| Simone Dutra |
Restaurando o passado

O ano é 2009, mas o cenário remonta ao passado, mais especificamente os séculos XVIII e XIX, época em que o estilo barroco caracterizava as cidades mineiras. As artes sacras se destacavam pela riqueza de detalhes e de materiais, com preferência pelo ouro, encontrado fartamente naquela época em Minas. A religiosidade e a fé eram manifestadas pelos artistas através de imagens de anjos, santos, pinturas cristãs, monumentos e igrejas. Hoje, algumas destas importantes criações são culturalmente conhecidas e reconhecidas pelos órgãos do Iphan – Instituto de Patrimônio Histórico e Artístico Nacional –, e em Minas Gerais, do Iepha – Instituto Estadual do Patrimônio Histórico e Artístico, que têm a função de preservar e proteger o patrimônio cultural. Em função da conservação destes bens, o número de escolas de restauração vem crescendo cada vez mais, com o objetivo de capacitar pessoas para lidar com a degradação causada pelo tempo, má preservação e vandalismo dos objetos artísticos dos séculos passados. Mas, felizmente, as mãos delicadas e precisas desses profissionais conseguem trazer de volta parte da história, que será vista e conhecida por muitas e muitas gerações.
O trabalho desses profissionais requer muito cuidado e atenção, pois os reparos são minuciosos e um simples erro pode descaracterizar por completo a obra. Restaurar significa dar vida a aquilo que estava esquecido, é conservar os valores, históricos e estéticos, a cultura de uma sociedade, seus ideais e pensamentos. Monumentos como do mineiro de Vila Rica, Antônio Francisco Lisboa, o Aleijadinho, são peças únicas e importantes para o estilo barroco e fazem parte da história de muitas cidades mineiras como Sabará, São João del-Rei, Congonhas do Campo e principalmente Ouro Preto.

A imagem de São Jorge feita por Aleijadinho, no século XVIII, que se encontra no Museu da Inconfidência, em Ouro Preto, por exemplo, é uma peça muito conhecida pela curiosa história que a ronda. Reza a lenda que a espada carregada pela estátua caiu sobre um escravo, que acabou morrendo. Por causa desse episódio a figura foi parar na prisão. Anos depois, mais precisamente de novembro de 2008 a fevereiro de 2009, a imagem foi restaurada pelo arquiteto, professor e restaurador Alexandre Mascarenhas e pela restauradora Júnia Araújo. Segundo Alexandre, a intervenção na imagem teve como premissa manter o máximo da autenticidade e originalidade da escultura, seja no suporte em madeira, ou na sua policromia (cores) e douramento. “Anteriormente houve um tratamento, não sei precisar a data, mas foi no século XX, quando foram realizadas restaurações com materiais que hoje consideramos inadequados. Portanto, este material foi removido para se chegar ao original e reiniciar nova restauração”, ressalta.

Mascarenhas se diz uma pessoa apaixonada pelo que faz e ressalta que esta arte não é complicada, basta a pessoa ter o dom para restaurar, gostar do ofício e principalmente4 ser jeitoso com as mãos. “É importante também saber manusear as ferramentas, dominar um pouco de escultura e ser paciente”. Ele afirma que os critérios com os utensílios e materiais utilizados são muito importantes, pois um simples deslize pode ocasionar um rombo ou um problema muito maior e o resultado ser o pior. “A atenção e carinho são fundamentais na restauração, seja nas esculturas policromadas, de gesso, de telas, altares ou na própria estrutura arquitetônica” acrescenta.
O ofício parece simples, mas para iniciar os trabalhos em um local ou objeto é necessário um estudo aprofundado sobre ele, para ter garantia de que o que será restaurado chegue o mais fiel possível ao original. “É preciso ter fotos antigas, documentos, para entendermos como era o objeto antes da degradação, porque é comum encontrarmos as construções num estado que, se não houver bibliografia, até informações de idosos, fica muito difícil”, pontua Alexandre.

