| André Lamounier |
| Carolina Godoi |
O Bom Filho a casa torna

Toda semana na fazenda era assim, um único e inteiro dia estava destinado ao preparo cuidadoso dos bolos, biscoitos, roscas e pães de queijo num enorme fogão a lenha. As avós e mães – guardiãs da tradição interiorana – se encarregavam de encher um número tal de latas com os quitutes que deveriam durar por sete dias para toda a família. O cheiro impregnava a casa. É nesse lugar, em pleno noroeste de Minas Gerais, na cidade de João Pinheiro, que Maria Dalva Couto Mendonça – a Dona Dalva – viveu por 10 anos; e onde há 44 anos nasceu Helder Mendonça, o filho que não esqueceria os sabores especiais que provou na infância.
Em particular, o do pão de queijo marcaria a história desta família depois da mudança para a capital. Dona Dalva saiu da fazenda, mas trouxe consigo as receitas e um enorme carinho no preparo da famosa iguaria para seus filhos e netos. Os amigos da família começaram a visitá-la só para conhecer o tal pão de queijo cuja fama corria no bairro. O sucesso da receita virou problema: “Aonde quer que eu fosse, tinha de levar encomendas dos pães de queijo da mamãe”. Dona Dalva trabalhava no tabuleiro quando folgava da imobiliária que comandava. Helder iniciou a vida empresarial no setor de veículos.
Veio o Plano Collor, em 1990, e, com ele, se foram os negócios da família. “Eu e a Hélida, que é psicóloga, ficávamos nos perguntando o que fazer. Decidimos comercializar o pão de queijo da mamãe”, conta Helder. Bingo! O problema virou solução. Fundaram a empresa Forno de Minas, na época pequena e totalmente artesanal, com apenas um funcionário. “O resto, a gente mesmo fazia”, diz ele. Os processos para preparar o pão de queijo tinham que ser inventados ou adaptados de outros já existentes, pois na época não havia procedimentos industriais que permitissem produção em escala.

Na medida em que os processos iam evoluindo, a empresa também. Em pouco tempo, a Forno de Minas tornou-se um fenônemo de vendas e o produto, depois de conquistar os consumidores de Minas Gerais, foi para quase todos os estados do Brasil e até para países da Europa, além de Israel, Japão e Estados Unidos. “O sucesso do negócio foi impressionante”, diz ele.
Nove anos depois, a empresa produzia 1.600 toneladas/mês do produto e faturava perto de 70 milhões de reais/ano, com 16 mil clientes ativos. “O segredo para chegar a tudo isso era produzir pão de queijo com matéria-prima de qualidade, sabor e carinho. Continuei a fazer, como se fossem para meus filhos e netos”, diz dona Dalva. “Eu nunca permiti que o produto perdesse qualidade para ganhar escala. Tinha de continuar tão bom quanto aquele feito na mão”.
O sucesso foi tanto que despertou interesse de investidores americanos. Depois de quase um ano de negociação, a empresa – com sua marca – foi vendida para a multinacional General Mills, uma das maiores do mundo no setor de alimentos, que opera em mais de 100 países e administra portfólio com mais de 100 marcas, por valor estimado em 80 milhões de reais. “Era irrecusável”, diz o filho.

Rica, a família seguiu outros rumos, e deixou para trás o negócio que tinha construido a partir do zero. Diversificaram os investimentos e passaram a dedicar-se, principalmente, a administrar shoppings centers em Minas, Ceará e Rio de Janeiro. Tornaram-se sócios, por exemplo, do Pátio Savassi, ItaúPower, e estão construindo em Betim o Metropolitan Mall, que será o maior centro de compras do estado, com mais de 400 lojas. Mas também permaneceram no setor de alimentos, com a Laticínios Condessa, empresa que se tornou fornecedora de queijo para a Forno de Minas.
Calmo, sereno, Helder tocava a vida com tranquilidade. Mas o dia 18 de abril deste ano mudaria, mais uma vez, o rumo da história. A General Mills anunciava o fechamento da fábrica da Forno de Minas em Contagem e a demissão de seus 500 funcionários. Dona das marcas Häagen Dazs e Nature Valley, a empresa americana declarou que, mesmo sendo líder de mercado, decidira focar seus negócios em setores cujo crescimento era mais rápido, como o de sorvetes e barras de cereais. “Essa é uma decisão corriqueira para empresas multinacionais. O produto – pão de queijo – não conseguiu ser disseminado pelo mundo, tampouco a marca”, diz o consultor Eduardo Veras, professor da Fundação Dom Cabral, uma das mais conceituadas escolas de gestão do país. “A crise econômica exigiu foco. Foi uma decisão estratégica”.

