programas semelhantes lançados anteriormente pela faculdade. Como o próprio nome diz, ele permite que profissionais de saúde de fora dos grandes centros consigam ter acesso às pesquisas e discussões da área por meio de videoconferência. “Da própria cidade, o médico pode enviar um exame de eletrocardiograma para ser avaliado na universidade, o que evita mais ambulâncias trafegando pelas rodovias do estado. Nosso Telessaúde trabalha ainda interligado com a Universidade de São Paulo (USP)”, acrescenta o diretor Francisco Penna.
Outro relevante papel é exercido pelo Núcleo de Ações e Pesquisa em Apoio Diagnóstico (Nupad), órgão complementar da faculdade. Ele é o único serviço de referência em Triagem Neonatal do estado, credenciado pelo Ministério da Saúde. Acompanhado pelo Nupad, o programa estadual de triagem neonatal realiza atualmente o diagnóstico para quatro diferentes doenças: fenilcetonúria, hipotireoidismo congênito, doença falciforme e outras hemoglobinopatias e fibrose cística.
O processo funciona basicamente da seguinte maneira: nos 853 municípios mineiros, as crianças recém-nascidas realizam o teste do pezinho; se diagnosticadas com algumas das doenças citadas, elas podem ser encaminhadas, entre outras cidades, para a capital, onde são acolhidas no Centro de Educação e Apoio Social (Ceaps), no Santa Efigênia. Lá, para as famílias que não têm onde ficar na capital, são oferecidos alimentação, apoio pedagógico, nutricional, entre outros, isso, até o horário das consultas no Hospital das Clínicas/UFMG, Fundação Hemominas ou no Hospital Infantil João Paulo II/Fhemig.

“Muitas vezes, as famílias chegam a casa de acolhimento sem esperança, e é aí que atuamos”, revela Merupe Romanini, psicóloga e coordenadora da brinquedoteca, espaço lúdico-pedagógico para as crianças. Paulo Henrique Gontijo da Costa, de 15 anos, foi o primeiro paciente a ser triado pelo programa. Recém-nascido, ele foi diagnosticado com fenilcetonúria, pato- logia genética causada pela diminuição ou ausência da atividade de uma enzima do fígado, que pode ocasionar retardo mental. A exemplo das outras doenças, se tratada de maneira correta e precoce, as chances de evolução da doença são nulas. Foi o que aconteceu com o jovem, que hoje se mostra confiante e levando uma vida normal. “Cheguei desesperada, pois nem sabia do que a doença era capaz. O apoio que tive aqui foi fundamental”, avalia Leila Azevedo da Costa, de 47 anos, mãe de Paulo.
Outra doença também tem atraído os olhos da Faculdade de Medicina da UFMG, a dengue. Principalmente nes- ta época do ano, todo cuidado é pouco para se evitar o aumento de larvas do Aedes aegypti, mosquito causador da doença. O Núcleo de Educação em Saúde Coletiva (Nescon) desenvolveu o “Quiz” da dengue, espécie de prova online, certificada pelo Ministério da Saúde, para auxiliar médicos, enfermeiros e estudantes das áreas de saúde no combate à doença.

A experiência serviu para gerar outro projeto, o de atuar no combate à influenza pandêmica (H1N1). O núcleo agora trabalha na produção de 700 mil ts com livros e folders, com o objetivo de instruírem médicos e estudantes quanto à doença, que atingiu estágio preocupante ano passado em todo o mundo. “Esse conjunto de materiais serve não só para uso individual, mas principalmente para as práticas coletivas em escolas e outros ambientes educativos e de difusão de informações”, explica o vice-coordenador do Nescon, Edison José Corrêa.
Inúmeras pesquisas em andamento na Faculdade de Medicina da UFMG caminham paralelas a estudos relevantes da sociedade cientifica internacional. O laboratório de Pesquisa em Bacteriologia, por exemplo, entre outros assuntos, está investigando os marcadores, ou seja, fatores de risco que podem causar infecção pela bactéria Helicobacter pylori.
A professora Dulciene Maria de Magalhães Queiroz, coordenadora do laboratório, conta que a bactéria é a principal causadora de doenças gastro- intestinais como a úlcera duodenal, péptica e o câncer. “Temos alguns dados clínicos interessantes que apontam o histórico familiar e a presença da bactéria no organismo como fatores desencadeantes dessas patologias”.
Conforme explica a professora, estabelecer marcadores é importante para tratar realmente aquelas pessoas propícias a desenvolverem algum tipo de doença ligada à Helicobacter pylori. “A infecção pela bactéria é muito frequente no mundo inteiro. À medida que há um grande número de infectados, é grande também a chance de aumentar o número de casos de câncer gástrico, que no Brasil é um problema grave de saúde pública”.

