| Rafael Campos |
O banco com estrela

Desde junho deste ano a camisa azul do Cruzeiro estampa mais uma estrela amarela. Não, desta vez não foi pela conquista de mais um título. Trata-se da estrela do banco Bonsucesso. Mas, afinal, que banco é esse e quem está por detrás desta marca?
Foi justamente buscando resposta para esta pergunta é que surgiu a ideia de patrocinar o time celeste. A seguir, os bastidores de uma das mais rápidas e curiosas negociações já realizadas no futebol mineiro.
Primeiro passe. Reunião de diretoria do banco realizada no dia 11 de maio deste ano. A diretora de marketing, Aléxia Duffles, fez um pedido: “Preciso aumentar o orçamento do marketing”. Para fazer a defesa, a executiva recorreu a um episódio registrado no call center da empresa. “Aqui é do banco Bonsucesso”, disse o funcionário do telemarketing da instituição, em contato com um cliente para renegociar seu contrato. “Nunca ouvi falar nessa empresa, deve ser engano”, respondeu o cliente. “O senhor é nosso cliente de crédito consignado, que vence no dia tal”, insistiu o funcionário. “É verdade. Mas eu não sabia que o dinheiro era desse banco. Nem conheço essa empresa”, respondeu.
Com a história, a diretora de marketing esperava convencer os acionistas de que era preciso melhorar a imagem institucional do banco. “Se nem nossos clientes conhecem o banco, o que dizer dos não-clientes”, argumentou ela. O caso soou como uma buzina na cabeça do presidente e fundador da instituição, Paulo Henrique Pentagna Guimarães, conhecido por PH.

Inquieto e provocado pela história, PH começou a pensar em como tornar sua marca conhecida pelo país. “Me veio a cabeça o futebol. Afinal, é a paixão nacional”, disse ele. “O Cruzeiro (que disputava a Taça Libertadores e o Campeonato Brasileiro) estava sem patrocínio”.
No dia seguinte, PH provoca a diretora Aléxia. “Você já pensou em patrocinar o Cruzeiro?”, perguntou ele. Alexia ficou esfuziante. Correu para sondar o mercado sobre valores, condições e retorno do investimento. Fez um teste. Comprou placas publicitárias no campo durante uma partida do Atlético.
Entra em campo o hábil dirigente Zezé Perrella, presidente do clube. Percebendo o interesse do banco pelo marketing esportivo, Zezé ligou para PH e o convidou para assistir de camarote ao jogo Cruzeiro e São Paulo, pela Taça Libertadores da América. Quando lá chegou, PH foi surpreendido com um presente de Zezé: uma camisa oficial do Cruzeiro que estampava a marca do Bonsucesso como futuro patrocinador. Atrás da camisa, o número 10 e o nome Paulo Henrique. O gesto sensibilizou o banqueiro. “Ele me cativou, a marca estava linda. Minha vontade era entrar em campo com o time”, disse PH. Jogada de mestre do dirigente celeste. “O Zezé é muito carismático, sedutor. Ele leva o esporte com seriedade e a vida com muito humor”, diz o empresário Domingos Costa, conselheiro nato do cruzeiro.

Embalado pela euforia do resultado (2x1 para o Cruzeiro), ao final do jogo Zezé convidou PH para jantar em sua casa na segunda-feira seguinte. Convite aceito. No jantar, estavam PH, seu irmão Gabriel, o diretor do Bonsucesso, Fábio Drummond, além de Zezé, Antônio Claret, diretor de marketing do clube, e o técnico Adilson Batista. Conversaram amenidades, contaram piadas, mas nada de futebol. Depois da sexta garrafa de vinho, PH interrompeu a prosa: “Zezé, suspende a bebida. Se você abrir a sétima garrafa, sou capaz de patrocinar até time de várzea”. Zezé mandou buscar outro vinho, PH não deixou abrir, mas entre uma gargalhada e outra, a certeza: nascia ali forte empatia entre banqueiro e dirigente.
“O PH é uma águia: ele é rápido e certeiro”, disse o presidente do Cruzeiro. “O Zezé é o mais brilhante dirigente esportista que já vi, o sucesso do time se deve muito à inteligência dele”, devolveu o banqueiro.
Mas, e o patrocínio? Até aquele momento, nada. Se dependesse de PH, a decisão já estava tomada, mas faltava convencer os irmãos dele, também acionistas do banco. Tarefa fácil? Não quando se trata de uma família com outros nove irmãos. Isso mesmo, nove. Alguns deles, inclusive, torcedores do Atlético.
Segundo lance. Nova reunião de conselho é convocada para decidir4 o assunto. Dois irmãos de PH resistiram, não queriam associar a marca a um só time. Um dos irmãos argumentou: “Patrocínio de time de futebol é para empresa grande, não para nosso banco”. Ao ouvir a frase, PH reagiu: “É exatamente por isso que devemos patrocinar. O Bonsucesso é uma grande empresa”. A contundência de PH foi emblemática. Apesar de dois votos em contrário, o conselho aprovou a medida. “Eu queria unanimidade, e como não a tive, decidi bancar o investimento”, disse Paulo Henrique que, ato contínuo, marcou reunião com Zezé e fez a proposta de patrocínio até dezembro, aceita pelo dirigente. Segundo apurou a Encontro, o valor foi de cerca de 7 milhões de reais.
Foram precisos apenas três encontros e 19 dias depois do primeiro contato com o clube para, em 14 de junho, o mercado ser surpreendido com a marca Bonsucesso estampada no peito dos jogadores celestes. O jogo, Cruzeiro x Palmeiras pelo Campeonato Brasileiro. “Foi uma decisão absolutamente técnica”, disse a diretora de marketing do banco, a cruzeirense Alexia, responsável pelo pontapé inicial de toda essa jogada. No estádio Palestra Itália, em São Paulo, vendo, de camarote vip, o jogo de estreia do patrocinado, ao lado Alvimar Perrella, ex-presidente do Cruzeiro, e de Zezé, PH não se conteve: “Agora, o Brasil inteiro vai co-nhecer o banco Bonsucesso”, disse. “Foi um gol de placa”.

