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| Tião Martins |


As avós

Tião Martins
Tião Martins

A paixão por Doris Lessing vem do século passado, com a primeira leitura do livro O carnê dourado, e foi crescendo sem alarde. Aliás, com o passar dos anos, tudo que envolve a escritora acontece sem alarde. Seus leitores habituais não andam com os livros dela debaixo do braço e nem saem por aí fazendo propaganda, a não ser junto às pessoas mais íntimas. Doris é como certos momentos do Réquiem, de Mozart. Emocionam, sem produzir lágrimas e soluços.

Embora escrevendo em inglês e residindo em Londres, onde a mídia adora remexer na vida pregressa dos famosos, recebeu o Nobel de Lite­ra­tura de 2007 e nem por isso ocupou espaços generosos nos jornais e revistas. Aliás, é provável que a mídia tenha lhe oferecido espaços bem menores que os do português José Saramago. O prêmio, como sempre, veio com pelo menos vinte anos de atraso. Os velhinhos não correm riscos: só votam em candidatos que já construíram uma obra incontestável.

Agora, chega às nossas livrarias, em iniciativa da Companhia das Letras, um volume magro, mínimo, cujo título, de tão discreto, deve deixar loucos os livreiros. Quem vai comprar um livro chamado As avós? Nem as próprias, provavelmente. E muito menos os netos e netas, que raramente se interessam pelo assunto.
 
Netos, quando pequenos, ganham beijos, abraços e presentes da avó, a cúmplice predileta, porque tudo ela aceita e compreende. Depois que crescem, perdem a paciência em algum lugar e nunca mais querem saber dela (da paciência e da avó). A vida é assim mesmo, e não adianta reclamar.

Mas não é de impaciência e abandono que trata o livro de Doris Lessing. Aliás, seu tema é o exato oposto de tudo que se pode imaginar. Não esperem, entretanto, encontrar nesta esquina ligeira uma espécie de síntese do livro. Sintetizar uma obra-prima é atentado criminoso à sensibilidade ao trabalho do autor e à sensibilidade dos leitores, além de ofensa à própria literatura.

“Netos ganham beijos, abraços e presentes da avó, a cúmplice predileta, porque tudo ela aceita e compreende”

Só é possível contar, sem trair a autora, que o livro é o texto mais delicado, sutil e feminino que Lessing já escreveu. E olha que os velhinhos da Academia, quando lhe deram o No­bel, tiveram a tolice de afirmar que ela é “a narradora épica da experiência feminina”. Não é, mas ajuda você a ter uma ideia aproximada de quão feminina é a narrativa sobre essas mulheres maravilhosas, Roz e Lil, em sua lenta trajetória da juventude ao que vem depois e não é envelhecimento.
Mulheres assim não envelhecem, caminham para o futuro.
 
A exemplo de Marguerite Your­cenar, em Memórias de Adriano, Lessing poderia escrever que “... o gráfico de uma vida humana (...) não se compõe, digam o que disserem, de uma horizontal e duas perpendiculares, mas sim de três linhas sinuosas, prolongadas no infinito, incessantemente aproximadas e divergindo sem cessar: o que o homem julgou ser, o que ele quis ser e o que ele foi.” O homem ou a mulher.

Com extrema simplicidade na construção do texto, Doris Lessing escreve como se fosse uma vizinha ou amiga das duas e conhecesse em detalhes a vida pública e a vida íntima de suas personagens. E é provável que conheça mesmo.
É assombroso o poder de sedução desse pequeno grande livro, que a cada página vai desdobrando um pouco mais os sentimentos de Roz e Lil, descerrando véus e revelando o que existe de mais simples e mais complexo na alma feminina.
Lessing não relata uma saga ou uma fábula. Não se empenha na reinvenção das frases e nem corre os ricos extremos a que Gertrude Stein se submeteu. Com judiciosa economia de palavras e toques discretos de emoção, seu texto vai ao fundo sem perder o fôlego e retorna à tona sem lições de sabedoria ou grandeza e sem lances de heroísmo ou tragédia.

São apenas duas mulheres (e não duas heroínas de romance). Apenas dois seres humanos e o resto do mun­do, do qual se afastam não por temor, mas por compreenderem que o mun­do lá fora pode ser um lugar nada gentil com pessoas delicadas.

Todos vocês, mulheres e homens, vão amar Doris, Lil e Roz. E talvez aprendam, para sempre, a reconhecer essa coisa maravilhosa e absurda que é amar.

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