A família que criou a marca foi logo procurada para uma possível recompra. “Um advogado da empresa, que havia participado da primeira negociação, me ligou perguntando se tinha interesse em ver os números da empresa. Fiquei triste com a notícia, mas topei”, conta Helder. Bingo outra vez! Em menos de 15 dias o negócio estava feito. O valor: 55 milhões de reais. No pacote, a unidade de produção de Contagem, que já está sendo reaberta e a linha de massas frescas Frescarini, que deverá ganhar nova marca em no máximo três meses.
Mas, afinal, o que leva uma família de empresários ricos, que poderia se dar ao luxo de não mais trabalhar, a recomprar uma empresa de mão-de-obra intensiva e que tem enorme desafio pela frente?
“Foi um negócio excepcional, fruto da visão e competência empreendedora da família”, diz o consultor Eduardo Veras. “A empresa está montadinha, capilarizada, com fornecedores constituídos e marca consolidada”, completa.
De acordo com a família, não foi apenas a oportunidade financeira que motivou a transação. Além do gosto pela atividade industrial, o aspecto emocional teve, segundo afirmam, muito peso. “Tenho verdadeira paixão por essa empresa e pela marca que criamos”, diz Dalva, a matriarca. “O que me motiva, me faz acordar cedinho, é o desafio de desenvolver o produto, organizar a cadeia de distribuição. As possibilidades para a empresa são ilimitadas, tanto em abertura de mercados, quanto em criação de novos produtos”, diz o filho Helder.

Em outras palavras, o que Helder quer dizer é que não basta dinheiro. Trabalho também enriquece. Esse é o drama de muitos empreendedores quando vendem suas empresas: o ócio. Embora a família tenha investido parte do dinheiro que ganhou em outras atividades, nada se compara ao trabalho e desafio de tocar uma indústria de alimentos no Brasil. Basta lembrar que as duas maiores representantes desse setor no país – Perdigão e Sadia – acabaram de se unir para continuarem competitivas. “O desafio motiva o empreendedor tanto quanto o dinheiro”, diz Veras.

“Estamos eufóricos e muito confiantes”, afirma Hélida, a irmã de Helder, que vai cuidar das áreas administrativa e de marketing. Sua tarefa inicial será a de recontratar 300 colaboradores (que estavam sem emprego desde o fechamento), mudar as embalagens e avaliar linha de produtos e estratégias. “Estou mais animada do que no começo”, diz ela. “Felizmente, porque agora teremos de ser ainda mais ágeis”.
Para Vicente Camiloti, diretor comercial e também sócio da nova empresa, o objetivo, no curto prazo, é fazer o consumidor reconhecer que o verdadeiro Forno de Minas voltou com a qualidade de antes. “O mercado de alimentação cresceu muito em 10 anos. A cadeia de frios melhorou em termos de equipamentos e fornecedores de logística. Isso faz aumentar a segurança na qualidade”, diz.
O foco da nova empresa é o mercado mineiro. “Primeiro, vamos atacar o quintal da nossa casa”, diz Helder. “Os mineiros já são tradicionalmente exigentes. No nosso caso, a exigência é bem maior, porque é aqui que se conhece o verdadeiro pão de queijo”.
Discursos à parte, fica a pergunta inevitável: se não deu certo nas mãos de uma das maiores indústrias do mundo, vai dar com a família no comando?
“Tem tudo para dar certo. Eles conhecem o negócio e estão capitalizados. Ademais, têm sinergia com outras atividades que também operam, como o laticínio”, afirma o consultor da Dom Cabral. Segundo Eduardo Veras, o fato de a família ter investido em outras atividades distintas da de alimentos também ajuda. “Antes, eram empresários de Minas. Hoje, são do Brasil”, diz.
Helder Mendonça tem uma frase que sintetiza a tese do consultor: “Nós conhecemos a adrenalina do negócio”.
A adrenalina a que se refere o filho Helder, atende por um nome: dona Dalva.
A repercussão no mercado
“Admiro a formação do Helder e de sua família e o admiro como empreendedor.
É dinâmico e isso o fez ter sucesso. Já esperava a recompra e fiquei feliz com o desfecho, afinal, a empresa volta para quem entende do negócio. O futuro é de sucesso”.
José Afonso Assumpção,
ex-sócio de Helder Mendonça
e dono da Líder Aviação
“É muito importante para Minas resgatar uma indústria que teve tanto sucesso,
e que os americanos não souberam administrar. Foi um excelente negócio
e o produto é fantástico. Pode escrever: vai explodir”.
Álvaro Resende, empresário
e presidente da RC Comunicação
“Admiro a mulher forte e capaz que é a dona Dalva. A família vivencia momento diferente, pois já provou que é capaz. Eles estão no momento mais produtivo da carreira. Não há dúvida quanto ao futuro.”
Cristiana Gutierrez, empresária e acionista do Grupo Andrade Gutierrez
“Não só Minas, mas o país ganha com o negócio. Fazer do pão de queijo um produto nacional, foi mérito da família, quando teve o pioneirismo de criar o produto congelado em larga escala.”
Cezar Tavares,
vice-presidente Vilma Alimentos
“Eu aprendi muito convivendo com os Mendonça. Dois traços são marcantes: o sentido de família que têm entre si e o fato de que não se deixam afetar pelo deslumbramento. O Helder é sujeito arrojado e competente. A Dalva é o esteio, principalmente no quesito qualidade e zelo pelas coisas. Ela conversa com as orquídeas, tem sensibilidade rara.”
Paulo Navarro, jornalista, que se relacionou por 3 anos com Haida Mendonça, a outra filha de dona Dalva
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