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Especial Pais

| Christian Catão |
| Carolina Godoi |


Aprendi com meu pai

Os filhos carregam por toda a vida muito daquilo que os pais foram, seus exemplos. Pais são heróis de car­ne e osso que transmitem das formas mais variadas experiências ines­que­cíveis. É nisso que pensou o jornalista paulistano Luís Co­lombini ao es­crever o livro Aprendi com meu pai (Editora Versar) que traz depoimentos francos, ora emocionados, ora en­graçados, de 54 personalidades bem-sucedidas das mais variadas áreas. Ins­pirado no livro, En­contro decidiu homenagear os pais a­través do depoimento de mineiros ilustres, das mais variadas áreas. A revista perguntou a essas pessoas qual foi a maior lição que receberam de seu pai. As respostas surpreendentes e carregadas de emoção revelam a força da relação en­tre pai e filho.


* Eugênio Gurgel

“ Meu pai tem formação em arquitetura e é exímio pintor. A vida profissional nunca o permitiu exercer o hobby. Hoje, ocupa a vida com isso. Fez cursos na Guignard, montou ateliê e faz aulas de pintura. O fato de ter o seu nome, trouxe muitos problemas. São bancos, empresas de cartões e outras que sempre nos confundem. Mas isso não é nada perto do orgulho que sinto por ter recebido o nome dele. Apesar do nome, somos bastante diferentes. Ele é uma pessoa leve, tranquila. Eu, tenso, formal e controlador. Em setembro de 2000, minha mãe teve sério problema cardíaco. No dia da operação, o médico disse à família: ‘as chances são mínimas’. Eu e meus irmãos ficamos desolados, chorávamos muito. Naquele momento, meu pai nos reuniu, ali mesmo no hospital, e disse: ‘Até onde pude, fiz todo o possível. Agora, só nos resta rezar. Quero que vocês me acompanhem à igreja aqui perto’. Ficamos horas ali, juntos, rezando. Aquilo me marcou muito. Foi uma demonstração viva da humildade dele, reconhecendo suas próprias limitações e, ao mesmo tempo, de sua fé e confiança em Deus.”
Roberto Mário Soares – Empresário
PAI: Roberto Soares – Empresário e artista plástico. Vive, aos 77 anos, ao lado da mulher Stela, que se recuperou da doença e vive viajando com o marido pelo mundo afora

* Eugênio Gurgel

“Fico impressionado com a forma como meu pai conduz sua vida pessoal e profissional, de como respeita as pessoas, dos seus valores e princípios. A dedicação, amor e paixão dele pela família e por minha mãe chegam a ser para mim uma dificuldade. Porque tendo esse exemplo em casa, quero também isso para minha vida. Mas sei que é difícil. O tempo de meu pai fora o trabalho é inteiramente dedicado à família. Na minha relação com ele, sempre me recordo das horas em que me chamava para ‘tomar um café’. Na verdade, queria puxar minha orelha. Quando ouvia ele dizer: ‘vamos tomar um café’, sentia um enorme frio na barriga. Sempre fui relaxado na escola e meu pai me cobrava muito isso. Quando, anos depois, larguei o curso de engenharia civil achei que ele não iria aceitar. Para minha surpresa, me deu todo apoio e disse: ‘esse curso não era para você, tem de fazer aquilo que combina com seu jeito’. Fiquei tocado.”
Eugênio Andrade – empresário
PAI: Robson Braga Andrade – empresário, 60 anos e que até hoje gosta de “tomar café” com o filho

* Eugênio Gurgel

“ Meu pai é um homem reservado, de poucas palavras, mas com grande sensibilidade.  Quando fiquei sabendo que ia ser pai, liguei imediatamente para ele, tamanha minha emoção. Meu pai começou a chorar e me disse: ‘Aprendi a entender meu pai através dos meus netos (filhos de minha irmã), ter filho é ir ao céu, ter neto é tocar na mão de Deus’.  Hoje me sinto, eu e minha mulher, no céu com  nosso filho. Profissionalmente, a maior lição que tive foi durante uma negociação. Já era tarde para desistirmos do negócio e descobrimos que havíamos sido passados para trás.  Não sabia como fazer. Meu pai foi categórico: nós erramos, vamos pagar por isso. Perdemos muito dinheiro, mas nunca mais me esqueci da lição. Ele dizia: “Patrimônio se constrói com trabalho e competência. Não podemos é perder nossa dignidade”.  A maior preocupação dele no episódio foi com as pessoas inocentes que poderiam ser prejudicadas com o negócio que não prosperou. Pouco tempo depois, o universo conspirou a nosso favor e tudo se resolveu bem. ”
Romeu Scaliolli Junior – empresário
PAI: Romeu Scaliolli – empresário, ativo como nunca nos negócios e, principalmente, no trato com os netos

