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| Carolina Godoi |


Elas redescobriram o prazer da vida doméstica: conheça as “Amélias” do terceiro milênio


Rainha do lar

* Eugênio Gurgel
Lia Moreira dos Santos, com o filho e ­ajudante Silvana Campos: despreparo para a vida doméstica pesou após o casamento. “Nada saía do meu jeito”

São aproximadamente 38 mi­lhões de trabalhadoras no Brasil, se­gundo o IBGE. As mulheres lutaram durante anos para conquistar seu es­paço profissional, e vêm conseguindo, mas para isso tiveram que abrir mão do seu tempo de dedicação aos filhos,  marido e casa. Afinal, elas caíram em si ao constatar que não conseguiam ser tudo ao mesmo tem­po: esposas, donas de casa, mães e profissionais de sucesso. Depois de fazer essa ruptura radical para conquistar um papel social que antes não tinham, as mulheres agora passam a obter prazer em retornar à vida doméstica. Mas elas o fa­zem de forma muito diferente da imagem que temos das nossas avós, que não tinham outra escolha senão se­rem “do lar”.
Isso é percebido em diversas comunidades do Orkut que pregam o retorno da “Amélia”, o sucesso do se­riado americano Desperate house­wives, da rede ABC, no Brasil, protagonizado por símbolos sexuais da­quele país e o glamour conferido às donas de casa pela Playboy americana ao promover um concurso para achar as mais bonitas, publicando ensaio com as 12 finalistas. No site da a­presentadora mais famosa dos Esta­dos Unidos, Oprah Winfrey, uma pesquisa com 15 mil mulheres demonstra que são elas as menos frustradas:  55% das que trabalham fora contra somente 25% das donas de casa.
Outra pesquisa, realizada pela mar­­ca francesa de cosméticos Dove, em 2004 e 2005, já apontava para essa mudança. Foram entrevistadas 6.300 mulheres de 15 a 64 anos em 10 países, que demonstram algumas importantes alterações de conceitos. Além de enxergar que a beleza es­tá além da aparência física e que pode existir depois dos 50 anos, essa nova mulher acredita que não precisa ser tudo ao mesmo tempo para ser feliz.

De deusa a mulher real e possível

Pesquisa de doutorado da professora Isabelle Anchieta dedica-se ao estudo das quatro gerações de imagens e imaginários da mulher na sociedade

* Reprodução

Primeira mulher: TEMIDA
Essa imagem surge na pré-história e se solidifica na Grécia e tradição judaico-cristã. Era temida como ser detentor de poderes sobrenaturais (o que pode ser explicado, pelo desconhecimento do papel do homem na reprodução). O temor a elas materializa-se nas imagens de Pandora e Eva. São responsáveis por levar o mal ao mundo e trazem a contradição entre serem belas e más.

* Reprodução

Segunda mulher: IDEALIZADA
Ainda é vista como ser poderoso, mas não maligno. Elas são colocadas em pedestais como mães ou  deusas, especialmente no Renascimento, servindo como algo simplesmente contemplativo. Aparece também as imagens da pin ups, do inicio século XX. Muito bonitas, mas ingênuas, burras e objetos a serviço do homem. A sensualidade ainda está ligada ao lugar de serviçal, prestando-se a alguma função.

* Divulgação

Terceira mulher: CONTROLE DE SI
Surge no século XX, especialmente na década de 60; marcada pelo binômio corpo magro/ juventude, ela toma as rédeas de sua vida, mesmo que isso custe um excesso de auto-controle. As revistas femininas e a publicidade criam um “universo feminino” para elas que conseguem, agora, escapar da sociedade patriarcal. O acúmulo de condutas torna-se  um peso para a mulher, gerando ansiedade, depressão e frustração.

* Divulgação

Quarta mulher: REAL E POSSÍVEL
Pela primeira vez no século XXI a mulher passa a ter papel ativo na construção de sua imagem social. Agora é ela que propõe sua  imagem, já que até então “as mulheres não representavam a si próprias e sim eram representadas” (DUBY p.14, 1992). Passa a negar o modelo único de magreza e  de juventude eterna e o de multifunções (mãe, esposa, profissional). Ou seja, ela não precisa ser tudo ao mesmo tempo para se realizar.

