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| Isabela Discacciati |


Personalidade, criatividade e uma boa dose de autoestima fazem desses jovens donos de seu próprio modo de vestir


Estilo, eu faço o meu

* Divulgação
Carlos Sena, o Charles: roupas tiradas do baú do teatro e coleção de óculos

Num mundo de regras, ditames e imposições de tendências, eles que­rem ser diferentes. Não para chocar, ser rebeldes ou outro motivo seme­lhante, mas simplesmente para desafiar o convencional e buscar a beleza nas coisas não óbvias. Vitrines, revistas, catálogos e novelas passam longe de serem fontes de inspiração para essas pessoas. O foco do olhar está nas ruas, no design, na arquitetura, na literatura e nas artes. Na verdade, o papel social da moda é expressar va­lores, e essa turma, considerada por muitos alternativa e fora do comum, leva tudo isso muito ao pé da letra.

“Amo a moda, mas acho importante traba­lhar a evolução do pensamento e não condicioná-la somente a estilo e status”, filosofa Uiara An­drade,  assistente de estilo da grife Tereza Santos. Com experiência sólida no setor, Uiara, que aos 18 anos começou sua trajetória como modelo, tem uma visão muito particular da moda. Para ela, estética e comportamento devem andar juntos. “Sem­­pre procurei des­mi­tificar regras, o que en­gorda, o que cai bem, o que não cai. Meu olhar procura trabalhar com o que falta e com o que pode ser feito”, explica.
 
Hoje em dia, as pessoas passaram a contestar com mais intensidade as regras. A história do sucesso do cabelo louro e liso e a relação da imagem da mu­lher sexy com o decote e a barriga de fora já não fazem parte do jogo. A que­­bra de padrões é sinônimo de evo­lu­­ção e sinal de que a moda comunica mui­to mais do que a gente possa ima­gi­nar. “Moda é mudança, comunica­ção, é uma forma de expressar sentimentos e posições”, defende Uiara. Ela cita, como exemplo, Coco Chanel, que apesar de uma vida de luxo, ri­quezas e amantes, preferia se vestir de forma muito sim­ples. “Com todo o luxo e com todos os amantes que ti­nha, Chanel, ao in­vés de os­tentar, buscava de­mons­trar sua dignidade.” Ques­tio­nada sobre seu modo de vestir, Uiara diz que muitas vezes é in­com­pre­en­dida. “A senhora que traba­lha na casa do meu pai uma vez disse que não entendia como eu po­­dia lidar com moda u­san­­do rou­pas tão estranhas”, diverte-se.

* Cláudio Cunha
Uiara Andrade: “Sempre procurei desmitificar regras, o que engorda, o que cai bem, o que não cai”

Conhecida co­mo polo lançador de tendências, a  Europa é berço dos criadores mais importantes de todos os tempos. Nomes como Dior, Ba­len­ciaga, Yves Saint-Laurent e Gio­rgio Armani ilustram o contexto histórico da moda no Velho Mundo. Mas é lá também que os grandes movimentos culturais invadem as ruas, formando verdadeira aldeia de indivíduos de estilos e personalidades diferentes.

O casal Iara Terçariol Vitral e Carlos Sosa Sena são alguns coa­­­­­­d­ju­­vantes dessa aldeia. Há quatro anos morando em Barce­lona, esta mi­neira e este uruguaio representam a estética da pluralidade cultu­ral com estilo pró­prio, que impressiona pela criatividade.
   
Charles, como é co­nhe­cido, é artista de circo, ator e produtor, e cha­ma aten­ção pelo modo como se ves­te. Ca­mi­sas coloridas, aces­só­rios in­te­­ressantes, u­ma vasta co­le­ção de óculos e até mesmo al­guns objetos utilizados na com­po­sição de seus personagens fa­zem parte do inovador guarda-rou­pa. Muitas vezes, as roupas que ele usa no dia a  dia são as mesmas que saem do baú do teatro. “Pelo fato de termos um guarda-roupas não convencional, frequentemente o Char­les usa peças nossas do cotidiano para completar um figurino. Mi­nhas camisas viram roupa de palha­ço. As peças vão e voltam até serem resgatadas para o mundo real”, diz Iara.
* Cláudio Cunha
Francesca Acciai: “Gos­to de experimen­tar, de misturar o velho e o no­vo, o sexy e o comportado”

Para eles, a Europa influencia, e muito, no modo de vestir. O fato de estar em Barcelona se reflete no estilo de vida e na concepção de mundo dos dois. É dali, da rua, da eferves­cência cultural da capital da Cata­lu­nha que eles tiram a inspiração dos looks. A composição é quase sempre feita de objetos encontrados nos inú­meros mercados das pulgas e bre­chós da cidade e peças de lojas de departamentos como Mango, H&M e Zara.
 
A construção do estilo faz parte da cultura, do repertório, das expe­riências pessoais, mas, prin­cipal­men­te, da questão da autoestima. Nor­malmente as pessoas têm muito medo de errar, de cair no ridículo e se preocupam com o que os outros vão dizer. “Antes de tudo, é preciso autoconfiança. Uma vez que a pessoa confia em si e se conhece, ela passa a se vestir de ma­neira mais li­vre e com estilo próprio, o que su­põe relação mais transgressora com a moda, com as ten­dências e os manuais”, defende Iara.

Não ter medo de ousar é importante, mesmo que isso signifique ser comparada a um personagem de his­tória em quadrinhos. Francesca Ac­ciai, 28 anos, vive no mundo de gla­mour das grandes marcas na Itália. Há quase dois anos, ela trabalha co­mo assistente de vendas na Dolce & Gabbana de Florença. Mas quando esta italiana coloca os pés fora da loja  é que começa a respirar a moda que mais a fascina, aquela que ela mesma faz. “Muitas vezes causo espanto. Gos­to de experimen­tar, de misturar o velho e o no­vo, o sexy e o comportado, me di­vir­to com isso”.

Francesca também é frequentadora assídua dos mercadinhos de quinquilharia, onde encontra verda­deiras peças de história e objetos ori­ginais. Ela diz que o vintage se trans­formou, de uns anos pra cá, em um mercado caro. “A explosão do vintage inflacionou os preços e tudo ficou caríssimo. Conheço luga­res onde ainda se gasta pouco, mas não revelo a ninguém”, diz.
 
O fato de trabalhar em uma mar­ca que lança tendências não impede que seu olhar vá além. Na verdade, tudo depende da interpretação pessoal que cada um dá ao momento pelo qual a moda está pas­sando. É interessante, sim, ob­ser­var tendências, mas é igualmente importante ter consciência do pró­prio corpo, ser sincero e, a­cima de tudo, respeitar a própria natureza. Isso sim, é ter estilo.

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