| Carolina Godoi |
Destruidores muito fofos

Cãezinhos são lindos, companheiros e podem preencher de amor e carinho a vida de toda a família. Entretanto, quem já leu o best-seller Marley e eu, escrito por John Grogan, ou assistiu ao filme homônimo, sabe que se não são bem educados os cães podem transformar a vida dos donos num inferno. No cinema, o protagonista é um labrador gracioso de cinco quilos que de repente se transforma numa máquina destruidora de 45 quilos. Em uma das cenas, Marley chega a roer e mastigar até o piso da casa! Na vida real pode ser qualquer cachorro, de qualquer raça e tamanho a ter o péssimo hábito de morder tudo o que vê pela frente. Desespero para o dono, que perde objetos queridos e preciosos, e perigo para o animal, que corre sérios riscos de saúde, além da triste probabilidade de ser abandonado.
Segundo o analista comportamental de cães e membro do British Institute of Professional Dog Trainers da Inglaterra, Dennis Martin, os cães de modo geral, e em diversos estágios da vida, podem ser levados a usar a boca em maior ou menor grau. “Filhotes, entre 16 e 20 semanas, tendem a morder tudo que esteja ao alcance, pois é uma forma de descobrirem a textura das coisas”, pondera. Por isso, desde cedo é importante destinar ao cão objetos próprios (ossinhos ou brinquedos de borracha) que ele possa roer. É bom também nunca escolher utensílios velhos da casa, senão o animal não consegue fazer a distinção entre o que pode ou não morder.

O analista explica ainda que um cão adolescente ou adulto que sofre de ansiedade de separação morde coisas para lidar com o problema. É uma forma de “dar vazão” à frustração causada pela ausência do dono. Morder funciona positivamente, pois se envolve naquilo, se cansa e se sente mais aliviado. Cada caso é um caso, por isso é preciso avaliar o cão e o dono e as situações pelas quais estão passando. Dennis Martin adiciona duas outras probabilidades: se um cão adulto morde tudo frequentemente pode ser porque descobriu que, mordendo algo da casa, ganha imediatamente a atenção do dono, ou porque não está sendo devidamente exercitado. “O acúmulo de energia faz com que ele busque as suas formas de gastá-la. Todo cão deve passear diariamente”, lembra. E o cachorro tem que se cansar no passeio!
Outra questão levantada pelo veterinário e proprietário de uma clínica na capital mineira, José Geraldo Lasmar, é a seleção indevida da raça, ou seja, a escolha de cão enorme ou de caça para viver num apartamento. “Além disso, muita gente tenta humanizar os animais, retirando deles a natureza instintiva. O cachorro não manda, ele precisa de um líder com todos os direitos e deveres que isso inclui. É algo hierárquico, já que sempre foi um animal de grupo, que caça. Se ele não encontra um líder, se elege como tal”, explica. Aí é o começo de sérios problemas, já que o cão acha que pode fazer tudo o que quer e que o dono deve seguir as suas vontades. Porém, nem sempre é atendio e o resultado pode ser: estresse, angústia e doenças psicossomáticas.

