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| Marcelo Fiúza |


Programas ao vivo, ­improviso e muita vontade de acertar. Nossa TV é o que é, graças a esses heróis da comunicação


Os inventores da tv mineira

* Cláudio Cunha
Dulce de Melo Rosa, Elvécio Guimarães e Clausy Soares: talento lapidado na época em que não havia replay

Webcam, mini-DV, celulares que captam imagens, gravadores de todo tipo. Hoje, qualquer um pode ter uma  câmera e fazer seu próprio programa audiovisual. Depois da internet e do Youtube, é possível também difundir a obra para todo o mundo. Mas, curiosamente, é pela falta de registro que as gerações atuais talvez não percebam que essa cultura televisiva foi precedida por uma época de muito pioneirismo. Até a chegada do videoteipe, nos anos 60, tudo era feito ao vivo e na base do improviso. Exa­ta­mente por falta de documentação es­tá se perdendo a aventura desses artistas e técnicos que participaram da che­gada da TV em Minas. Uma história que come­çou por aqui no dia 8 de novembro de 1955, com a inauguração da TV Itacolomi, dos Diários As­sociados, e que ficou no ar até 1980.

Testemunha da cena e dona de memória prodigiosa, Elvira Bracher, também conhecida pelo nome artístico de Lea Delba, conta que foi um pe­ríodo de muito experimentalismo. “Costumo brincar que a parte artística da TV Itacolomi eu joguei nas minhas costas e segurei”, diz a artista que escrevia, entrevistava, re­presentava, cantava e ainda di­rigia o elenco das garotas-propaganda. “Era mais difícil porque produzíamos ao vivo. Nós aprendemos fazendo. Eu trabalhava de 12 a 16 horas por dia”, revela Elvira, que nas celebrações do cinquentenário da TV em Minas Gerais recebeu uma placa com as inscrições de “A mais antiga funcionária” do grupo editorial e, hoje, aos 91 anos de idade, ainda es­tá no quadro de pessoal. Ela se lembra de tempos românticos, em que fi­gurar na telinha significava virar celebridade na sociedade local. “Em todas as vitrines das grandes lojas havia a­pa­relhos de televisão. Minha fa­mília ficou encantada quando co­mecei a a­parecer. Aos poucos fiquei tão conhecida que, ao me movimentar pela cidade, tinha de andar pelo meio da rua e não na calçada, de tanto que me paravam para dar ideias, elogios, para­béns e conselhos”, diz.

* Arquivo pessoal
Clausy Soares causou comoção pública ao deixar a TV Itacolomi, em 1962, para se casar com o diretor Antônio Bertholdo

Fã de Elvira Bracher, Clausy Soares, 69 anos, foi outra artista que fez muito sucesso na TV mineira nos anos 50. “É uma pena a gente não ter isso escrito com detalhes. Todos nós  temos depoimentos, mas não há imagens. Nós tivemos uma turma que foi realmente pioneira, mas hoje a maioria já está no andar de cima”, diz a apresentadora – e fada – do infantil Reino do faz-de-conta. Clausy, que também começou a carreira artística no rádio e esteve no ar na TV Ita­co­lomi entre 1955 e 1962, se lembra da comoção pública que causou sua saída da cena artística, ao se casar com o diretor Antônio Ber­tholdo Neto no fim daquele ano. “Meu casamento foi televisionado para Minas Gerais. Levaram as câmaras para a igreja de São José, lotada. Meus convidados vieram do interior e tiveram de assistir pela tevê, na casa de parentes. Clausy tem saudades da experiência na Itacolomi. “É inegável que a tecnologia hoje é algo deslumbrante, mas não há como comparar. Costumo fa­lar que no nosso tempo era uma TV artesanal, tudo era inventado, feito a mão pelos operadores de câmera e cenógrafos. Para eu começar o programa saindo de dentro de uma estrela, os câmeras colavam uma máscara de estrela na lente da câmera. Para fazer propaganda de uma loja de discos, me focalizavam de dentro do buraco do vinil. O que me marcou na Itacolomi foi a descoberta de que na vida tudo é possível. Como nós não sabíamos co­mo era a TV, fizemos uma com nosso estilo próprio”, diz.
* Arquivo pessoal
Elvécio Guimarães no palco, segundo ele, a maior escola

Quem também testemunhou o surgimento da TV em Minas Gerais foi Elvécio Guimarães, ator até hoje4  na ativa e em horário nobre na emissora líder de audiência. “De vez em quando faço umas pontas na Globo. Em Caminho das Índias, numa cena do noivado do mocinho, fui figurante, com duas falas. Estar no ar hoje é algo fantástico!”, brinca o artista, de 75 anos de idade, e que já era veterano quando as primeiras imagens foram veiculadas no estado. A vontade de ser radioator surgiu na infância e, na adolescência, seu vozeirão já chegava às casas dos mineiros. “Quando descobri que a Incon­fi­dên­cia tinha radioteatro, fiz um teste, passei e fui ser radioator. Maravilha, melhor que passar no vestibular”, diz Elvécio, que logo foi fazer sucesso no Rio de Janeiro. “Olha o cabotinismo! BH ficou pequena para mim e acabei sendo contratado pela Rádio Mayrink Veiga. Mas sempre fui muito mineiro e quando houve um convite para estrear a TV em Minas Gerais, voltei para cá”. O artista atuou na emissora mineira até 1962, quando novamente partiu para o Rio, para trabalhar na TV Conti­nental. “Naquele tempo os grandes atores para a televisão vinham do rádio. Nós conseguíamos dar naturalidade à conversa”. Ator também consagrado no teatro, Elvécio se diz tributário da experiência na TV mineira. “A Itacolomi significou uma escola de teatro da maior qualidade. O rádio me deu base im­por­tantíssima para a inflexão da voz, que traduz de forma fidedigna a intenção da personagem. Mas a TV foi a grande escola do corpo”, diz o ator, para quem parte do charme do ofício televisivo se perdeu com o avanço da tecnologia. “TV ao vivo acabar é uma maldade danada, foi para o ar, não há mais o que fazer. Hoje dá raiva do tal do videotape, porque os meninos se dão ao direito de errar, acham que podem tudo, e não podem”, ensina.
* Cláudio Cunha
Colegas da TV Itacolomi, Elvira Bracher e Carlos Fabiano Braga relembram os tempos de programas ao vivo e improviso