* Divulgação

“ Meu pai é homem carismático, extrovertido, brincalhão e sempre foi um pai muito presente. Sei que ainda tenho muitas lições para aprender com ele, mas sem dúvida a sua determinação é um exemplo que procuro seguir. Eu tenho o mesmo temperamento do meu pai e não gosto de deixar nada para amanhã. “Papusco”, como carinhosamente o chamo, sempre me apoiou. Desde os meus 14 anos, quando participei do New Look, o meu primeiro concurso de beleza, ele foi o meu maior incentivador, me acompanhando e me levando a todos os lugares aonde precisava ir. ”
Rayanne Morais – Miss Minas Gerais 2009, segundo lugar no Miss Brasil
PAI: Carlos Magno de Morais – empresário, 49 anos

* Cláudio Cunha

“ Dos cinco irmãos, fui o único que seguiu a mesma carreira dele, pois também sou advogado criminalista e professor na Faculdade de Direito da UFMG. Também como ele, fui presidente da OAB (MG). Minha trajetória profissional, seguindo os passos de meu pai, mostra como a vida dele marcou a minha. Durante minha adolescência, quando ele já era advogado conceituado, decidiu transferir seu escritório para nossa residência. Ele recebia os clientes em casa, no meio de nossa biblioteca.  Me lembro, certa vez, quando o ex-presidente Juscelino Kubitschek, cliente dele, esteve lá. Meu pai sempre foi muito rigoroso e extremamente estudioso. Isso me influenciou muito. Me recordo quando, em 1999, depois de receber uma homenagem na OAB, ele fez discurso no qual me citava como seguidor de seus passos. Para mim, foi o reconhecimento dele de que eu havia conseguido seguir seu exemplo. Pessoalmente, como pai, ele sempre foi um “corujão”. Exemplo que também procuro seguir com o bisneto dele e meu neto, João Marcelo.  ”
Marcelo Leonardo – advogado criminalista
PAI: Jair Leonardo Lopes – advogado criminalista e atuante aos 85 anos

* Cláudio Cunha

“ Meu pai nasceu em Varginha, no sul de Minas. Era muito otimista, extremamente curioso e gostava de viajar pelo mundo. Em 1955, eu era uma pequena menina e já ia buscá-lo no porto do Rio de Janeiro, quando ele chegava de navio dos Estados Unidos. Um momento inesquecível da minha infância. Era muito trabalhador e de origem muito humilde. Estudou com grande dificuldade e se formou em direito e jornalismo. Fundou o Colégio Anchieta e exerceu forte influência para que depois, eu e meus irmãos, fundássemos o Centro Universitário Newton Paiva. Era um apaixonado por educação. Nas paredes do Colégio Anchieta colocava uma série de frases que diziam que o estudo era a luz da vida.  Nas horas de folga, ele adorava dançar comigo. Aqueles eram momentos mágicos de que uma filha jamais se esquece. Pessoalmente, papai era muito amigo de Pedro Aleixo e amigo pessoal de Juscelino Kubitschek. Foi diretor da Rede Ferroviária Federal, além de ter sido do Conselho Nacional de Petróleo e um dos responsáveis pela fundação da Refinaria Gabriel Passos, em Betim. Foi fundador da primeira TV de Minas Gerais, a TV Itacolomi, em 1955. ”
Maria Elvira Salles Ferreira – empresária
PAI: Newton Paiva Ferreira – empresário, morreu aos 61 anos, de câncer

* Cláudio Cunha

“ Hoje, sendo também pai, entendo que não se influencia as pessoas e principalmente a criança e o jovem de maneira consistente, a não ser pelo exemplo e pela congruência entre o que se fala e o que se faz. Tenho e tive a sorte de ter um pai muito presente que, através de seus exemplos, me ensinou a importância do trabalho, da persistência e da solidariedade. Fui procurando adaptar seus ensinamentos ao meu estilo próprio. Sempre fomos muito próximos e ligados por sentimentos intensos e por uma racionalidade fundamental que nos permitiu trabalharmos juntos por todos estes anos. ”
Henrique Salvador – médico
PAI: José Salvador Silva – médico e empresário

