| Tião Martins |
O Brado Retumbante
Em qualquer país, o sujeito que canta o Hino Nacional todos os dias, logo cedo, ao acordar, é uma aberração. Aberração patriótica, se quiserem, mas aberração. E cantar um hino com letra enorme, como o nosso, é aberração maior ainda.
Nem Bonifácio, o Patriota, personagem de Stanislau Ponte Preta, chegou a esse extremo.
Aliás, nem os generais que nos governaram durante vinte anos atingiram tal ponto, embora usassem o patriotismo para justificar tudo: porradas, tortura e assassinatos.
Aposto que alguns nem sabiam de cor o Hino Nacional. Cantavam o “Pra frente, Brasil”, nos jogos da seleção, e já estava bom demais. Era a “pátria de chuteiras”, na versão do inimitável Nelson Rodrigues.
Mas essa conversa, legítimo nariz de cera, vem a propósito de personagem que conheci, paranaense de nascimento e carioca por adoção espontânea. Foi no tempo em que os generais ainda baixavam o porrete na moçada e colegiais assaltavam bancos, “expropriando a burguesia”.
Maurílio Qualquer-Coisa, o paranaense, era aluno de Letras e candidato a crítico literário, ofício que, no Brasil, há muito já não existe. Amava o Rio como outros amam as mulheres e se dedicava à literatura com a paixão de adolescente pela primeira namorada. Se soubesse escrever, ninguém teria produzido obra tão divina quanto a dele, sobre a Cidade Maravilhosa. Só que não sabia.
– Um futuro crítico literário que não sabia escrever? – você perguntará, com espanto.
Sim, e até lhe direi, sem espanto, que não foi o único. Só não lhe dou os nomes porque todos repousam em paz. E o meu amigo Cyro Siqueira me ensinou: “Pise de mansinho, para não acordar os mortos”.
"Foi no tempo em que os generais ainda baixavam o porrete na moçada e colegiais assaltavam bancos, ‘expropriando a
burguesia’"
Pois esse Maurílio Qualquer-Coisa, que dedicava dez horas por dia, no mínimo, à literatura, esquecido do sol de dezembro ou da chuva de janeiro, leu Faulkner enquanto os fuzis desfilavam e mergulhou em Scott Fitzgerald no exato momento em que a meninada corria da polícia. Ignorava quase tudo ao seu redor, deslumbrado com palavras, vírgulas, pontos de exclamação e até com o ponto-e-vírgula (este, para a maioria dos brasileiros adultos, não passa de criatura hermética e humilhante).
Não se sabe ao certo como e por que os milicos encrencaram com Maurílio. Talvez tenham confundido Guerra e Paz, de Tolstoi, com material de propaganda comunista. Na época, o engano era comum, entre tenentes recém-saídos da Academia das Agulhas Negras. Certo, mesmo, é que um grupo de ação tática do Glorioso Exército Brasileiro invadiu certo dia o apartamento dele e o conduziu à Vila Militar, por suspeita de ações terroristas.
E vieram os longos interrogatórios, banhos de água gelada e um ou outro chute na canela, para refrescar a memória do rapaz, que nada sabia informar sobre atividades políticas. Esquerda e direita, para ele, eram só referências úteis para se situar na geografia das ruas cariocas.
Foi o que disse ao tenente. Mas este tomou a declaração como fruto de grosseira ironia e o recompensou com socos, a título de advertência.
Saltando capítulos, para não aborrecer jovens leitores e leitoras, os milicos desistiram do Maurílio. Desapontados com tanta falta de informação, arquivaram o futuro crítico em sua cela, dispostos a esquecê-lo.
Só não contavam com o talento musical do mancebo.
Julgando que amansaria os carcereiros, todos eles militares de japona e bibico, Maurílio abria a manhã entoando – aos berros, sem ritmo e sem tom – verso por verso do Hino Nacional. Depois, passou a cantar também para a gororoba do almoço. E repetia o número, em outro tom, após o jantar.
O recruta se queixou ao cabo, que foi ao sargento, e este levou o protesto ao tenente. Daí, a notícia seguiu para o capitão, o major e o coronel. Todos concordaram que, em instalações militares, espancar patriota tão fino seria algo inconcebível.
Resumindo a hierarquia e a ópera, o “caso Marcílio”, nosso terrorista literário, chegou três dias depois às mãos do general comandante da Vila Militar. Se fosse um sádico (havia muitos, na época), teria conservado o prisioneiro só para torturar a tropa, mas o general não era.
E o sol da liberdade, em raios fúlgidos, brilhou no céu da Pátria, nesse instante.
Mas só para Marcílio Qualquer-Coisa. O resto ficou do mesmo jeito, por mais vinte anos.
* Tião Martins é jornalista
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