Convencer os irmãos a apoiar suas ideias não foi uma experiência inédita na vida de Paulo Henrique Pentagna Guimarães, 52 anos. Pelo contrário. A própria história do banco Bonsucesso ilustra bem a determinação de seu fundador. De família tradicional mineira, PH nunca escondeu o sonho de um dia ser banqueiro.
Seu primeiro emprego, ainda rapaz, foi no Banco de Minas Gerais, que teve seu avô como um dos fundadores e seu pai, Paulo Vivas Guimarães, como diretor. Anos depois, a família decidira vender o banco e o pai enveredou com os 10 filhos para o segmento automotivo. Nascia a Carbel, concessionária Volkswagen.
Em poucos anos, a empresa se tornou líder no mercado local e os negócios automotivos a ocupação de quase toda a família. Quase. “Nunca tive paixão por esse setor”, diz PH. “Queria trabalhar no mercado financeiro”. Ele tentou exercer a atividade em empresas do mercado. Teve sucesso, mas era capaz de conter sua inquietação.
Como a venda de carros ia de vento em popa, a Carbel deparou-se com um problema: precisava financiar os automóveis para atender ao mercado crescente. Era a bola na marca do pênalti. PH procurou seu pai e apressou-se em convencê-lo a criar uma instituição financeira para financiar a concessionária. O pai apoiou, os irmãos, não.
PH ficou um ano tentando convencer a família de lhe dar o dinheiro necessário para a nova empreitada. Contra a opinião de outros filhos, o pai, Paulo Vivas, decidiu transferir 10% do patrimônio da empresa automotiva para fundar a financeira. Em 21 de novembro de 1992, não por coincidência no mesmo dia em que Paulo Henrique completava 41 anos, nascia a Bonsucesso Financeira. A escolha do nome da empresa foi uma maneira de PH homenagear seu avó, também banqueiro, e que nascera na cidade de Bonsucesso (MG).
Desde o início, a estrela do jovem banqueiro começava a brilhar. Os grandes bancos não se interessavam em financiar carros. “Sem concorrentes, nosso negócio explodiu”, diz PH.
Quando o negócio ficou bom, os concorrentes acordaram. “Minha saída era transformar a financeira em banco”, diz ele. “Eu precisava ter escala ”.
Paulo Vivas não hesitou em apoiar o filho novamente. Dessa vez, o dinheiro veio de dentro de casa. O sucesso da financeira permitiu que formassem o capital mínimo para virar banco. “Sempre fui determinado”, diz. “Mas a cada desafio, meu pai me dava uma lição ainda maior de perseverança e vontade de crescer”.
Atualmente, o banco Bonsucesso está entre os maiores do país no segmento de crédito consignado. O braço financeiro da família é quatro vezes superior ao braço automotivo, que também cresceu – hoje reúne cinco concessionárias.
No próximo dia 12 de agosto, o Bonsucesso divulga seu balanço semestral. “Será o melhor resultado de nossa história”, garante PH. “Sou movido a quebrar paradigmas”.
“O Paulo Henrique é de uma ousadia impressionante. Está sempre na vanguarda”, afirma o imão João Cláudio Pentagna Guimarães, responsável pelo braço automotivo. “Ele é um trabalhador incansável, por isso transformou uma pequena financeira num grande banco.” diz a filha, Juliana Pentanga Guimarães. “Essa empresa é resultado de sua paixão”. Traduzindo para a linguagem do futebol, Juliana quis dizer sobre o pai: o banco foi seu verdadeiro gol de placa.
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