* Lúcia Sebe

“ Meu pai, legou-me, mais do que tudo, a sua imensa curiosidade intelectual e científica: lia de tudo e pesquisava sobre tudo. Coleções sobre saúde, história, geografia, esportes, astronomia, religião, enciclopédias, tudo era assunto interessante para ele. Sou assim também. Todos os assuntos me interessam. Ao me lembrar dele, tenho, em minha memória, a sua imagem lendo e falando sobre mil temas, sempre curioso sobre a vida e seus mistérios. ”
Antonio Augusto Anastasia – vice-governador de Minas Gerais
PAI: Dante Anastasia – comerciante

* Geraldo Goulart

“ Meu pai, Francisco Gaetani, é natural da Itália . Imigrou para o Brasil por necessidade. Sou típico filho de imigrantes. Tive educação e formação rígidas. Sou o quinto de cinco irmãos. Depois do fim da Segunda Guerra Mundial, fiz viagem com ele para a Itália, que muito me marcou. Estávamos na aldeia Torraca, com os amigos dele conversando, e saiu a seguinte conversa: Titillo (apelido dele) você é italiano? Ele respondeu: sou brasiliano. Mas você nasceu na Itália? Não, respondeu meu pai. A nacionalidade do homem é o lugar onde ele ganha o pão e cria a família. Eu tinha 10 anos e isso me marcou muito. A reação demonstrava o quanto ele gostava do Brasil. ”
Ítalo Gaetani – empresário
PAI: Francisco Gaetani  – Empresário, morreu há 50 anos, em BH, de problemas cardíacos

* Cláudio Cunha

“ Meu pai gostava de dividir as alegrias e tristezas com os outros. Durante muitos anos foi prefeito de São Gonçalo do Pará, no centro-oeste do estado. Embora sensível, nunca o tinha visto chorar na vida. Era o maior cruzeirense do planeta. Jamais cogitou que eu e meu irmão chegaríamos à presidência. Um fato que me marcou foi quando eu tinha 12 anos e ele me arrumou emprego na padaria da cidade. Chegou em casa e falou: ‘Você começa na segunda-feira. Tem de aprender a trabalhar’. Dois anos depois, nos mudamos para BH. Mas o momento de maior emoção ao seu lado, ocorreu em 1995, quando me elegi presidente do Cruzeiro. Quando contei a ele, começou a chorar. Atualmente, trabalho com a foto dele na minha frente. É a minha inspiração. ”
Zezé Perrella – presidente do Cruzeiro e deputado estadual
Pai: José Henriques Costa – pecuarista, morreu aos 77 anos, de enfisema pulmonar

* Eugênio Gurgel

“ Ele era um intelectual. Tinha humor fino, era espirituoso, um gozador. Todo domingo levava os filhos para uma confeitaria no centro de BH. Lá, encontrava os amigos dele. Vivia rodeado de amigos. Todas as férias íamos juntos para o Rio de Janeiro, onde alugava apartamento na praia de Copacabana. Apesar de alegre, extrovertido, era um  homem fechado do ponto de vista das emoções.  O momento mais marcante com ele foi quando eu estava fazendo prova oral para o vestibular de direito, na UFMG, no fim de 1966. Quando olhei para a platéia, vi, lá no fundo, que estava presente. Ele apareceu sem falar nada comigo. Do mesmo jeito que surgiu, foi embora, quando a prova acabou. Esta é uma cena que sempre me vem à cabeça. Fiquei marcado pela presença dele num momento tão importante para mim. A imagem que tenho era a de um pai presente, mas à sua maneira, discreta.”
Fernando Pinheiro – advogado, está sempre presente nos momentos importantes de seus filhos
PAI: Antônio Fernando Pinheiro – advogado, morreu aos 72 anos de problemas cardíacos

* Divulgação

“De família humilde e origem rural, meu pai era meeiro. Trabalhava na terra e não teve oportunidade de frequentar as escolas formais. Alfabetizou-se com muito esforço e graduou-se pela escola da vida. Sem a cultura formal, buscou a sabedoria dos conhecimentos práticos e tinha enorme orgulho por ter graduado os seus quatro filhos. Homem de fé e de trabalho, costumava dizer que o trabalhador deve buscar ser digno do seu salário e que a gratidão deve fertilizar nossas ações. Afirmava que Deus não nos fez fortes para subjulgar e nem nos fez fracos para ouvir e curvar-nos, nos deu a consciência do que podemos ser e por essa consciência devemos buscar ser melhores seres humanos. Nos momentos de silêncio e reflexões, que antecedem minhas decisões, ouço sua voz ao fundo: ‘Filho, procure ser justo, não se subjugue ao poder, porque o maior poder que um homem pode ter é o poder de se desprender do poder’. ”
Vitor Sérgio dos Santos – médico e presidente de empresa
PAI: Vitor Santos Correa – comerciante do interior, morreu aos 84 anos, de infarto

