| Eliza Peixoto |
Ataque silencioso

Em março de 2008, a auxiliar de enfermagem Joseane Fernandes Araújo, de 24 anos, que trabalha no setor de biópsias em uma clínica de Belo Horizonte, levou um grande susto quando, por curiosidade, pediu ao médico a quem auxilia, para examinar-lhe a tireoide. No exame, ele percebeu um pequeno nódulo. Ao ser feita a biopsia o resultado mostrou um tumor benigno e, ao mesmo tempo, uma variante de carcinoma papilar, um tipo de câncer da tireoide.
Josiane conta que ficou pensando “mil coisas”, principalmente na cirurgia que teria de fazer para a retirada do nódulo, no diagnóstico final e em como ficaria a cicatriz em seu pescoço. O diagnóstico foi de carcinoma papilar da tireoide, mas ela tinha fé em tudo que daria certo. Realmente tudo acabou bem. A cicatriz quase não aparece e, depois de fazer o tratamento com iodoterapia, Josiane passou a repor o hormônio tiroidiano, que seu organismo deixou de produzir com a retirada da tireoide. “Esse hormônio é agora meu companheiro para toda vida. Tenho também que fazer o acompanhamento médico, mas me sinto bem e feliz. A curiosidade de Josiane permitiu descobrir a doença no início, o que praticamente garantiu a cura completa. Este é um entre dezenas de casos atendidos anualmente pelo cirurgião de pescoço e cabeça do Hospital Life Center, Enaldo Lopes de Oliveira. Segundo ele, a doença é mais frequente entre as mulheres e tem quase 95% de chances de cura.
O cirurgião esclarece que o carcinoma ou câncer de tireoide é silencioso. Como não apresenta sintomas característicos, a pessoa convive anos com ele sem saber e normalmente é descoberto por acaso, como ocorreu com o professor de Nutrição Animal da Universidade Federal de Viçosa, em Minas Gerais, Juarez Lopes Donzele, 59 anos. Ele conviveu por anos com o nódulo, que às vezes aparecia quando engolia. Como não o incomodava ele não se preocupou. Ao fazer um check-up de rotina, após ter excelentes resultados em todos os exames, comentou com o médico sobre aquele nódulo.
Logo foi feita a biopsia, quando foi detectado o carcinoma que estava ali há cerca de 10 anos. Juarez diz que sentiu “um choque, mas por ter fé em Deus acreditei que tudo acabaria bem.” Logo depois, fez a cirurgia para a retirada da tireoide, começou o tratamento com iodo radioativo e passou a tomar hormônio. “Tive receio de não poder voltar a dar aulas, mas durante a cirurgia o médico foi habilidoso e hoje levo vida normal.”
Afeta em sua maioria adultos, especialmente mulheres e, raramente, crianças
4% a 7% da população adulta afetada apresenta a forma benígna da doença
1 em 20 pessoas com nódulos tem a possibilidade de ser diagnosticado como câncer e, desses, um número muito pequeno de tumores iria se desenvolver e representar risco para a vida do paciente

O cirurgião Enaldo Lopes explica que a tireoide fica na base do pescoço, sendo uma das mais importantes glândulas do organismo, pois regula a função de vários outros órgãos. “A tireoide funciona como uma bateria e pode ser afetada por alguns problemas, sendo três mais conhecidos (hipotiroidismo, hipertiroidismo e tumores). No hipotiroidismo é como se a bateria estivesse fraca, a produção de hormônio cai e pessoa fica para baixo, sente-se cansada, tem tendência a engordar. No hipertiroidismo é como se colocasse uma pilha a mais e a pessoa fica nervosa, tem dificuldades para conciliar o sono e emagrece.
Os tumores são assintomáticos e a grande maioria deles é benigna. No caso dos tumores malignos há três tipos. Os mais comuns e curáveis são os diferenciados (papilífero e folicular). Os não diferenciados (anaplásicos) são raros e agressivos, com mínima chance de cura, pois se desenvolvem e espalham-se rapidamente para outros órgãos. O medular, que é pouco comum, também tem reduzidas possibilidades de cura, porém longa sobrevida.
“O tratamento”, o médico explica, “é a remoção cirúrgica da tireoide e se o câncer é detectado logo no início, a cura é total na grande maioria dos casos e com baixos índices de complicações. É feito também a iodoterapia, em que o paciente ingere uma dose de iodo radioativo, para eliminar as células de tireóide que possam ter restado no corpo. Finalmente a pessoa terá de tomar o hormônio tiroidiano (T3 e T4) para sempre e fazer controle permanente com um endocrinologista.” De acordo com o especialista Enaldo Lopes, tem sido constatado aumento expressivo de pacientes com câncer na tireóide, sem uma explicação mais consistente. Ele argumenta que pode ser pela evolução dos equipamentos de diagnósticos, especialmente o ultrassom, que detectam os tumores rapidamente, o que não ocorria com os mais simples. Apesar de não haver uma relação de causa e efeito comprovada, há a possibilidade de que o aumento da exposição a fatores físicos e químicos (equipamentos eletrônicos, poluição, conservantes químicos e, agrotóxicos) contribuam para a doença.
Sobre as causas e como pode-se prevenir este tipo de câncer, ele esclarece que devem ser evitados o uso do cigarro, do álcool em demasia e principalmente a exposição excessiva à radioatividade. A vida saudável com alimentação adequada, a atividade física e o equilíbrio emocional são aliados contra todas as doenças, especialmente o câncer. Às pessoas que tem histórico familiar da doença o médico aconselha controle rotineiro. O importante, segundo Enaldo Lopes, é que não há motivo para pânico. A maioria dos nódulos, que existe em 4 a 7% da população adulta, é benigna, e apenas um em cada 20 casos com nódulos tem a possibilidade de ser diagnosticado como câncer e um número muito pequeno desses tumores iria se desenvolver e representar um risco para a vida. A remoção frequentemente é feita para a tranquilidade do paciente e pelo desconhecimento de como esses tumores irão evoluir.
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