| Rafael Campos |
Sim, também temos stand-up

Na mesa de um bar, entre um copo e outro, o riso. No palco simples, sem cenário, figurino, direção ou roteiro está o comediante, liberto de piadas consolidadas ou copiadas. Sempre disposto a improvisar, o ator tem a tarefa de atender à apenas uma ordem: fazer rir. Assim é a comédia stand-up ou stand-up comedy, gênero artístico com raízes no século XIX, nos Estados Unidos. A exemplo do restante do país, o estilo virou mania em BH, principalmente em bares, durante o happy hour.
Febre na internet, o gênero é de fácil aceitação, até porque o comediante chama a atenção para situações curiosas ou inusitadas do dia a dia, fazendo com que o público se sinta representado nas pérolas atiradas ao microfone. Em BH, seis comediantes se juntaram há um ano para formar o primeiro grupo de stand-up comedy da capital: o Queijo, Comédia e Cachaça se apresenta todas as terças-feiras no bar Canapé, no São Pedro. O grupo surgiu a partir de um curso ministrado pelo ator, professor de inglês e jornalista Ranieri Lima, que também faz parte do sexteto. “Sempre arrumava um emprego, mas era demitido logo em seguida. Assim, percebi que o problema era comigo. Procurei uma forma de arte na qual pudesse falar qualquer coisa e ser honesto, foi quando descobri o stand-up comedy”, diz.

Além de Ranieri, formam o Queijo, Comédia e Cachaça os arquitetos Arthur Ottoni, e Bruno Berg, o estudante Gabriel Freitas, Paloma Santos, e o caçula Edgar Quintanilha. Paloma afirma que a internet tem papel fundamental na popularização do estilo. Ela revela que o fato de ser a única mulher do grupo rende boas histórias a contar. “A visão da mulher sobre temas relacionados a sexo e política, por exemplo, é bem diferente que a do homem, o que é interessante explorar”. O mais novo da turma, Edgar, acredita que o desafio é arrancar o riso do público, que às vezes se mostra desconfiado. “O esforço é para conquistar a risada do espectador”, diz. Procurando por descontração depois de um dia inteiro de trabalho, a empresária Fabíola Cardoso, foi ao bar e gostou do que viu. “É muito bacana esse humor, pois usa várias situações do cotidiano”, opina. O comerciante Cléber Lopes já assistiu a outras apresentações do estilo. “Sempre acompanho. Gosto mais das ironias lançadas sobre políticos e outros famosos”, afirma.

Saindo do forno, outro grupo pretende entreter os belo-horizontinos ávidos de descontração. A Liga da Comédia também nasceu a partir das aulas do professor Ranieri. Foi no palco do auditório do Museu Abílio Barreto que o grupo se apresentou pela primeira vez, em abril. Antes da estreia, o quinteto já havia participado de pequenas “canjas” no bar Canapé, o que ajudou a diminuir a tensão antes da primeira apresentação no museu. “Foi muito bacana e o público interagiu bastante”, comemora o estudante Camilo Mello, um dos integrantes da Liga da Comédia, que conta ainda com Ranieri Lima, o médico José Carlos, o publicitário Carlos Oliveira, o Caíque, e a atriz e produtora cultural Myriam Campas. Para Carlos, a febre do stand-up serve para que as pessoas tenham acesso a uma outra forma de comédia. “É um humor diferente do que é mostrado na TV, por exemplo. É mais intelectual e inteligente”, diz. Já para o médico José Carlos, o gênero é uma terapia. “Você fala de tudo. É muito rico”, avalia.
A lista de bons comediantes veteranos é imensa, e, entre eles, está o belo-horizontino Bruno Motta, hoje, radicado em São Paulo. Há dez anos, ele diverte e se diverte sobre os palcos do Brasil. Motta, inclusive, já recebeu elogios de artistas experientes como Tom Cavalcanti e Chico Anysio, por sinal, um dos responsáveis por popularizar o gênero no país. “Adorava o desafio de fazer humor apenas com texto inédito, baseado no dia a dia”, explica o motivo que o fez ingres-4 sar no estilo. O mineiro conquistou vários prêmios, entre eles, o troféu Multishow do Bom Humor Brasileiro, em 1998. Ele cita suas principais referências. “Nos Estados Unidos, o Johnny Carson, (Jerry) Seinfeld e Ellen (DeGeneres). No Brasil, o Chico Anysio é um gênio e sinto-me abençoado por já ter trabalhado várias vezes com ele. Cito outros como Jô Soares e José Vasconcelos.”

Importante canal, responsável por ter disseminado inúmeros vídeos de apresentações do gênero, a internet teve outro papel, o de unir pessoas em torno do estilo. Foi dessa maneira que a Turma da Comédia surgiu. Thiago Alves, Mário Alaska, Renatinho CP, Wilher Jorge, Rafael Mazzi e Christiano Luiz se juntaram e também realizam desde março apresentações semanais no bar Villa Rizza, na Serra. “Resolvemos unir o útil ao agradável, pois aqui é a capital dos botecos”, explica o publicitário e jornalista Mário Alaska. Segundo o comediante, os textos sempre mudam acompanhando os assuntos do cotidiano. Renatinho CP, um dos membros do grupo, afirma que a apresentação é quase um bate-papo. “Funciona como uma conversa de boteco.” CP revelou ainda que o grupo pretende iniciar uma temporada de apresentações pela capital.

O estilo vem ganhando tanta força por aqui, que um projeto (Mercado do Riso) iniciado em abril promete trazer os melhores comediantes de stand-up do país. O primeiro foi Rafinha Bastos, um dos integrantes do bem sucedido programa CQC (Custe o Que Custar) da Band. Cerca de 2,5 mil pessoas assistiram às duas apresentações no Minascentro. Devido à grande procura pelo espetáculo A arte do insulto, uma sessão extra teve que ser aberta. “Em um minuto chego a fazer três ou quatro provocações engraçadas. É um humor que não tem muito tempo a perder”. O gaúcho, que explora um humor mais ácido, começou a desmembrar sua veia cômica em 2003, quando já produzia vídeos engraçados para web. “Estou sempre vendo coisas com olhar diferenciado sobre a realidade. Passo 24 horas preparado para receber esses estímulos”, diz. Além de Rafinha, Danilo Gentili e Marco Luque, ambos do CQC, passaram pela capital.
Humor em BH
Alemão Canapé
Rua Major Lopes, 470 –
São Pedro, (31) 3225-1919
Toda terça-feira, às 20h
Grupo: Queijo, Comédia e Cachaça
Villa Rizza
Avenida do Contorno, 4.383 –
Serra, (31) 3225-3533
Toda terça-feira, às 20h30
Grupo: Turma da Comédia
Butiquim Santo Antônio
Rua Leopoldina, 415 –
Santo Antônio, (31) 3297-3846
Toda terça-feira em julho (exceto dia 14), às 20h30
Grupo: Liga da Comédia
MARIA DAS TRANÇAS
Rua Professor Moraes, 158 – Savassi, (31) 3261-4802
Todo domingo em julho, às 18h30
Grupo: Stand-Up Sport Club
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