| Carolina Godoi |
Patrimônio do cerrado
Aquele era um dia muito especial para o casal de onças-pardas que há cerca de dois anos foi encontrado pelo Ibama (Instituto Brasileiro de Meio Ambiente e dos Recursos Renováveis) abandonadas numa área de queimadas na Serra do Curral. Eram muito novinhas; foram amamentadas artificialmente por três meses e, tendo muito contato com o ser humano, não sobreviveriam se fossem devolvidas à natureza. As onças foram destinadas a um criatório conservacionista, que ofereceu todas as condições para que esse dia se tornasse diferente: acabava de nascer um filhotinho do casal, uma forte e saudável oncinha.
Esse enredo se torna particularmente importante, pois aconteceu na Fazenda Zoo, criatório conservacionista e de educação ambiental, que nesse mesmo dia recebia a visita de 62 crianças de 9 anos de idade, estudantes do quarto ano do ensino fundamental. Elas foram fazer um trabalho de campo, vivenciar aquilo que só podiam ver em figuras nos livros.
O lugar – situado em Paraopeba, a 96 km da capital mineira – pode ser confundido com um zoológico, mas é bem diferente. São aves, répteis, felinos, primatas, roedores, enfim, cerca de 550 exemplares da fauna silvestre brasileira – ou 60 espécies – distribuídas em 40 hectares de área, que possui 70% do seu total em matas preservadas com mais de 100 espécies de árvores, além de um pomar. É um pedaço do cerrado brasileiro, que está adaptado para a visitação com refeitório industrial, completa área de lazer, guias especializados no bioma e consultoria pedagógica. Cada animal tem seu nome numa placa, que informa aos visitantes o seu habitat, alimentação, reprodução e curiosidades.
“Todo o dia-a-dia da fazenda é voltado para atingir os objetivos dos visitantes. Independentemente da idade, é possível adaptar o programa de acordo com a escola”, conta Guilherme Nunes, consultor pedagógico da Fazenda Zoo. A importância do trabalho de campo para o aprendizado é enorme. Segundo Guilherme, as escolas estão percebendo que se existe “um local mais rico para o conhecimento dos alunos, vale a pena sair da sala de aula. É o velho chavão: unir teoria e prática.” Outro aspecto diz respeito à pedagogia sensorial. “Trabalhar com os meninos não só o auditivo e o visual, mas o sentir. Por isso existe um momento em que eles vão ter contato também com minibois, pôneis, segurar coelho, alimentar pintinho. Enfim, para que eles entendam a cadeia alimentar”, completa.
Cristiana Mesquita de Noronha, coordenadora do ensino fundamental do Colégio Imaculada, que levou as 62 crianças para o local, confirma que nessa idade (9 anos) os alunos precisam vivenciar o que aprendem para que aquilo possa fazer mais sentido para eles. Apesar de a escola ter laboratório de biologia bem equipado, o objetivo da turma é conhecer espécies ameaçadas, como o lobo-guará, e entender por que esses animais estão se extinguindo. Luiza Rocha, aluna do Imaculada que esteve na visita, confirma a tese: “Adorei ver de perto o tamanduá-bandeira e outros animais que só conhecia por fotos e ilustrações. Descobri que para que meus filhos e netos também possam conhecer esses animais, eu preciso preservá-los”, diz.
O QUE DIZ O IBAMA
Daniel Vilela, veterinário e analista ambiental do Ibama, trabalha no centro de triagem de animais silvestres. É lá que os animais acidentados ou apreendidos são cuidados e destinados para programas de reintrodução na natureza, o que acontece com 80% deles. Ele explica, porém, que nem todos os animais têm condições de voltar para o habitat, devido a problemas físicos ou comportamentais. “Para esses animais, a única saída são os criatórios conservacionistas que dão apoio ao Ibama na fiscalização, pois se não temos para onde encaminhá-los não há como continuar a repressão ao tráfico, já que temos capacidade limitada de suporte”. Outra importância do cativeiro para esses animais é dar condições para que espécies consideradas ameaçadas se reproduzam, como aconteceu no caso da onça-parda, na Fazenda Zoo.
De acordo com Daniel Vilela, analista ambiental do Ibama, a educação ambiental é importante pois, quando as pessoas passam a ver os animais de forma correta, aprendem e os respeitam, criando consciência ambiental ampla para conservar a fauna e a flora. Por isso, a Fazenda Zoo oferece palestra ao ar livre, ministrada pelo engenheiro agrônomo Tarcílio Luiz Carvalho. “Conhecer as espécies que temos aqui, como o cafezinho, o tingui, o mogno e o capitão-do-mato é tão importante quanto saber mais sobre desenvolvimento sustentável e conhecimentos gerais sobre a flora e a diversidade do cerrado, segundo bioma mais devastado do país. E é isso tudo que tento transmitir às crianças”, explica.
A Escola Neusa Rocha/Rouxinol também já fez trabalhos de campo na Fazenda Zoo. No ano passado foram para comemorar o dia das crianças e pesquisar sobre animais em extinção, para a feira anual de cultura da escola. Este ano, quatro turmas do segundo ano fundamental visitaram o lugar para entender melhor o que aprenderam no livro de ciências. Assim, puderam perceber várias fases do desenvolvimento das aves, desde o incubatório à reprodução, por exemplo. A coordenadora pedagógica do Ensino Fundamental do Rouxinol, Camila Aguiar, conta que o aproveitamento das crianças foi grande no conteúdo visto em sala e na construção dos valores que a escola preza e estimula. “Nessa experiência é possível trabalhar questões: como, por exemplo, a postura na hora das refeições, a importância da coleta seletiva do lixo e, principalmente, o respeito à natureza e ao espaço dos animais”.
Todos alunos puderam conhecer a oncinha que acabara de nascer. Gabriel Salles, de 9 anos, disse que ao ver aquela família se lembrou de reportagem que viu sobre gente que mata onças só para ter tapete na sala. “Essas pessoas nunca tiveram oportunidade de ver o que vi hoje”.
CONHEÇA O CERRADO
- O cerrado brasileiro é reconhecido como a savana mais rica do mundo em biodiversidade com a presença de diversos ecossistemas, riquíssima flora com mais de 10 mil espécies de plantas, com 4.400 endêmicas (exclusivas) dessa área.
- A fauna apresenta 837 espécies de aves; 67 gêneros de mamíferos, abrangendo 161 espécies e dezenove endêmicas; 150 espécies de anfíbios, das quais 45 endêmicas; 120 espécies de répteis, das quais
45 endêmicas. - Até a década de 1950, os cerrados mantiveram-se quase inalterados. A partir da década de 1960, com a interiorização da capital e a abertura de uma nova rede rodoviária, largos ecossistemas deram lugar à pecuária e à agricultura extensiva, como soja, arroz e trigo.
- A partir da década de 1990, governos e diversos setores organizados da sociedade debatem como conservar o que restou do cerrado, com a finalidade de buscar tecnologias embasadas no uso adequado dos recursos hídricos, na extração de produtos vegetais nativos, nos criatórios de animais silvestres, no ecoturismo e outras iniciativas que possibilitem um modelo de desenvolvimento sustentável e justo.
www.fazendazoo.com.br
Agendamento de escolas pelo endereço guilherme@fazendazoo.com.br ou pelo telefone (31) 9167-7000
Os valores por pessoa variam de acordo com o objetivo da escola, e custam a partir de R$ 35 cada. Incluem monitoria, consultoria pedagógica, visita técnica na escola e três refeições preparadas por nutricionista.
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