| Zu Moreira |
Arte no Jardim

Soho, em Nova Iorque, conhecido na primeira metade do século passado como Hell’s Hundred Acres (“os 40 hectares do inferno”), abandonou a pecha de ser uma região industrial em decadência para se transformar em glamuroso destino de compras, centro da arte contemporânea, com seus prédios de raros ferro fundido que hoje abrigam galerias, butiques e museus. A transformação a partir dos anos de 1960 foi liderada pelo teórico do planejamento urbano Chester Rapkin, que cunhou o nome Soho, sigla para South of Houston Street, num estudo de 1962 sobre o bairro.
No lado de baixo da linha do Equador, especificamente na Região Metropolitana de Belo Horizonte, em Minas Gerais, um movimento semelhante vem tomando forma. No bairro Jardim Canadá, região noroeste de Nova Lima, um grupo de galeristas mineiros está se mudando de mala e cuia para o local, que tem potencial de sobra para se consolidar como polo de artes contemporâneas do país.
Nesse mapa, há espaço não só para esculturas de mais de três metros de altura e algumas toneladas de peso. Companhias de dança e teatro, ateliês, lojas de designer, móveis e decoração, já descobriram as benesses de se instalar em local de fácil acesso, boa infra-estrutura e longe do caos dos grandes centros.

No ramo das artes plásticas, os “desbravadores” foram a Lemos de Sá Galeria de Arte e a Rhys Mendes Gallery que se instalaram ano passado quase que simultaneamente na avenida Canadá, a poucos metros do Posto Chefão. O próximo a fazer parte do núcleo é o galerista Murilo Castro. “Estamos fazendo a transição para o Jardim Canadá, em junho, ainda em uma área provisória. Vamos iniciar a construção da nossa sede que deve ficar pronta no início do próximo ano”, conta. O escritório de arte, na rua Benvinda de Carvalho, 60, no Santo Antônio, na região da Savassi, zona sul da cidade, será transferido para um galpão, próximo da Lemos de Sá Galeria. A virada no segundo semestre será marcada pela exposição de vídeos, ensaios fotográficos e performance, segundo Castro, do artista plástico Fábio Cançado.

José Bento, outro artista plástico de prestígio nacional, mantém há catorze anos um ateliê-residência na avenida Montreal, parte central do bairro. “É um lugar que lembra o Texas, tem charme e uma luz maravilhosa”, derrete-se. Baiano de nascença e mineiro por vocação, Bento, casado com a designer Marina Sabino, conta que o espaço permite expor peças que em uma galeria tradicional seria impossível. Um dos mais recentes trabalhos do artista foi realizado em um tronco de árvore milenar. Ele esculpiu um banco em que cabem até três pessoas. Sentadas, elas podem ver num monitor de TV, instalado dentro do tronco, filmes sobre a vida de pica-paus que frequentam o lugar há anos.
O Grupo Corpo e as companhias Armatrux e Suspensa também decidiram fincar bandeiras, com a construção de suas sedes e centros culturais no Vale do Sol, na mesma região noroeste de Nova Lima. O Centro de Artes Suspensa Armatrux, batizado de C.a.s.a e patrocinado pela Usiminas, seria inaugurado recentemente com a apresentação do espetáculo De Peixes e Pássaros. A mudança definitiva para o local só deve acontecer no segundo semestre.

A construção do Centro de Arte Corpo, cujo projeto de 2001 é assinado por Alexandre Brasil Garcia, Carlos Alberto Maciel, Éolo de Castro Maia e Maria Josefina Vasconcellos, começa a sair do papel neste ano. "Não estamos mais cabendo dentro de Belo Horizonte. Está muito apertado", justificou Cristina Castilho, uma das fundadoras do Corpo. A intenção do grupo é construir um centro cultural, inspirado nas esculturas de Amilcar de Castro, com teatro e cinema.
Já a Quick Companhia de Dança baila há seis anos na rua Vancouver, 344, no Jardim Canadá. "Você encontra muita oferta e espaços vazios. Não tem nada vertical. Temos a sensação de um lugar que ainda respira", justifica Rodrigo Quick.
A Far East Emporium, localizada na rua Kennedy, 47, também deve ser incluída no mapa. Criada há nove anos pela brasileira Marília Birchal e pelo belga Didier Robbe, a loja possui enorme acervo de móveis, adornos e objetos de decoração importados do sudeste asiático. Com pé direito de doze metros de altura e 2000 metros quadrados de construção, o galpão também é usado para a realização de festas e eventos para cerca de 800 convidados. “Acho que o design, a decoração, têm ligação direta com a arte contemporânea, um acaba complementando o outro”, avalia Didier Robbie, que abandonou as operações financeiras em Wall Street para se dedicar ao mercado da arte.

