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Saúde

| Beth Leite |


Técnicas de vitrificação de óvulos que param o relógio biológico da fertilidade têm entre 40 e 60% de sucesso


Revolução feminina nº 2

* Cláudio Cunha
Andressa Fidelis, o marido Fernando e os filhos Ana Clara e Lucas, que nasceram graças ao congelamento de óvulos e à fertilização in vitro

A ciência e as modernas tecnologias estão provocando mudanças de comportamento das mulheres diante da maternidade. Afinal, há 30 anos quem poderia imaginar que óvulos e embriões seriam con­gelados e guardados por tempo indeterminado? Al­gumas mulheres de­sejam engravidar, mas seus parceiros têm alguma disfunção biológica, ou elas têm algum problema. Há aquelas que querem ter filhos já com a carreira estabilizada,  quando encontrarem o parceiro ideal ou depois de aproveitar o casamento. Porém, elas precisam driblar a natureza implacável que, por volta dos 35 a­nos, começa gradativamente a diminuir a fertilidade feminina.
 
Em determinada idade, a mulher tem que refletir sobre quantos filhos quer ter, se faz questão que eles sejam de seus próprios óvulos, e isso requer planejamento. “Ela nasce com um a dois milhões de óvulos. Quando mens­trua pela primeira vez, tem 400 mil e a partir daí perde mil óvulos a cada menstruação”, explica o médico Bruno Scheffer, diretor clínico do Instituto Brasileiro de Reprodução As­sistida (Ibrra), em Belo Horizonte. Se­gundo ele, por volta dos 30 anos, as mulheres que pretendem gerar mais de um filho já têm que começar a pensar no assunto. “É mui­to comum a mu­lher ter o primeiro filho tardiamen­te e não conseguir en­gra­vidar na­turalmente pela segunda vez. Se o casal opta por esperar, é importante que tenha co­nhe­ci­mento das possibilidades e das consequênci­as que pode en­­fren­tar”.

O Brasil tem 120 centros de reprodução assistida que geram R$ 300 milhões anuais
 
Os tratamentos ficam em torno de R$ 12 a R$ 15 mil por pessoa

* Divulgaçao
O médico João Pedro Caetano: técnica nova a favor da mulher

Congelar os óvulos quando ainda se é jo­vem e mantê-los até que se sinta pronta para uma gravidez, é uma possibilidade que tem atraído a mulher mo­derna. “Nesse caso, o gameta feminino é coletado e congelado para utilização posterior. No momento em que ela decidir engravidar, inicia-se a preparação endometrial (do útero) seguida do descongelamento do ga­meta feminino e a fecundação com os es­permatozóides do parceiro”, explica o médico Juliano Scheffer, diretor científico do Ibrra. Essa técnica permite ainda que mu­lheres que vão se submeter a tratamentos que danificam os óvulos, como quimioterapia ou radioterapia, con­servem seus próprios gametas. Segundo Bruno Scheffer, a grande vantagem da vitrificação “é a alta velocidade de congelamento, 11 minutos, o que impede a formação de cristais de gelo e a injúria celular, trazendo resultados concretos: 97% dos óvulos sobrevivem ao descongelamento e a taxa de gestação é de 40 a 41%”.
 
Como a personagem Rute na novela Caminho das Índias, a en­fermeira Eliana Fonseca, 29 anos, está ra­­diante. Há dois meses e meio teve uma ótima notícia: está grávida de gê­meos. Ela sempre desejou ter filhos, mas está solteira e sem nenhuma pretensão de se casar. “Comecei a pensar no as­sun­to no ano passado, quando percebi que a idade estava chegando. Não queria ficar com alguém só por uma noite e engravidar. Pen­sei em re­­correr ao banco de sêmen, mas não queria um doador e sim uma referência de pai. Alguém presente e envolvido com a criança”. Eliana comentou com os amigos sobre sua decisão até que conseguiu um candidato. “Ele também é solteiro e não pretende se casar. Nós nos tornamos amigos e estamos felizes com a nossa opção”, co­memora.

Andressa Borges Fi­delis, 30 anos, pro­fesso­ra, e o ma­rido, Fer­nando de Oli­veira Fi­de­­lis, 42, optaram pelo pro­ces­so de vitrificação de­pois de algumas ten­­tativas frustra­das de en­gra­vi­dar. Hoje, são pais de Ana Clara, com 2 anos e 4 meses, e de Lucas, de 2 meses. “De­sejávamos mui­to ter fi­lhos, mas após alguns e­xames descobrimos que meu marido tinha bai­xa motilidade do es­per­ma­tozóide e por cau­sa dis­so seria difícil en­gravidar naturalmente. Foi quando optamos pe­la técnica”, lem­bra. A primeira tentativa fa­lhou. No quinto mês de gravidez ela perdeu os trigêmeos. Na segunda, nova perda. Na terceira, nasceu Ana Clara e, como havia embriões congelados, no ano passado veio Lucas.

 A vitrificação de blastocistos (em­brião no estágio de quinto ao sexto dia de cultivo) é feita exclusivamente na Pró-Criar, em Belo Ho­ri­zonte. “Nossa meta era alcançar taxas de gravidez iguais às encontradas com a utilização de em­briões a fresco. A diferença des­sa técnica é que os casais que op­tam por ela não precisam passar por todo o processo de estimulação de óvulos com medicamentos in­jetáveis e sua retirada cirúrgica. Nesse procedimento os embriões já estão produzidos e basta uma sincronização do pe­ríodo fértil da paciente para descongelar e transferir os embriões”, explica João Pedro Junqueira Cae­ta­no. O médico diz que esse procedimento o­ferece maior taxa de gravidez. “No protocolo antigo, a taxa de sucesso girava em tor­no de 20%. Com o novo, pode che­gar a 60%   Essa é a se­gunda revolução feminina. Já é possível postergar a maternidade e parar o relógio biológico da fertilidade”, sentencia.

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