A restauradora Maria Regina Reis Ramos, sócia fundadora do Grupo Oficina de Restauro, destaca que a primeira coisa que o profissional deve conhecer e dominar são as técnicas aplicadas durante os períodos históricos. “Como Minas tem um campo amplo de trabalho, especialmente nas cidades interioranas, é importante que o restaurador tenha conhecimento da história, principalmente dos séculos XVIII e XIX, quando foi criado o maior número do acervo artístico que temos, especialmente nas igrejas”, enfatiza. Atualmente a empresa está restaurando o antigo prédio da Secretaria de Estado de Educação, localizado na praça da Liberdade.
A edificação, erguida no século XIX, estava pintada de amarelo quando a restauradora e sua equipe de 40 pessoas chegaram ao local. Tiveram que fazer um trabalho de prospecção e acharam três pinturas diferentes. O Palácio da Liberdade também foi restaurado pela equipe da Maria Regina, há dois anos. “Fazemos um trabalho quase arqueológico de conhecimento do prédio, a ideia é sempre voltar ao primeiro momento ou então garantir homogeneidade, fazer com que as pessoas entrem e sintam que estão em um lugar daquela época”, destaca a restauradora.
Em Minas Gerais, existem duas importantes escolas formadoras de profissionais restauradores: Faop – Fundação de Artes de Ouro Preto, e Cecor – Centro de Conservação e Restauração de Bens Culturais Móveis da UFMG. A primeira está ligada à Secretaria de Cultura de Minas Gerais e oferece três núcleos de formação: arte, conservação e restauração, e ofícios. De acordo com a presidente da Faop, Ana Pacheco, a escola existe há 40 anos e seu objetivo é preparar os alunos, qualificando-os para diagnosticar e atuar na conservação e na restauração de acervo de papéis, escultura policromada e pintura de cavalete. “Temos a preocupação de passar para nossos alunos uma parte introdutória de entendimento do que é a cidade, o patrimônio, quais os órgãos que cuidam e legislam a respeito disso”. Segundo a diretora, a formação de mão-de-obra qualificada faz com que o trabalho seja reconhecido e mais valorizado. “Para nós, é muito importante porque somos o único curso técnico do Brasil de conservação e restauração de bens culturais”, assegura.
O edital fica disponível semestralmente no www.faop.mg.gov.br. São oferecidas 45 vagas para o Núcleo de Conservação e Restauração. A duração do curso é de dois anos. O aluno passa por um processo seletivo fazendo provas de português, química e aptidão visual e motora. O núcleo oferece três suportes: papel, pintura de cavalete e policromada.
No Cecor
O processo seletivo é feito pelo vestibular, comum a todos os candidatos, e provas especificas são língua portuguesa, literatura brasileira e história. O curso é diurno, com 30 vagas anuais, e o começo é no primeiro semestre do ano e tem duração de quatro anos.
A coordenadora do Núcleo de Conservação e Restauração da Faop, Carla Santana do Nascimento, foi aluna da instituição antes de chegar à coordenação. Ela revela que o curso é muito completo, pois os alunos aprendem sobre história, química e composição das cores, além de colocarem a mão na massa restaurando peças cedidas por igrejas de Ouro Preto e das comunidades vizinhas. “Ensinamos os alunos a valorizar a obra por si e não pelo artista, pois se não for valiosa como arte, será preciosa para a comunidade, como objeto de fé, de imagem devocional”, explica.
Já no Cecor, o curso de Conservação e Restauração de Bens Móveis existe há mais de 30 anos. Em 2008, a especialização transformou-se em graduação, onde o aluno aprende sobre química, microbiologia aplicada, artes visuais, história da arte, conservação do patrimônio, princípios básicos dos materiais de bens culturais, pigmentação, entre outros. De acordo com o professor e diretor da Escola Belas Artes (EBA), Luiz Antônio Cruz Souza, o Cecor é um órgão complementar que aproveita toda a infraestrutura da EBA para qualificar os alunos, além disso, é o único curso de graduação no país. “Estamos consolidando nosso perfil de liderança no Brasil. O Cecor vem abrindo áreas de colaboração interdisciplinares como, por exemplo, a Escola de Arquitetura e a Escola de Engenharia, e vem consolidando seu relacionamento com os departamentos de Química, Física e Microbiologia da universidade, trabalhando com a questão do patrimônio numa esfera mais ampla possível, envolvendo técnicas e materiais pictóricos, conservação preventiva, gestão e análise de riscos para conservação de acervos, preservação digital e educação patrimonial”, garante. Não é à toa que a iniciativa, juntamente com as parcerias, é fundamental para o processo de restauração, ajudando a manter a história presente e viva na memória das pessoas. Estes profissionais são responsáveis por conservar o patrimônio histórico e cultural, bens de toda a humanidade.
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