* Geraldo Goulart
A empresária Kátia Vieira, com os filhos e Ana Paula, da Aiutare: alívio na rotina da família
E a tecnologia está aí para celebrar essa diversidade! Foi num “papo de comadre” pela internet que a paulista Fabiana Zanelati e a baiana Kátia Najara, ambas com 37 anos, descobriram uma afinidade em comum: cozinhar. Foram trocando tantas receitas que resolveram criar um blog temático. O nome, Rainhas do Lar, causou certo preconceito entre as primeiras feministas que não entenderam a proposta da dupla. “Algumas diziam: ‘Em pleno século XXI vocês estão aí batendo bolo!’ Só que eu acho que uma coi­sa não exclui a outra e se uma mulher quer cuidar da casa, não significa que está jogando fora anos de luta para entrar no mercado de trabalho”, conta Fabiana, que é casada há cinco anos e trabalha (muito, como gosta de frisar) numa agência de marketing digital. A maioria das mulheres, porém, entendeu e gostou das receitas simples do co­tidiano postadas no blog, das dicas para facilitar a cozinha em geral e so­bre os cuidados com a casa e com o jardim. São mais de seis mil acessos diários de mulheres de todas as idades. E o curioso é que o que leva as leitoras do Google para o endereço é um texto que ensina como tirar manchas de roupas. Elas conquistam o mundo, mas querem fazer isso com as roupas bem lavadas e passadas, sim!
A professora de história, Jacyra Antunes Parreira, que dá a disciplina Formação do Mundo Contemporâneo na PUC-MG, lembra que as mulheres se ressentem do espaço conquistado por elas pelo acúmulo de responsabilidades, sem ter sentido nenhum alívio. “A mulher redescobre, então, a de­lícia que é ficar em casa, a segurança, tranquilidade e aconchego que o lar pode oferecer com a sua participação. O retorno à casa é, nesse sentido, prazeroso”, afirma. Ela pontua, porém, que a escolha de ficar em casa em tempo integral continua não sendo uma boa opção, pois a mulher se sentiria alijada da vida social e do meio produtivo. Por isso, a busca é agora pela harmonia entre estes papéis. ­­            Tarefa muito árdua, que Kátia Vi­eira dos Santos Costa, 43 anos, empresária, casada há 14 anos e mãe de três filhos, se desdobra para realizar. Com a chegada do terceiro filho, e a profissão já estabelecida, Kátia quis que a vida do­méstica estivesse tão capacitada quanto seus negócios. “Primeiro busquei ajuda: tive assessoria pedagógica para acompanhar a vida escolar dos meus4    filhos; depois, com um trabalho de consultoria fizemos um treinamento com minha funcionária doméstica para ficar com os filhos na minha ausência”, conta. “Até os armários da casa mudei,  aprendendo a fazer a manutenção e a limpeza”.
Já no caso de Lia Moreira dos San­tos, 27 anos, modelo e estudante de nutrição, casada há quatro anos com Wagner (Ferreira dos Santos) – jogador de futebol do Cruzeiro – e mãe de Yuri, de apenas dois meses, a dificuldade foi a falta de vivência como dona de casa. “Nunca quis aprender nada doméstico com minha mãe,  mas quando me casei e engravidei tudo mudou”, conta. O cotidi­ano passou a ficar desordenado e nada saía do jeito que ela queria.
* Divulgação
Fabiana Zanelati: mais de seis mil acessos diários ao site Rainhas do Lar, que ela e uma amiga criaram

Para preencher este nicho do mercado, há cinco anos surgiu a Aiutare. Especializada em recrutamento e seleção de funcionários do­mésticos e consultoria personalizada do lar, a empresa ampliou os negócios com o lançamento de cursos e ví­deos educativos para que as mulheres aprendessem a organizar o lar. A psicopedagoga e diretora científica da Aiutare, Ana Paula Antoniali, diz que as mães da geração anterior à nossa tiveram a preocupação de formar as filhas como profissionais que galgassem espaço no mercado de trabalho, e então elas não aprenderam muita coisa quanto a gerenciar uma casa. “Mas não tem jeito, a mulher acabou percebendo que as tarefas perduraram, pois continuaram formando famílias, e por mais que consigam pessoas para delegar essa função, ela precisa ter conhecimento das tarefas para orientar e depois cobrar das ajudantes na organização da casa”, afirma. Aí aparece a diferença dessa “Amélia” contemporânea para a de antigamente: ela está indo atrás de ajuda. É algo recente, e Ana Paula pondera que existem vários facilitadores para isso: “É possível garantir alimentação entregue em casa pela internet, cursos de organização, consultorias para orientar a empregada, para aprender a educar os filhos ou mesmo contar com um instrutor na organização das multitarefas da mulher”.
Outra empresa especializada na organização de espaços domésticos, a Arte de Arrumar, vem ensinando truques que facilitam a vida da mulher. “Vejo que a mulher está mais aberta, perdeu a vergonha de pedir ajuda e se modernizou”, conta Agni Melo, especialista da empresa, que vem percebendo significativa melhora no cotidiano das mulheres: estão economizando tempo, são mais corretas e pontuais nos seus compromissos.
Essa nova fase da mulher – ainda em transição – é chamada pela professora de jornalismo e publicidade Isabelle Anchieta como a Quarta Mulher (veja quadro). A imagem da mulher emancipada é essa: alguém que encontrou beleza e felicidade na sua forma de viver.

saiba mais

www.rainhasdolar.com
www.quartamulher.blogspot.com
www.aiutare.com.br
www.artedearrumar.com.br
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