| Carolina Godoi |
Presente de pai

Um pai resolve abdicar da carreira no auge do sucesso para poder ter tempo de convivência com seus filhos gêmeos. Um ano e meio depois da mudança, uma tragédia dá outra reviravolta na vida da família: morre a mãe dos meninos. Outro pai, muito jovem, se depara com a gravidez imprevista da namorada, e se desdobra ao assumir sozinho trigêmeos. Outro busca com todas as forças realizar o desejo de ser pai depois que descobre a infertilidade, e ao conseguir, coloca as filhas em primeiro lugar no cotidiano superatarefado. Por fim, um pai divide com a mãe todos os cuidados, afazeres e responsabilidades da filha recém-nascida, readaptando a vida noturna que a profissão exige.
Histórias muito diferentes, mas em comum o fato de serem pais que desejam dar novo sentido a palavra PAI. Para isso, estão mudando a forma de lidar com a profissão. O que eles querem? Ser cúmplices da criação e desenvolvimento dos filhos.
“Ninguém acolhia o mundo da criança; ela não era vista como ser de desejos e pulsões, compreendida como alguém que tem vida emocional própria. Quando os pais enxergaram isso, começaram a mudar os cuidados dedicados a ela, passando a inseri-la em todo o contexto familiar”, explica Maria Mazzarello Cotta Ribeiro, psicanalista, ex-presidente do Círculo Brasileiro de Psicanálise.
Esse processo de mudança marcou a vida de Casildo Quintino dos Santos Neto, 49 anos, hoje com quatro filhos e uma netinha que acaba de entrar para o clã. O filho mais velho, Teófilo Bueno Quintino dos Santos, 18 anos, mal conviveu com o pai durante a infância. A dedicação extrema ao trabalho o fez distanciar do filho pequeno e acabou por ser a responsável pelo término da relação com a mãe de Teófilo. Casildo começou a trabalhar aos 12 anos de idade; aos 18 começava marcante atuação no mercado de capitais no Banco Bozzano Simonsen e tinha sede de vencer. Na época da separação, se mudou para São Paulo – onde trabalhou como executivo – fazendo estudos de viabilidade para a Encol. Em seguida foi convidado para ser diretor comercial da Andrade Gutierrez, onde ficou por 10 anos. “Realmente eu tinha as mais diferentes missões nacionais e internacionais, o que me impediu de ter uma participação efetiva na vida do meu filho e da minha filha (Luísa, de 14 anos)”, relembra.

Apesar da saudade, sentia que o que estava fazendo era necessário para poder oferecer aos filhos a situação de vida que sempre sonhou. “Não importava se eu ganhava prêmio, bônus, aumento de salário. Continuava minha busca, pois isso significava boas viagens, bons clubes, boas roupas, boa escola e padrão de vida de conforto. Ter – naquele momento – significava mais do que ser”, diz.
Até que, no final de 2006, o engenheiro mineiro e sócio de um dos maiores grupos empresariais do país, Roberto Gutierrez, 52 anos, morreu subitamente. “Foi o Roberto quem me levou para a empresa”, diz Casildo. “Fiquei muito abalado com a morte dele”.
A perda do amigo alarmou Casildo. “Tudo isso vale a pena? Estresse em longas horas de trabalho, correr riscos em viagens intermináveis, finais de semana interrompidos e não conviver em família?”. A resposta foi não. Casildo largou tudo e disse não a convites antes tidos como irrecusáveis. Os maiores incentivos para que fizesse tal escolha eram os gêmeos João Paulo e Maria Eduarda, então com 4 anos: “Queria ser para eles, o pai que não fui para os mais velhos.”
Na época, ele morava em Salvador, resolveu montar um escritório em casa e se tornou consultor. “Eu ficava o tempo todo com os meninos, a não ser quando era necessária uma visita a algum cliente. Minha mulher me deu todo o apoio, mesmo sabendo que isso significaria uma série de restrições. Tivemos de dizer adeus ao triplex em frente ao mar e voltar para Belo Horizonte, onde o custo de vida seria menor”, conta.
Na última década, os profissionais começaram a abrir mão de posições de trabalho que os afastaria muito da sua cidade e começaram a mudar hábitos sociais, a delegar funções no trabalho e principalmente, 4 tentar controlar a quantidade de horas extras longe de casa. Milton de Oliveira, psicólogo e consultor empresarial, avalia que está havendo nas empresas muitos debates sobre a importância, do ponto de vista empresarial, de que o homem seja bem sucedido no meio familiar. “A pessoa que está infeliz com sua participação na família não consegue ser totalmente dedicada ao trabalho. Quem diz que não leva problema de casa para o trabalho é ingênuo, pois a tensão fica no corpo, podendo gerar mecanismos de compensação perigosos, como alcoolismo, depressão e dependência de drogas”, comenta.