Érica Simone Ramos, representante comercial, considera que tem seis filhos bagunceiros: poodles que têm nomes duplos e sobrenomes. Ela admite que a origem dos problemas foi a sua inabilidade na educação dos bichinhos. “Tinha dó, não queria xingá-los, nem bater. Não mostrei que eu era a dona da casa”, conta. Ela explica que nada pode ficar ao alcance deles que destroem tudo. Já chegaram a comer chinelos, sapatos, calcinhas, celular, cortina, vidro de remédio e até dinheiro. “Eles amam papel higiênico e fazem a maior bagunça, por isso os proibi de entrarem dentro de casa, mas não adianta, entram mesmo assim”.
A saída de Érica foi construir uma casa nova e apropriada para os cães, um grande canil na casa da irmã, para onde os bichinhos vão em breve.4 Longe dos seus objetos e com certeza mais felizes, podendo fazer a algazarra que tiverem vontade sem confusão. Érica agiu; e de acordo com o veterinário Lasmar é a indiferença ao problema que é perigosa. Da mesma forma que os humanos estão buscando fórmulas mágicas para resolver os problemas, transferem para o cão o uso do caminho mais fácil. “Nos últimos cinco anos percebo uso excessivo de remédios como a fluoxetina (o famoso Prozac) nos cães. Sou contra o uso primário de medicamentos, que só devem ser administrados quando todas as alternativas estiverem esgotadas sem nenhum resultado”, alerta.
O que fazer?
Antes de comprar o animal, procure um especialista para ajudar na escolha da raça de acordo com o ambiente e seu estilo de vida;
Dê ao filhote bichinhos ou ossos específicos para morder que não o prejudique, e elogie ou dê carinho quando estiver mordendo o seu brinquedo;
Não dê atenção (xingar, bater ou conversar) quando ele morder algo que não deve;
Exercite seu cão com frequência. Caso não tenha tempo ou condições contrate alguém que faça por você ou coloque uma mochila no cachorro com peso apropriado para seu tamanho: assim ele se cansa mais em menos tempo;
Estimule a convivência com outros cães, afinal, são animais que vivem em grupo;
Como medida extrema passe um chumaço de algodão com pimenta no local em que ele está mordendo. Ou então, um pouco das fezes do cachorro; o cheiro para nós some em meia hora, mas o cão tem repugnância;
Se o problema persistir, procure um adestrador ou especialista em comportamento canino.
Fontes: Sidney da Silva - adestrador e analista comportamental canino e José Geraldo Lasmar - veterinário

O ideal é colocar a mão na massa. O adestrador e analista comportamental canino Sidney da Silva, que tem experiência no assunto há 16 anos, usa o que chama de punições despersonalizadas. “São feitas emitindo um barulho ou som sempre que acontecer, sem olhar para o cachorro ou sem que ele o veja. Assim, ele se assusta e se afasta do ambiente, entendendo que será corrigido todas as vezes que se comportar mal. Esse som pode ser feito batendo na porta, balançando um molho de chaves ou sacudindo uma garrafa cheia de feijão”, ensina.
Lembra do Marley? Pois é, Sidney da Silva adestrou uma cadela da mesma raça, que segundo a sua dona, a administradora Ana Carolina Gontijo, põe o astro de Hollywood no chinelo. O nome dela é Julieta e sua chegada “foi um desastre” na harmonia do lar, que já tinha outros dois cães superobedientes. Na primeira semana, Julieta destruiu tudo à sua volta. “Não obedecia, comia as plantas do jardim e conseguia arrastar vasos pesados pela casa. Destruía as tampas dos pneus dos carros, cavava buracos e sujava qualquer caminho por onde passava”. Foi assim até que Julieta passou um susto na família, pois se sentiu muito mal, vomitando o que tinha engolido, daquela vez: uma sacola plástica. Há cinco meses está sendo treinada com acompanhamento bem de perto da dona. “Aprendi os comandos para agir com ela, assim a cadela ficou mais calma e obediente”, avalia Ana Carolina, que promete comprar outro labrador. Motivos ela diz ter de sobra: a amizade, companheirismo e animação do cachorrinho. Ah, claro, e dessa vez nada de mordidas.
Como deixar seu cão sozinho
Essas atitudes do cão são, geralmente, resultado da ansiedade que ele cria pelo retorno do dono. Quando for sair de casa e ao retornar, não faça festa para o seu animal. Se ele latir quando você sair, não volte, senão ele entenderá que toda vez que fizer isso vai conseguir trazer você para perto.
E quando chegar e encontrar a casa bagunçada não dê bronca. Ele não relacionará a bronca com o que fez de errado e isso só aumentará ainda mais a ansiedade dele. Depois de alguns minutos, e seu cão estando mais calmo, faça um agrado e lhe dê atenção. Para ajudar a resolver a situação é útil também, quando você sair de casa, deixar o rádio ligado e o cachorro em um local que lembre sua presença, que ele sinta o seu cheiro.
Fonte: Alexandre Rossi – zootecnista e especialista em psicologia animal (www.caocidadao.com.br)
Twitter
Rss
