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Especial Gourmet

| Renata Matta Machado |


Com produtos cada vez mais diversificados, padarias são alternativa ao supermercado e até ponto de encontro


Muito além do pão francês

* Geraldo Goulart
Novos produtos são atrativos de casas como a Morini

Você conhece alguém que não goste de pão? Com certeza sua resposta só pode ter sido não. Mas verdade seja dita: as padarias não são mais aquelas. Elas se transformaram em belas lojas que não lembram os tempos da caderneta, quando as compras do freguês eram anotadas e pagas no fim de cada mês. Hoje, muitas podem ser confundidas com minimercados, lojas de conveniências, delicatessens, butiques de pães ou ponto de encontro de amigos. Na realidade, as novas padarias são uma mistura de tudo isso, e é o freguês quem agradece. E mesmo com a va­riedade de produtos oferecidos, o pão do tipo francês ainda é o carro-chefe de toda padaria que se preze. “É importante que se ofereça diversificação de produtos, mas se não tiver o francês de qualidade, além de um bom atendimento, o cliente não vol­ta”, atesta a comerciante Jossane Gar­cia Machado, cli­ente fiel da Gran Vitoria, localizada no alto da avenida Afonso Pena. Descendente de italianos e espanhóis, Jossane confessa ser apaixonada por padarias. “Hoje, a padaria é uma empresa multifuncional e acho ótimo. A diferença de preço não é grande. Alguns produtos são até mais baratos”, afirma.

* Geraldo Goulart
Marco La­cerda: o escritor aproveita para ler livros e jornais na padaria

O advogado e empresário Age­nor Nunes Guerra lembra bem da época em que padaria era um local onde só se comprava pão e leite.4  Apesar disso, afirma que adorou a mudança no estilo. Viúvo, morador da Savassi, todas as tardes ele visita a Antoine. “Tudo é feito com mui­to capricho e a variedade de produtos é imensa. É uma espécie de boulangerie. Moro sozinho e adoro co­mer o pão filão, acompanhado de arroz de polvo e um bom vinho tin­to”, conta.

Outro amante das quitandas mi­neiras é o diretor de arte e cinegrafista Luiz Miguel, para quem frequentar uma padaria é como resgatar a infância. “As roscas, biscoitos, pães e bolos eram feitos na minha casa. Três ou quatro vizinhas iam para lá. Todo mundo se reunia. En­tre uma fornada e ou­tra a gente conversa­va”, re­lembra. Se­gun­do Mi­guel, a padaria, além de ser um local onde compra o pão, o leite e as quitandas de todo dia, é um ponto de en­contro de amigos. “É um ótimo lu­gar para ba­ter papo. A gente sai do esquema da cer­veja, das comidas de boteco, gordurosas. É su­pe­rsau­dá­vel”, diz.
* Geraldo Goulart
Jossane Garcia (à direita) é atendida na Gran Vitória: “Sou tratada como amiga”

Os números confirmam o crescimento do setor no estado. De acordo com a A­mip – Associação Mi­neira da In­dús­tria de Panifi­ca­ção, existem cer­ca de 14.600 padarias em Minas Ge­rais, que geram 175 mil empregos di­retos. O faturamento gira em torno de 7 bi­lhões de reais por ano, o que re­presenta 4% do PIB de Mi­nas Gerais.

Diariamente no­ve mi­lhões de consumidores circulam pelas padarias mineiras. Um deles, e dos mais assíduos, diga-se de passagem, é o jornalista Walter Navarro. Sol­­teiro, para ele as padarias de hoje são uma salvação. Fre­guês da Mata das Bor­boletas, Navarro, acha ó­timo en­con­trar nesses es­tabeleci­mentos pão fran­­cês, ovos a granel, iguarias finas e até cerveja gelada. “A Mata das Bor­bo­letas tem calçadão e bancos de al­venaria ideais para uma latinha, ao encontrar o amigo que foi comprar salsicha, ci­garro, guardanapo, isqueiro, vela e até mesmo o pão e o leite das cri­an­cinhas. Aí não tem perdão, temos que to­mar uma. Uma atrás da outra. As manhãs de sábado e do­mingo também não têm lei”, conta.
* Geraldo Goulart
Agenor Guerra lembra a época do pão e leite como únicas opções, mas adorou a mudança no estilo