O problema parecia resolvido para Casildo, que dividia com a esposa, Silmara Savala, as responsabilidades com a casa e com os filhos – hoje com 5 anos de idade – paralelamente ao novo trabalho, bem mais tranquilo. Entretanto, no ano passado, a esposa sentiu dor nas costas, teve desmaio, melhorou e subitamente falaceu após parada cárdio-respiratória. O motivo até hoje é um mistério. A vida de Casildo desmoronou (durante esta entrevista, ele se emocionou várias vezes ao lembrar de sua mulher); a perda transformaria ainda mais o pai que queria ser mais presente.
Depois do impacto inicial, Casildo decidiu parar totalmente o trabalho para se dedicar aos filhos, mesmo sabendo que a família da mãe, ou a dele, assumiria os cuidados em seu lugar. A decisão implicaria viver das rendas de uma previdência privada e diminuir em 40% o orçamento da casa. “Passei a fazer tudo: levar à escola, à praça, trocar a roupa, ir ao médico, fazer supermercado, planejar a semana com a empregada, servir o café da manhã para eles. É uma prova de fogo, mas o maior desafio é o emocional, lidar com a falta dela (chora), mas a morte veio me dizer que a minha opção já estava correta: a vida é absolutamente efêmera e nada justifica perder a convivência com meus filhos. “Ter um Rolex e vestir Hermenegildo Zegna ou um Armani?! Não quero mais nada disso. Prefiro coisas modestas e ter a vida que tenho hoje”.
Os adultos de amanhã devem sair ganhando com essa nova postura dos pais. De acordo com a psicanalista Maria Mazzarello, a criança que vivencia a função da mãe e do pai com equilíbrio vai ter mais chances de se resolver na vida, com relação à internalização das leis sociais e da ética, suportando melhor os limites. Se a posição diante do limite que a vida impõe não é estável, fica-se sujeito a tentar preencher essa angústia de qualquer maneira. É como se qualquer coisa diferente do ideal de felicidade fosse devastação interna insuportável. “Quando a pessoa acha que a vida tem que ser assim, sofre muito. A felicidade não existe dessa forma”, explica.

Quando a paternidade é uma surpresa, não é planejada e nem desejada corre-se o risco de o homem ser mais ausente. No caso de Hugo Barbosa Chaves, aconteceu o oposto: aos 16 anos engravidou a namorada, que pouco conhecia. Resolveu assumir o filho, mas levou um susto quando descobriu que eram trigêmeos: Otávio, Alexandre e Victor, atualmente com 11 anos. Depois que as crianças nasceram, novo desafio: a mãe as entregou a Hugo, que teve de criá-las sozinho. Aos 19 se mudou da casa dos pais com os filhos, abdicando do estudo e da vida social para cuidar dos meninos. A mãe só os via em visitas quinzenais. Aos 20 anos, Hugo se casou e teve mais dois filhos. A ex-esposa é empresária e viaja muito, por isso os dois mais novos, mesmo morando com a mãe, têm convivência muito próxima do pai e dos irmãos. Hugo nunca deixou de trabalhar, mas só agora, aos 27 anos, está conseguindo se formar em Gestão Ambiental e atuar numa grande empresa. “Abdiquei da minha juventude, e da carreira, para cuidar dos meninos. Minha ligação com eles é inexplicável”, diz.
Lidar com os filhos sendo tão jovem não impediu que Hugo pudesse instaurar a disciplina e passar os valores corretos a eles. A psicanalista Maria Mazzarello alerta que os pais precisam buscar a temperança. Não devem se portar como aquele que possui a verdade absoluta ou ter um rigor tirânico, para dar conta da função a qualquer preço. “Assim ele pode perder o lado humano. O laço de amor que vai sustentar a união dessas pessoas é a intimidade conquistada quando o pai se mostra como ser humano, com suas falhas, dúvidas e feridas”, analisa.
“A mãe ama incondicionalmente; é um amor visceral. O pai vai conquistando o amor do filho e o filho conquistando o amor do pai”, completa Mazzarello. Assim, Alexandre Gribel, 43 anos, sócio de uma das maiores corretoras do país, a Gribel Pactual, define aquilo que diz ter sido seu maior sonho: ser pai. Algo para ele muito difícil de ser alcançado, quando descobriu sua infertilidade. Os médicos diziam que tinha apenas 2% de chance de ser pai naturalmente. Foram 10 anos de tentativas até que partisse para a fertilização in vitro. Depois de grande sacrifício emocional e financeiro (vendeu um carro para custear as duas primeiras tentativas frustradas), a esposa Vera Grossi engravidou de gêmeos. “Mas como nada nas nossas vidas foi fácil, ela teve um sangramento e perdemos um dos bebês. Por pouco o fim da gravidez não foi prematuro, e por isso ela teve que ficar de repouso total nos últimos três meses”, relembra. O esforço valeu a pena. Veio a linda Ana Júlia, hoje com 5 anos.
Gribel demonstra foco, determinação e diz que nenhum obstáculo o impediria de conquistar o que mais queria. Dois anos depois resolveram tentar outro tratamento para dar um irmão ou uma irmã a Ana Júlia. Novamente a fertilização deu errado e o limite de idade (Vera já tinha 40 anos) os impediu de tentar outra vez. Três meses depois, a surpresa: Gribel adivinhou que a esposa estava grávida, desta vez por meio natural. Incrédula, Vera só entendeu a reação premonitória do marido depois que estava com o resultado positivo em mãos. Era a vez de Maria Clara vir ao mundo.