De Guimarães Rosa a Juscelino Kubitschek, são muitos os ilustres alunos que passaram pela faculdade de medicina. Quando entramos na sede atual da escola, localizada na avenida Professor Alfredo Balena, no Santa Efigênia, passamos a respirar história em meio às dezenas de estudantes e professores que por lá transitam. E este ar se torna ainda mais representativo no Centro de Memória da faculdade, inaugurado na década de 1970. No espaço, que está em processo de reorganização para o centenário, podem ser encontrados objetos e equipamentos médicos antigos, fotos de professores e especialistas que mudaram os rumos da medicina no país e, claro, que por lá estiveram. Alzira Nogueira Reis foi a primeira mulher que se formou em medicina no estado. Em 1919, ela concluiu o curso na terceira turma da faculdade.
É no centro de memória que está ainda o professor João Amílcar Salgado, um dos coordenadores e um dos principais idealizadores. Imprescindível fonte da história da faculdade de medicina, João Amílcar é ainda um inquieto pesquisador, hobby que lhe rendeu boas e curiosas histórias ligadas aos ex-alunos ilustres.
Uma delas envolve o escritor Pedro Nava, o ex-presidente JK e o médico Odilon Behrens. Segundo o professor João Amílcar, o estudante Pedro Nava foi expulso da Santa Casa de Misericórdia pelo então diretor da faculdade de medicina, Hugo Werneck. Pedro Nava tinha tudo para ser o orador da turma que estava prestes a se formar em 1927, pois sempre foi adepto a falar em público. “Acontece que Nava nunca escondeu o rancor que guardara do diretor da faculdade, desde a expulsão, e se fosse realmente o orador da turma, teria que enfrentá-lo na frente de todos, durante a solenidade”, conta João Amílcar.
É aí, que entra em cena o então promissor político, JK. Ele interveio e articulou para que Odilon Behrens fosse o orador, evitando assim um desconforto público. Para tentar se conciliar com Nava, JK diz, segundo Salgado: “Errei não ter te apoiado para ser o orador da turma, mas tenho uma função mais importante para você, temos que agradecer ao governador Antônio Carlos Andrada a criação da Universidade de Minas Gerais (UMG), e você, Pedro Nava, é a pessoa mais certa para fazer”.

A pré-história da faculdade pode ser conhecida em 1801, ano da criação do primeiro curso médico do país, o de cirurgia, em Vila Rica. De acordo com o professor João Amílcar Salgado, em 2008 comemorou-se equivocadamente os 200 anos do primeiro curso de medicina que teria sido em Salvador (BA). “Temos o documento que comprova que o primeiro curso foi mineiro, autorizado pelo príncipe regente, Dom João VI”.
Em 1911, a Sociedade Médico-Cirúrgica de Minas Gerais fundava a Escola de Medicina de Belo Horizonte, a quarta no Brasil. João defende uma tese sobre a criação da escola: “No Rio de Janeiro, devido à grande incidência de febre amarela, peste, varíola e tuberculose, alguns médicos vieram para cá, onde a área já se mostrava promissora”.
O antigo Palacete Thibau, na avenida Afonso Pena com rua Espírito Santo, no centro, foi a primeira sede da faculdade. Em 1914, passou a ser no prédio, inspirado na antiga faculdade de medicina de Paris, localizado no atual endereço, que já pertenceu ao Parque Municipal. Indo de encontro à vontade dos alunos e professores, foi demolido e construído o edifício atual.
30 de julho de 1911
Lançada a pedra fundamental do prédio da escola, tendo como paraninfo o professor Miguel Couto, do Rio de Janeiro
1912
Ministrada a aula inaugural pelo professor interino de física médica, Zoroastro Alvarenga, sobre as “Coordenadas estáticas do corpo humano”
1922
Fundado o Instituto do Radium, idealizado pelo professor Borges da Costa, o primeiro hospital oncológico do país
1926
A polaca naturalizada francesa Madame Curie, única a conquistar duas vezes o prêmio Nobel (física, 1903 e química, 1911) visita o Instituto do Radium
1927
Congresso Estadual recebe projeto de criação da Universidade de Minas Gerais (UMG) – atual UFMG –, fruto da reunião das faculdades de direito, medicina, odontologia e farmácia e da escola de engenharia
1928
Empossado o professor Alfredo Balena, catedrático de Clínica Médica, exercendo a diretoria por quase 20 anos
1956
Autorizada a demolição do prédio central e a construção da nova sede da faculdade
1959
Autorizada a instalação de centro de saúde no térreo da faculdade e o funcionamento do referido instituto integrando as cadeiras de higiene, parasitologia, microbiologia e clínica de doenças tropicais, com seções de epidemiologia, estatística, saneamento, medicina do trabalho, antropologia e outras
1964
Com a ditadura, alunos invadem e picham a escola, em desagravo à repressão autorizada contra eles (repressão estudantil, punição de docentes, restrições à autonomia universitária, reformas...)
1971
Passam a dez os programas de residência médica, com 105 residentes, tendo sido acrescidos aos iniciais: clínica médica, pediatria, ginecologia e obstetrícia, cirurgia geral e oftalmologia; as residências de anestesiologia, neurologia, ortopedia, urologia e otorrinolaringologia
1977
Criação do Centro de Memória da Faculdade de Medicina (Cememor)
1978
Implantado o internato rural, que mais tarde daria origem ao Projeto Manuelzão
1996
Formatura da 100ª turma de graduação, completando 11.100 médicos graduados
1999
Paula Silva de Abreu Moraes: a primeira alergista no mundo a relatar que o ácaro (responsável por alergias respiratórias e de pele), também pode causar alergia vulvovaginal
2010
Início das comemorações do centenário
Twitter
Rss
