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| Tião Martins |


A outra metade

Tião Martins
Tião Martins

Só pode estar brincando, quem diz que o povo não tem memória.

Memória ele tem. Pode até não ser das mais seletivas, em matéria de qua­lidade ou importância política, por exemplo. Mas o que guardamos de bo­bagens não cabe em um volume de 600 páginas, com letras pequeninas.
Querem um exemplo? Há mais de dois mil anos falamos da nossa cara-metade, do pedaço que nos falta para sermos completos e da escolha de alguém que preencherá, de forma perfeita e acabada, os nossos espaços vazios.
Esse desejo de dar existência real a um mito que vem da Antiguidade ainda mobiliza as pessoas de forma tão intensa que não passa um dia sem que alguma publicação aborde o assunto e nos ensine a prosseguir na busca.
Busca ociosa e inútil, convém lem­­brar. Afinal, é só um mito, que não deveria nos comover tanto. Os mitos não foram feitos para intervir na vida real, pelo menos desde que os gregos antigos se deram mal com os seus.

Quando o Dia dos Namorados vai chegando, acentua-se ainda mais a discussão sobre a existência ou não da nossa metade ideal. Dia e noite, você verá nos jornais, emissoras de rádio e TV, revistas e internet esse assunto milenar.
Quem tem namorada, olha para a sua com aquela cara de dúvida que irrita a amada bem mais que uma longa discussão sobre futebol.

 “Está duvidando de quê? Do meu amor?”, ela pergunta, ofendida.
 
Mal sabe, essa menina, que ne­nhum ser humano é capaz de substituir um mito e atender à necessidade imemorial de se completar, que os se­res humanos inventaram e carregam do berço até o último dia.
Se fôssemos menos tolos, já teríamos arquivado esse mito em algum lugar do cérebro que não perturbasse a nossa vida amorosa. Mas quem disse que somos ou seremos sábios algum dia, se tudo que possuímos – ideias, conceitos e preconceitos – foi herdado das crenças mais tolas?

“Se conselhos valessem alguma coisa (incluídos estes que acabou de ler), não seriam distribuídos com tanta fartura e tão escandalosa gratuidade”

É por isso que agimos de forma tão estúpida, em nossos relacionamen­tos afetivos. Ora somos tão mo­der­nos quanto um crocodilo, capaz de atacar quem estiver por perto, para sa­ciar uma fome ancestral. E ora somos tão antigos quanto um sábio grego, que nos legou algumas verdades e um milhão de tolices infantis.

Pior, nesta época do ano, é a dor daqueles que não têm uma companheira.

Sentem-se a última das criaturas humanas. Mais inadequados que ro­bôs japoneses e mais solitários que um profeta bíblico.
O raciocínio dos caras – se é que se pode dar a isso o título de raciocínio – é de um simplismo radical: – Se estou sozinho, a falha é minha. Logo, tenho que mudar, aprender, ir à luta e agarrar a primeira mu­lher que passar na minha frente. Quem sabe ela será a minha cara-metade?

E tome livro de autoajuda e conselhos de entendidos no assunto. Saia de casa, vá ao shopping, frequente um clube ou um culto religioso, telefone para suas ex-colegas de escola, inscreva-se em uma academia de ginástica, mude o seu guarda-roupa, pinte os cabelos, sorria para o mundo e seja simpático com as pessoas.

Se o pobre coitado decorar e se­guir todas as dicas, vai morrer de cansaço. E mais sozinho do que antes, pois nenhuma dama terá nervos suficientes para enfrentar a pressa, aflição e olhos esgazeados que acompanham essa fatal obsessão.
As mulheres gostam de ser admiradas, queridas e amadas. Mas interpretam qualquer excesso como parte de uma da “síndrome da solidão”, doença que já deve existir nos compên­dios médicos. E, se não existe, logo será inventada, juntamente com um bando de especialistas em curá-la.

Para não cair nas garras desses sá­bios, meu amigo, é melhor ficar quie­tinho em casa nesses dias de co­memoração de namoros felizes, infelizes ou mais ou menos. E, se sair para um cinema, teatro ou casa noturna, apostando na ilusão, não faça cara de faminto ou coitadinho, duas espécies que as mulheres odeiam.

E, posto que você crê em mitos, não esqueça uma das mais velhas cren­­ças humanas: se conselhos valessem alguma coisa (incluídos estes que acabou de ler), não seriam distribuídos com tanta fartura e tão escandalosa gratuidade.
Boa sorte, camarada, se é que vo­cê acredita nela.

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