Depois de tanto querer, o pai tinha que exercer bem seu papel, e mesmo liderando a maior intermediadora de imóveis de Minas Gerais ele abre mão de qualquer compromisso para estar com as meninas. “Almoço com elas todos os dias, paro qualquer reunião para levá-las à escola e quando viajo a trabalho faço tudo para não dormir fora. Todas as minhas atividades de lazer e esporte faço às 5h30 da manhã, enquanto elas dormem. Além disso participo de tudo que faz parte da vida delas. Era eu quem levava Ana Júlia à aula de música. Engatinhava, rolava no chão e cantava de terno e gravata, pois interrompia o trabalho para estar lá. Acho que isso foi muito importante na nossa aproximação”.
A participação dos pais na vida escolar dos filhos também vem mudando nos últimos dez anos. Segundo Meire Muzzi Carvalho, pedagoga do Colégio Neusa Rocha, com 30 anos de experiência com crianças de 7 a 11 anos, o homem está assumindo mais o papel de educador por vontade e não só porque a mulher não pode. O casal vai junto às reuniões, divide tarefas de casa e troca cada vez mais experiências4 com os professores e diretores. “Dá para perceber que quando o pai é aliado da mãe e os dois estão procurando entender as questões da vida do filho, a criança fica mais segura. É positivo tanto para a socialização quanto para a aprendizagem. Quando isso é consolidado na infância, mesmo que na adolescência venha a fase de se opor, o filho continuará a ter o pai como parceiro”, conclui.
Gribel acha que o fato de ser tão ligado às filhas não aconteceu simplesmente por ter sido difícil para ele conseguir ser pai. “Acho que foram duas coisas, uma delas é minha criação; sempre fui muito ligado aos meus pais e trago isso comigo. Outra é que perdi minha mãe com apenas 19 anos, quando comecei a entender as preocupações dela como mãe. Passei pouco tempo da minha vida com ela e não quero me arrepender do que deixei de fazer com e pelas minhas filhas”.
O que importa nessa relação é exercer bem a função paterna, que é a da socialização, ou seja, é o pai quem abre o mundo para a criança. “No momento em que o pai exerce atividades antes exclusivamente femininas, abre um veículo muito grande com os filhos; é nesse momento que vão aproveitar para conversas profundas. Não importa tanto a quantidade de tempo, mas o que se faz junto, com a intenção de acolhê-lo. Que ele possa dizer não à criança, mas também dizer sim”, diz Mazzarello.
É nisso que acredita Allyson Lessa, 29 anos, empresário e sócio de restaurantes, que acaba de ser pai de uma menina, Layla. Ele troca fraldas, dá banho e acompanha as visitas ao pediatra. Por isso, a rotina de trabalho, que incluía varar madrugadas inteiras, teve de mudar. “Separei minhas manhãs para me dedicar integralmente a minha filha”, diz. Além disso, jura que chega mais cedo para ficar com ela. Como é dono do próprio negócio, pode fazer seu horário. O que não significa que trabalhe pouco, pelo contrário. “Continuo querendo crescer meus negócios, assim como a família. Eu não posso atrapalhar meu projeto empresarial, mas posso ajustá-lo às necessidades de minha família”, diz. Layla ainda não fala, mas já agradece.
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