A galerista Beatriz Lemos de Sá conta que o quesito espaço foi decisivo para se mudar da Savassi, onde mantinha por dezesseis anos a galeria, para o Jardim Canadá. É bom lembrar que ela administra as obras do escultor mineiro Amilcar de Castro, conhecido pelas suas peças de grandes dimensões em ferro. “A mudança foi por acaso. A galeria onde o imóvel funcionava foi vendida. Comecei a pensar em um galpão, tendência das galerias do mundo que migram para regiões industriais, porque a arte contemporânea exige espaço”, justifica. Beatriz ressalta, no entanto, que a localização foi fundamental. “Belo Horizonte não tem mais para onde crescer. Aqui o acesso é fácil e o cliente não tem dificuldade com estacionamento”, diz.
Ela garante que a mudança de endereço não afugenta o público. Um aliado, segundo Beatriz, é a internet: “Hoje o artista não precisa sair para ser reconhecido. As galerias não precisam sair para vender. Tanto que hoje os maiores clientes da galeria não são mineiros, mas do Rio e São Paulo”, relata.
Apesar dos efeitos da globalização no mundo interativo da arte, a galeria ainda preserva o rito de receber colecionadores para um bate-papo regado a cerveja. Pouco antes de a reportagem chegar à galeria, o ex-técnico do Atlético Mineiro, Emerson Leão, acabara de sair do local, em sua Mercedes. Conhecido colecionador de obras de arte, Leão sempre que pode, segundo Beatriz, tira um tempo para visitar a galeria e conversar sobre o tema. Além dele, Beatriz tem outros clientes, digamos midiáticos, como Eduardo Janot, João Avelar e Vitor Pardini.
Outro que vem atraindo público para a sua galeria recém-inaugurada no Jardim Canadá é o mineiro Pedro Mendes, formado em Filosofia da Arte, em Paris. A Rhys foi fundada em Boston, no estado de Massachusetts (EUA), em 2003. Em associação com o norte-americano Colin Rhys e o francês Matthew Wood, o brasileiro criou no ano passado a Rhys Mendes Gallery, que expandiu suas atividades ao inaugurar em novembro o prédio de três andares e cerca de mil metros quadrados. A galeria nasce como a maior da região metropolitana e com ares cosmopolitas. Depois de ser inaugurada com trabalhos de 14 artistas convidados, entre eles Eder Santos, Rodrigo Matheus, Cao Guimarães, Laura Belém e Matheus Rocha Pitta, a Rhys Mendes Gallery mantém até o fim de abril três novas exposições: no mezanino, exibe a mostra Design. No segundo andar, a exposição individual Cavalo de Troia, com trabalhos inéditos de Ricardo Ventura. No primeiro piso, a mostra Still Painting com obras selecionadas a partir da pesquisa sobre o que se tem feito na pintura contemporânea, reunindo imagens de 11 artistas.
“Acho que o Jardim Canadá faz uma alusão ao Soho e agora ao Bowery. A arte tem essa capacidade mutante de atrair lojas, restaurantes, charme e pessoas interessantes. Já se fala em um distrito das artes”, diz Pedro.
Murilo Castro
rua Benvinda de Carvalho, nº 60 Santo Antônio, Belo Horizonte
Quick Companhia de Dança
rua Vancouver, nº 344 – Jardim Canadá, Nova Lima
Lemos de Sá Galeria
avenida Canadá – Jardim Canadá, Nova Lima
Rhys Mendes Gallery
avenida Canadá – Jardim Canadá, Nova Lima
Ateliê José Bento
avenida Montreal – Jardim Canadá, Nova Lima
Far East Emporium
rua Kennedy – Jardim Canadá, Nova Lima
C.A.S.A - Armatrux e Companhia Suspensa
rua Himalaia – Vale do Sol, Nova Lima
Centro de Arte Corpo - Grupo Corpo
Vale do Sol, Nova Lima
Para ele, o apoio da prefeitura de Nova Lima é fundamental para que o bairro caminhe de mãos dadas com a arte. Um dos pontos centrais, também para Beatriz Lemos de Sá, é a pavimentação das ruas. “A prefeitura não está atentando para isso há muito tempo. Como pode um lugar como o Jardim Canadá não ter ruas asfaltadas, como se fosse um bairro de periferia, longe de Belo Horizonte?”
De acordo com a Prefeitura de Nova Lima, o bairro Jardim Canadá, fundado há mais de 50 anos, tem recebido, nos últimos tempos, “um importante conjunto de obras”. Em 2000, o governo local registrava cerca de 410 empresas. Hoje, são 1.097 cadastradas no Jardim Canadá e bairros vizinhos. A população também saltou de 5 mil moradores para aproximadamente 8 mil.
Embora tenha área residencial, o bairro abriga uma série de empresas de comércio e serviços e integra a região noroeste de Nova Lima juntamente com o Vale do Sol: o Alphaville Lagoa dos Ingleses, Macacos, Miguelão, entre outros. Uma área responsável por 37% da arrecadação da prefeitura. De acordo com o administrador da regional noroeste, Márcio Tupy, a prefeitura já retomou a pavimentação das ruas que dão acesso ao bairro, suspensa durante o período chuvoso.
Beatriz Lemos de Sá acredita que o Jardim Canadá pode no futuro fazer parte de uma espécie de “Caminho das Artes”, que começaria na região da Savassi, passaria pela região noroeste de Nova Lima, onde se localiza o bairro, até o Instituto Inhotim, um complexo com parques ambientais e importante acervo de 500 obras de 100 artistas de arte contemporânea em Brumadinho, a 60 quilômetros de Belo Horizonte.
Ela, porém, cobra melhorias na estrada que passa pelo Retiro do Chalé e Aranha, em percurso de 45 quilômetros. “Seria uma grande obra do setor público em prol da arte”, conclui Beatriz.
Twitter
Rss
