| Blima Bracher |
Gostosa até no frio

Quem imaginava que a loira gelada só servia para aplacar as altas temperaturas do verão, se engana. No inverno ela quebra o gelo e invade as mesas dos mais disputados bares e restaurantes. Aliás, está aberta a temporada não só das cervejas tipo pilsen – a tradicional loira gelada – mas também da loirinha feita de trigo, além das chamadas ruivas e morenas. Afinal, as baixas temperaturas pedem bebidas mais encorpadas e com aroma tostado.
Por ser leve e ter menos graduação alcoólica, a cerveja caiu mesmo no gosto dos brasileiros. O consumo nacional totaliza mais de nove bilhões de litros por ano. Neste mercado nosso país só perde em volume para a China, Estados Unidos, Alemanha e Rússia. Em média os homens consomem 65 litros por ano e as mulheres cerca de 35. Com a entrada das morenas e ruivas no páreo, neste inverno a cerveja promete disputar palmo a palmo com os vinhos o espaço nas mesas mais exigentes.
Entram em cena as bebidas tipo bock e stout já conhecidas do paladar exigente dos europeus e novas queridinhas dos cervejeiros brasucas. Essas saborosas morenas harmonizam perfeitamente com o friozinho do inverno e acompanham bem carnes grelhadas, assados, defumados, salmão e massas com molhos picantes.
Já a ruivinha tipo pale ale (cerveja clara de alta fermentação), especialmente popular nos pubs ingleses e na Irlanda, também desembarcou em terras tupiniquins e mostra que veio para ficar. Com alta fermentação, essa cerveja vai bem com carnes vermelhas de sabor acentuado, comida creolla, queijos emmental e gouda, salsichas e molhos condimentados.

A loirinha tipo weiss, feita de trigo, ingrediente que a torna mais densa que a pilsen, é ótima com salsicha de carne de vitela, frutos do mar, lagostas, comida mexicana e asiática, especialmente a indiana. De olho nas novas preferências nacionais, bares e restaurantes da capital mineira fazem estoque de ruivas e morenas neste inverno. Proprietário da tradicional cervejaria Haus München, Rodrigo Ferraz explica que o malte utilizado na fabricação vem da Bavária e tem baixa disponibilidade durante o ano. “Por isso, é inviável produzi-las em grande escala em todas as estações.” Rodrigo afirma que “o consumo das cervejas premium e importadas já é percebido em pesquisas do setor e estimula a indústria a investir mais nesses produtos”. Exemplo da mudança no perfil do consumidor é a recente compra da Baden Baden, cervejaria de Campos do Jordão (SP), pela Schincariol. Além de seis tradicionais tipos, a cervejaria lança edições sazonais, como a Celebration Inverno, uma doppelbock com teor alcoólico de 8,2%.


Os gourmets agradecem, já que 4 as cervejas mais encorpadas acompanham muito bem pratos tradicionais. O restaurante Santafé mantém durante o inverno carta das principais cervejas harmonizadas com petiscos especiais. “Vamos trabalhar apenas com carnes premium, que realçam o sabor das cervejas importadas e nacionais da casa", conta Agilberto Martins da Costa, um dos proprietários.

Aliás os rótulos nacionais entram cada vez mais no mercado das cervejas gourmets e disputam a preferência com os importados. No Krug Bier, das mais tradicionais cervejarias de BH, o chope golden ale faz tanto sucesso que o proprietário, Theo Dimitrius, anuncia em primeira mão que em breve a família Áustria, cerveja da qual também é produtor, vai ganhar mais um membro: a Áustria golden ale. Com seu chope cremoso o Krug Bier fez história no Belvedere. Agora o espaço será alugado, mas os clientes ganham três novos e charmosos endereços: o Krug Bier do São Pedro, o Krug Lounge no Funcionários e no Anchieta um bar em homenagem à cerveja Áustria. Enquanto isto, o chope Krug e a cerveja artesanal fazem sucesso nos bares e restaurantes da cidade.
O casamento entre a culinária contemporânea e alguns tipos de cerveja deu tão certo que o restaurante La Pasta Gialla traz no cardápio sugestões de harmonização. “Resolvemos brindar os amantes da bebida com opções que vão bem com os pratos da casa”, afirma o proprietário João Bosco Fernandes. Prova da aceitação às cervejas de inverno está nos números. “A pilsen representa metade do consumo de cerveja no restaurante, a outra metade de vendas é de cervejas tipo pale ale, brown e de trigo”, afirma Bosco. Sinal de que ruivas e morenas começam a disputar com a loira gelada o título de preferência nacional.

CURIOSIDADES
Bock: Sem dúvida a mais conhecida dos brasileiros. Tem tonalidade escura e paladar forte e encorpado, decorrente da baixa fermentação e do teor alcoólico relativamente elevado –entre 5,5% e 7,5%.
A origem do precioso líquido está envolta em grande mistério. A denominação teria surgido na maneira como o nome da cidade de origem, Einbeck (Saxônia), era pronunciada na Bavária: Einbock. Entretanto, a palavra bock também significa bode em alemão, associando esse tipo de cerveja ao signo de capricórnio, que coincidiria com o rigoroso inverno europeu – explicações mitológicas dão conta de antigos povos que, procurando o auxílio e a proteção
dos deuses, produziram a cerveja somente durante este signo. Outra justificativa estaria nos mosteiros medievais germânicos, onde se produzia uma cerveja forte e nutritiva para ajudar os monges a suportar os longos
períodos de jejum.

Stout: cerveja mais apreciada entre os irlandeses, a stout – uma das subdivisões
do tipo ale – tem sabor bem forte pela alta concentração de lúpulo e malte. É escura
por causa da torrefação do malte. A mais conhecida, a Guiness, foi criada por Anthony Guiness depois de uma distração em que deixou torrar demais o malte. Por ser servida mais quente do que o habitual chopinho e pela cremosidade, cai bem nos dias frios do inverno.
Pale ale: também da família das ales,
tem este nome por ser mais clara, daí
seu nome pale ale ou ale palha, do inglês. Especialmente popular na Inglaterra e na Irlanda, tem fermentação alta, sendo extremamente saborosa, incluindo uma variedade de cereais durante a fermentação que lhe conferem aroma frutado.
Weissbier: originária da Alemanha, é produzida com leveduras especiais e malte de trigo, ingrediente que a torna mais densa e com cor mais acentuada que a pilsen. Teor alcoólico entre 2,7 e 5%.
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