* Cláudio Cunha

“ Alguns meses antes de falecer, quando eu era prefeito de Belo Horizonte, meu pai me chamou e  disse: “Filho, na vida pública você receberá muitas honrarias, muitas homenagens. Não se iluda. Tudo passa. No fundo, a única coisa que você pode levar é o orgulho de andar na sua cidade de cabeça erguida, saudado com carinho por todos. Trabalhe para isso...” Nunca mais me esquecerei desse momento e, seguramente, foi a lição mais marcante que dele recebi. ”
Fernando Pimentel – ex-prefeito de Belo Horizonte
PAI: Miguel Carvalho Pimentel – pastor e comerciante, morreu aos 89 anos, de ataque cardíaco

* Cláudio Cunha

“ O maior legado deixado pelo meu pai foi o exemplo. Procurei seguir sua trajetória. Ele era atleticano roxo e presidiu o clube de 1980 a 1985. Fico orgulhoso de presidir hoje o clube que ele já liderou. Sempre que me deparo com situações difíceis na vida, lembro do meu pai. Papai estava à frente do seu tempo, falava, pensava e agia com inteligência impar. Quero passar por esta vida deixando para a sociedade ao menos a metade do que ele fez e deixou. Se conseguir isso, estarei realizado. Obrigado, meu pai, por ter me ensinado tanto e continuar a me ensinar a transmitir valores importantes para meus filhos. ”
Alexandre Kalil – presidente do Atlético
PAI: Jorge Elias kalil Filho – professor, morreu em 2006, de problemas cardíacos

* Divulgação

“ Meu pai?  Nossa, quanta lembrança... ele já se foi há muitos anos! Quando era mais jovem, ficaram os traumas de como era difícil na minha época. Nada se podia fazer:  namorar, sair... tudo muito mais difícil. Eu, com uma sede de liberdade imensa, contava com a ajuda da minha mãe, que contribuía para que a vida não ficasse tão limitada.  Mas, com a maturidade, veio a compreensão. Era outro tempo mesmo. E o que fica, e que assimilei, é o exemplo de que a palavra basta, não precisa de documento assinado. Era homem de um profundo senso de justiça, de ética. Dele tive o estímulo para ler e ouvir música clássica. Lembro-me de mim, bem no meio da sala de casa, recitando poesias e, de improviso, fazendo discursos pedindo ajuda para quem precisava. Meu pai aplaudia, entusiasmando! ”
Roberta Zampetti  – apresentadora de TV e poeta nas horas vagas
PAI: Raul de Almeida Costa – professor, morreu em 1988, de problemas cardíacos

* Divulgação

“ Observando meu pai, o que mais me chamou atenção na sua forma de ser – que para mim é uma grande lição de vida – foi como ele se posicionava frente às decisões. Ele sempre se colocou dos dois lados. Suas decisões eram pautadas com bom senso, temperado de razão com emoção. Para ele, não importava quem estava com o queijo e a faca na mão. Ele procurava, sempre com muita determinação e sabedoria, transformar um ambiente de conflito em um produtivo. O resultado era que o queijo era cortado por qualquer um e todos saíam satisfeitos. ”
Domingos Costa – empresário, de notório perfil conciliador
PAI: Paschoal Costa – empresário, moreu em 1997, em decorrência de diabetes

* Sergio Amzalack

“ A forma como somos educados é muito determinante e meu pai foi uma grande influência na minha formação. Ele é descendente de militar e um disciplinador. Era extremamente organizado. Planejava suas metas e as perseguia com determinação. Ninava a gente com os hinos nacionais, que são imponentes, falam de liberdade e transformam as pessoas em heróis. Fui criado como uma pessoa que deveria ser sempre melhor, sem permissão para ser medíocre. Por isso, quis muito vencer na vida em busca de uma causa maior. Hoje, esta causa é o Inhotim. ”
Bernardo Paz – empresário
PAI: Achilles Paz – arquiteto, atuante aos 85 anos

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