As padarias estão se tornando mes­mo ponto de encontro em BH. Para o jornalista e escritor Marco La­­cerda, apresentador do Frente­Verso, na Rádio In­con­fi­dência, a padaria é pro­gra­ma bem mais saudável, mes­mo re­ga­do a cerveja estupidamente gelada. Pelo me­nos três vezes por semana vai a uma le­vando seus livros e jornais. Pode ser na Ma­ta das Bor­boletas, Ah!Bon, Bo­no­mi e Bonís­sima.“O am­bi­ente é aconchegante e agradável. Até os ca­chorros adoram”, brinca. Belo Horizon­te tem excelentes ca­sas e, se comparada a São Pau­lo e Rio de Janeiro, ain­da é fraca, mas está no caminho”.
 
Quem está do outro lado do balcão afirma que não me­de esforços para agradar ao cliente e sempre trazer novidades. Há 22 anos no ramo, Antônio de Pádua Moreira, proprietário da An­toine e presidente da As­sociação Mi­nei­ra da In­dús­tria da Pa­ni­ficação, comprou a pa­nifi­ca­dora, instalada na Savassi há sete meses. A primeira medida foi subs­tituir 90% do maquinário. “Tu­do foi feito dentro de um planejamento pa­ra que pu­déssemos oferecer qualidade e variedade de pães e confeitaria mais elaborados”, salienta.
* Geraldo Goulart
Amante das quitandas mineiras, para o diretor de arte Luiz Miguel frequentar padarias é como ­resgatar a infância

Fundada em 1972 pelo casal Cla­risse  e Moura e hoje com seis lo­jas em Belo Horizonte, a Morini é uma das mais conhecidas da cidade. Tra­balha com grande variedade de produtos, que incluem além dos pães, frutas, verduras, legumes, carnes, a­de­ga, entre ou­tros. Segundo o di­retor comercial Cristiano Mou­ra, a em­presa tem como proposta comercializar produtos e serviços diferenciados, de óti­ma qualidade com pre­ço competitivo. “Fo­­camos o re­lacionamento. Nosso cliente bus­ca a qualidade, variedade e não abre mão da agilidade. Nosso sucesso vem do trabalho e va­lorizamos a equipe de co­la­bo­radores, nos­­sos fornecedores e clientes”, ressalta Cristiano. Isso significa investir em novidades e aprimorar cada vez mais o serviço.
* Geraldo Goulart
Aline Moreira com Marlinda: mineira venceu etapa estadual da Copa Bunge

Tantas inovações também fa­zem com que novos talentos surjam em Minas. A confeiteira Marlinda Luana de Souza, de 21 anos, que trabalha na Forno d’Oro, está rindo à toa. Sua re­ceita do bo­lo Ca­ke Mun­­dika foi fi­nalis­ta mineira da 3ª edição da Co­pa Bunge de Panificação e Con­fei­ta­ria, concurso na­cional, promovido em parceria com a Abip (Associação Bra­si­leira da In­dús­tria de Pa­ni­fi­cação e Con­fei­ta­ria). Estou vi­vendo um so­nho”. Mais um bom motivo pa­ra os frequentado­res baterem pon­­to to­dos os dias.

A invenção do pão

Há mais ou menos 6 mil anos os egípcios descobriram, sem querer, a fermentação do trigo, inventando, desta forma, o pão. Os egípcios rapidamente aprimoraram as receitas do pão, modificando-as e criando diferentes formas, sabores e usos.

Na Idade Média a profissão
de padeiro era uma das mais protegidas e prestigiadas. Fazer pão, naquela época, era um processo difícil, que exigia anos de aprendizagem e disposição

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