Outra artista que também marcou época foi no cenário televisivo mineiro foi Dulce de Melo Rosa, inicialmente na Itacolomi, como Dulce Maria, e, anos mais tarde, na Globo e na Alte­rosa, como Tia Dulce. Em 1955 essa ex-babá, vendedora e arrumadeira que trabalhava no estado de dia e era bi­lheteira de cinema à noite, nem se­quer havia visto televisão quando foi con­vidada para participar de um teste de publicidade na nova mídia. “Eram pou­­cos aparelhos em Minas, só os via pe­la janela do ônibus nas4 vitrines. Fiz o teste sem nunca  ter visto TV”, diz, com a espontaneidade de quem aprendeu fazendo. Ela se lembra, rindo, de sua estreia na I­tacolomi. “O diretor só explicou que eu poderia co­meçar quando a luz da câmera acendesse. Minha primeira ce­na foi eu perguntando ‘posso falar?’. Não acreditei quando me disseram que a­quela luz piscando ia passar por um fio e chegar à casa das pessoas. Pensei que era gozação.”
* Cláudio Cunha
Premiada em seus 50 anos de carreira, Wilma Henriques atualmente capta recursos para montagem teatral

 Inicialmente anunciando produtos domésticos, Dulce lo­go mostrou tino para lidar com crianças. Assumiu o co­man­do do Bando dos Ca­riúnas, com meninos cantores, entre eles Nelson Ned. Sempre voltada ao público infantil, apresentou na Globo, entre 1968 e 1972, o Uni-Duni-Tê. Em 1980 retornou como Tia Dulce no Clu­binho, da TV Alterosa, onde permaneceu até 1989. “Sou muito simplista e as coisas muito grandiosas me assustam. Se eu soubesse que a TV era isso tudo, talvez não entrasse nessa. A Ita­colomi, com seu pioneirismo, foi um verdadeiro laboratório. Pena que não tenho imagens daquela época”, lamenta-se Dulce, que atualmente é assessora parlamentar na As­sembleia Le­gis­­la­ti­va. Quan­to ao registro de sua história, Dul­ce acalenta dois projetos. “Pre­ten­do editar um DVD com os melhores momentos da Tia Dulce e estou escrevendo uma autobiografia”, garante.

Contemporânea de Dulce, Clausy, Elvira e Elvécio, com quem contracenou com mais frequência, Wilma Hen­riques estreou artisticamente na TV Ita­co­lo­mi. Mas chegou um pouco mais tarde que os colegas, em 1959, e por isso comemora agora os 50 anos de carreira como atriz. “Entrei produzindo um programa feminino chamado Espe­lho, para uma agência de propaganda. Foi um desafio muito grande, nunca tinha entrado num estúdio”, recorda-se. Wilma era bem jovem quan­do en­trou para a emissora, onde permaneceu até 1962. A seguir, passou pela TV Alterosa, onde apresentou o programa de entrevistas O assunto é mulher e anunciou comerciais ao vi­vo. Tra­balhou ainda na TV Belo Ho­ri­zonte (hoje Globo Minas). “Nossa TV era con­siderada a melhor do Bra­sil, tanto tec­nicamente como ar­tisti­ca­men­te”, or­gu­lha-se ela, que paralelamente à atuação televisiva, descobriu o sabor dos palcos. Cu­riosamente, es­treou com a peça Pig­malião substituindo a machu­cada Lea Delba (is­so mesmo, Elvira Bracher, a própria!). No teatro consagrou-se: nos últimos meses, Wilma recebeu a Me­dalha da Inconfidência, do governo estadual, e o Grande Colar do Mérito Legislativo Municipal, da Câmara dos Vereadores pelos 50 anos de carreira.
* Arquivo pessoal
Peças encenadas no estúdio eram transmitidas ao vivo

Infelizmente para as novas gerações só sobraram fotografias daquela época, recurso que o engenheiro Car­los Fabiano Braga encontrou para a­presentar sua própria versão do que foi a emissora mineira no livro TV Itacolomi – Uma crônica – 100 Fotos, lançado em outubro passado pela Bi­blioteca 24x7. Uma história que começou antes da inauguração oficial, em setembro de 1955. Na época, ele tinha 15 anos, era auxiliar de portaria no edifício Acaiaca, sede da emissora e logo tornou-se um faz-tudo na TV. A primeira geração de sinal, garante ele, foi uma imagem do relógio da igreja de São José. “A pedra fundamental do que eu sou hoje surgiu naquele mo­mento com a TV Itacolomi", conclui. Bons tempos aqueles!


Agradecimentos: Gdoc, Dep. Técnico Dirat da TV Alterosa
e Dep. Fotográfico da Fundação Clóvis Salgado

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