| Isabela Discacciati |
Estilo, eu faço o meu

Num mundo de regras, ditames e imposições de tendências, eles querem ser diferentes. Não para chocar, ser rebeldes ou outro motivo semelhante, mas simplesmente para desafiar o convencional e buscar a beleza nas coisas não óbvias. Vitrines, revistas, catálogos e novelas passam longe de serem fontes de inspiração para essas pessoas. O foco do olhar está nas ruas, no design, na arquitetura, na literatura e nas artes. Na verdade, o papel social da moda é expressar valores, e essa turma, considerada por muitos alternativa e fora do comum, leva tudo isso muito ao pé da letra.
“Amo a moda, mas acho importante trabalhar a evolução do pensamento e não condicioná-la somente a estilo e status”, filosofa Uiara Andrade, assistente de estilo da grife Tereza Santos. Com experiência sólida no setor, Uiara, que aos 18 anos começou sua trajetória como modelo, tem uma visão muito particular da moda. Para ela, estética e comportamento devem andar juntos. “Sempre procurei desmitificar regras, o que engorda, o que cai bem, o que não cai. Meu olhar procura trabalhar com o que falta e com o que pode ser feito”, explica.
Hoje em dia, as pessoas passaram a contestar com mais intensidade as regras. A história do sucesso do cabelo louro e liso e a relação da imagem da mulher sexy com o decote e a barriga de fora já não fazem parte do jogo. A quebra de padrões é sinônimo de evolução e sinal de que a moda comunica muito mais do que a gente possa imaginar. “Moda é mudança, comunicação, é uma forma de expressar sentimentos e posições”, defende Uiara. Ela cita, como exemplo, Coco Chanel, que apesar de uma vida de luxo, riquezas e amantes, preferia se vestir de forma muito simples. “Com todo o luxo e com todos os amantes que tinha, Chanel, ao invés de ostentar, buscava demonstrar sua dignidade.” Questionada sobre seu modo de vestir, Uiara diz que muitas vezes é incompreendida. “A senhora que trabalha na casa do meu pai uma vez disse que não entendia como eu podia lidar com moda usando roupas tão estranhas”, diverte-se.

Conhecida como polo lançador de tendências, a Europa é berço dos criadores mais importantes de todos os tempos. Nomes como Dior, Balenciaga, Yves Saint-Laurent e Giorgio Armani ilustram o contexto histórico da moda no Velho Mundo. Mas é lá também que os grandes movimentos culturais invadem as ruas, formando verdadeira aldeia de indivíduos de estilos e personalidades diferentes.
O casal Iara Terçariol Vitral e Carlos Sosa Sena são alguns coadjuvantes dessa aldeia. Há quatro anos morando em Barcelona, esta mineira e este uruguaio representam a estética da pluralidade cultural com estilo próprio, que impressiona pela criatividade.
Charles, como é conhecido, é artista de circo, ator e produtor, e chama atenção pelo modo como se veste. Camisas coloridas, acessórios interessantes, uma vasta coleção de óculos e até mesmo alguns objetos utilizados na composição de seus personagens fazem parte do inovador guarda-roupa. Muitas vezes, as roupas que ele usa no dia a dia são as mesmas que saem do baú do teatro. “Pelo fato de termos um guarda-roupas não convencional, frequentemente o Charles usa peças nossas do cotidiano para completar um figurino. Minhas camisas viram roupa de palhaço. As peças vão e voltam até serem resgatadas para o mundo real”, diz Iara.

Para eles, a Europa influencia, e muito, no modo de vestir. O fato de estar em Barcelona se reflete no estilo de vida e na concepção de mundo dos dois. É dali, da rua, da efervescência cultural da capital da Catalunha que eles tiram a inspiração dos looks. A composição é quase sempre feita de objetos encontrados nos inúmeros mercados das pulgas e brechós da cidade e peças de lojas de departamentos como Mango, H&M e Zara.
A construção do estilo faz parte da cultura, do repertório, das experiências pessoais, mas, principalmente, da questão da autoestima. Normalmente as pessoas têm muito medo de errar, de cair no ridículo e se preocupam com o que os outros vão dizer. “Antes de tudo, é preciso autoconfiança. Uma vez que a pessoa confia em si e se conhece, ela passa a se vestir de maneira mais livre e com estilo próprio, o que supõe relação mais transgressora com a moda, com as tendências e os manuais”, defende Iara.
Não ter medo de ousar é importante, mesmo que isso signifique ser comparada a um personagem de história em quadrinhos. Francesca Acciai, 28 anos, vive no mundo de glamour das grandes marcas na Itália. Há quase dois anos, ela trabalha como assistente de vendas na Dolce & Gabbana de Florença. Mas quando esta italiana coloca os pés fora da loja é que começa a respirar a moda que mais a fascina, aquela que ela mesma faz. “Muitas vezes causo espanto. Gosto de experimentar, de misturar o velho e o novo, o sexy e o comportado, me divirto com isso”.
Francesca também é frequentadora assídua dos mercadinhos de quinquilharia, onde encontra verdadeiras peças de história e objetos originais. Ela diz que o vintage se transformou, de uns anos pra cá, em um mercado caro. “A explosão do vintage inflacionou os preços e tudo ficou caríssimo. Conheço lugares onde ainda se gasta pouco, mas não revelo a ninguém”, diz.
O fato de trabalhar em uma marca que lança tendências não impede que seu olhar vá além. Na verdade, tudo depende da interpretação pessoal que cada um dá ao momento pelo qual a moda está passando. É interessante, sim, observar tendências, mas é igualmente importante ter consciência do próprio corpo, ser sincero e, acima de tudo, respeitar a própria natureza. Isso sim, é ter estilo.
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