| Beth Leite |
Revolução feminina nº 2

A ciência e as modernas tecnologias estão provocando mudanças de comportamento das mulheres diante da maternidade. Afinal, há 30 anos quem poderia imaginar que óvulos e embriões seriam congelados e guardados por tempo indeterminado? Algumas mulheres desejam engravidar, mas seus parceiros têm alguma disfunção biológica, ou elas têm algum problema. Há aquelas que querem ter filhos já com a carreira estabilizada, quando encontrarem o parceiro ideal ou depois de aproveitar o casamento. Porém, elas precisam driblar a natureza implacável que, por volta dos 35 anos, começa gradativamente a diminuir a fertilidade feminina.
Em determinada idade, a mulher tem que refletir sobre quantos filhos quer ter, se faz questão que eles sejam de seus próprios óvulos, e isso requer planejamento. “Ela nasce com um a dois milhões de óvulos. Quando menstrua pela primeira vez, tem 400 mil e a partir daí perde mil óvulos a cada menstruação”, explica o médico Bruno Scheffer, diretor clínico do Instituto Brasileiro de Reprodução Assistida (Ibrra), em Belo Horizonte. Segundo ele, por volta dos 30 anos, as mulheres que pretendem gerar mais de um filho já têm que começar a pensar no assunto. “É muito comum a mulher ter o primeiro filho tardiamente e não conseguir engravidar naturalmente pela segunda vez. Se o casal opta por esperar, é importante que tenha conhecimento das possibilidades e das consequências que pode enfrentar”.
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Congelar os óvulos quando ainda se é jovem e mantê-los até que se sinta pronta para uma gravidez, é uma possibilidade que tem atraído a mulher moderna. “Nesse caso, o gameta feminino é coletado e congelado para utilização posterior. No momento em que ela decidir engravidar, inicia-se a preparação endometrial (do útero) seguida do descongelamento do gameta feminino e a fecundação com os espermatozóides do parceiro”, explica o médico Juliano Scheffer, diretor científico do Ibrra. Essa técnica permite ainda que mulheres que vão se submeter a tratamentos que danificam os óvulos, como quimioterapia ou radioterapia, conservem seus próprios gametas. Segundo Bruno Scheffer, a grande vantagem da vitrificação “é a alta velocidade de congelamento, 11 minutos, o que impede a formação de cristais de gelo e a injúria celular, trazendo resultados concretos: 97% dos óvulos sobrevivem ao descongelamento e a taxa de gestação é de 40 a 41%”.
Como a personagem Rute na novela Caminho das Índias, a enfermeira Eliana Fonseca, 29 anos, está radiante. Há dois meses e meio teve uma ótima notícia: está grávida de gêmeos. Ela sempre desejou ter filhos, mas está solteira e sem nenhuma pretensão de se casar. “Comecei a pensar no assunto no ano passado, quando percebi que a idade estava chegando. Não queria ficar com alguém só por uma noite e engravidar. Pensei em recorrer ao banco de sêmen, mas não queria um doador e sim uma referência de pai. Alguém presente e envolvido com a criança”. Eliana comentou com os amigos sobre sua decisão até que conseguiu um candidato. “Ele também é solteiro e não pretende se casar. Nós nos tornamos amigos e estamos felizes com a nossa opção”, comemora.
Andressa Borges Fidelis, 30 anos, professora, e o marido, Fernando de Oliveira Fidelis, 42, optaram pelo processo de vitrificação depois de algumas tentativas frustradas de engravidar. Hoje, são pais de Ana Clara, com 2 anos e 4 meses, e de Lucas, de 2 meses. “Desejávamos muito ter filhos, mas após alguns exames descobrimos que meu marido tinha baixa motilidade do espermatozóide e por causa disso seria difícil engravidar naturalmente. Foi quando optamos pela técnica”, lembra. A primeira tentativa falhou. No quinto mês de gravidez ela perdeu os trigêmeos. Na segunda, nova perda. Na terceira, nasceu Ana Clara e, como havia embriões congelados, no ano passado veio Lucas.
A vitrificação de blastocistos (embrião no estágio de quinto ao sexto dia de cultivo) é feita exclusivamente na Pró-Criar, em Belo Horizonte. “Nossa meta era alcançar taxas de gravidez iguais às encontradas com a utilização de embriões a fresco. A diferença dessa técnica é que os casais que optam por ela não precisam passar por todo o processo de estimulação de óvulos com medicamentos injetáveis e sua retirada cirúrgica. Nesse procedimento os embriões já estão produzidos e basta uma sincronização do período fértil da paciente para descongelar e transferir os embriões”, explica João Pedro Junqueira Caetano. O médico diz que esse procedimento oferece maior taxa de gravidez. “No protocolo antigo, a taxa de sucesso girava em torno de 20%. Com o novo, pode chegar a 60% Essa é a segunda revolução feminina. Já é possível postergar a maternidade e parar o relógio biológico da fertilidade”, sentencia.
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