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| Rafael Campos |


Catas Altas da Noruega, a 142 km de BH, tem na atmosfera religiosa e na bela paisagem atrativos para o turismo


Do céu, a imagem...

* Cláudio Cunha
Imagem original da santa que caiu intacta de um avião: para fiéis, um verdadeiro milagre

Entre o sol forte e a estrada de terra empoeirada, Alfredo Bandeira, de 75 anos, caminha com os passos de quem sabe aonde quer chegar. O suor no rosto é um sinal de que o percurso é cansativo, mas em nenhum momento ele fraqueja, continua seguindo rumo à comunidade de Jequitibá, onde há 60 anos uma imagem de Nossa Senhora das Graças caiu do céu. Esse fato, recheado de curiosidades e de muitas histórias a contar, é o que movimenta uma pequena e simpática cidade da região central do estado. Porém, o município de pouco mais de 3 mil habitantes guarda ainda muitas outras preciosidades, que aos poucos estão sendo desvendadas. Com vocês, Catas Altas da Noruega.

“Foi um milagre. Não acreditei. Desde aquele dia, devo tudo à nossa santa”, revela, emocionado, o artesão, pai de quatro filhos e avô de sete netos. Tudo aconteceu às 14h de 29 de julho de 1949. Um avião Curtiss Commander C-46 levantou voo no aeroporto Santos Dumont (RJ), com destino a Belém (PA). Porém, durante a viagem, uma pane no motor obrigou a tripulação a se desfazer das mercadorias que haviam sido encomendadas. Entre geladeiras, máquinas de escrever, medicamentos, roupas, sapatos e material cirúrgico, havia também três peças religiosas. Tudo foi sendo despejado, mas, apenas um objeto “sobreviveu” à queda: a imagem de Nossa Senhora das Graças. “O padre Luiz Gonzaga Pinheiro havia encomendado uma imagem da santa em Belo Horizonte, para os festejos do dia de São Gonçalo do Amarante, pa­droeiro da cidade, comemorado em 30 de julho”, explica Giovane Luiz Neiva, prefeito do município e historiador. Dias antes o padre recebeu a notícia de que a imagem não chegaria a tempo, pois o portador havia a esquecido, mas milagre ou não, a verdade é que ela chegou exatamente na véspera da festa.

* Cláudio Cunha
Alfredo Bandeira e a crença no milagre da imagem: “Devo tudo à Nossa Senhora das Graças”

E no fim de julho, pela primeira vez, os moradores conheceram o lugar exato onde a imagem caiu e foi encontrada por dois lavradores. Fica na zona rural de Jequitibá, a 12 quilômetros do centro de Catas Altas da No­ruega. Milhares de fieis, de carro, de moto, a pé e até a cavalo, enfrentaram uma estrada de terra, sob o sol forte, para assistir à missa e rezar por graças alcançadas, que segundo católicos do município, não foram poucas.
 
Mesmo para os mais céticos, é impossível pelo menos não se surpreender com as histórias contadas em torno de Nossa Senhora das Graças. A comerciante Nadir Moreira de Paiva, de 54 anos, simplesmente saiu ilesa de um incêndio no quarto, há 20 anos, onde dormia com três filhos. “Quando acordei, havia marcas de queimado ao redor da cama, mas não tivemos uma ferida sequer”. Na cama de casal, dormiam, além de Nadir, mais duas filhas, uma de 5 e outra de 7 anos. O terceiro filho, de 3 anos, dormia ao lado numa cama de solteiro. “Tinha uma vela acesa ao lado da minha cama. Ela tombou e o fogo foi para o colchão, que era de capim, e só parou na novena de nossa senhora. Quando acordei, o quarto estava com muita fumaça, com cinzas no chão e só”, relata.
* Cláudio Cunha
Dona Naná: eternamente grata aos milagres atribuídos à santa e ao padre Luiz Gonzaga

A professora Maria das Graças Resende dos Santos, de 46 anos, teve um furúnculo no braço esquerdo, quando tinha 9 anos. Sua mãe, Maria da Conceição, conhecida como Dona Naná, ajudava o padre Luiz Gonzaga nos trabalhos na igreja, e foi a ele que recorreu. “O padre pegou a imagem de nossa senhora e pediu a minha mãe4 que fizesse o pedido para minha cura”. Voltando para casa dona Naná, se­guindo as orientações do padre, preparou ainda uma folha de laranja com três grãos de arroz, colhidos no local da queda da santa. “Minha mãe passou a folha no meu braço e o furúnculo, imediatamente, estourou e cicatrizou dias depois. Não senti dor alguma”, conta.
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Padre Luiz Gonzaga Pinheiro: símbolo de fé e empreendedorismo

Pode-se dizer que há 60 anos Ca­tas Altas da Noruega respira Nossa Senhora das Graças. Tudo leva o nome da santa, lojas, centro de saúde, ruas, e claro, os próprios moradores. Nos dias que antecedem a data comemorativa, as casas e o comércio são enfeitados com bandeiras e faixas. A devoção se tornou tão grande que a santa se uniu a São Gonçalo de A­marante como padroeira da cidade. A solicitação foi feita há dez anos pelo padre José Eudes Campos, hoje da paróquia de Santa Efigênia, em Ouro Preto, a Dom Luciano Mendes, antigo arcebispo de Mariana, já falecido.
 
Atualmente, a imagem original da santa está na igreja de Nossa Senhora do Rosário (1765), de onde não sai por nada deste mundo. A Matriz de São Gonçalo do Amarante e de Nossa Senhora das Graças (1726) está sendo restaurada, com apoio, entre outras instituições, da própria comunidade.
* Cláudio Cunha
Fé e devoção pelas ruas e ladeiras do município: tradição preservada

Para um turista desavisado, a pequena cidade, localizada a 142 quilômetros de Belo Horizonte, pode soar como uma filial do nórdico país europeu. Mas conversando com qualquer morador, logo a ideia é em parte dissipada. “Catas Altas”, se refere ao processo primitivo de busca do ouro, e no século XVII, encontrar tais pedras preciosas não era tarefa complicada, principalmente, na Serra de Itaverava, onde o município está localizado. Já “Noruega” significa lugar onde bate pouco sol, de clima frio. E são essas as características de uma região que fica a cinco quilômetros do mu­nicípio. Dessa junção surgiu o nome da cidade, desmembrada de Con­se­lhei­ro Lafaiete e emancipada em 1962. A escolha do nome foi providencial, até porque era necessário distingui-la da cidade de Catas Altas, localizada a 174 quilômetros, também na região central do estado.
* Cláudio Cunha

Vivendo e respirando religião, o município quer crescer. A administração atual pretende explorar outros potenciais do território de 143,37 quilômetros quadrados. “Temos que transformar nosso município em atrativo turístico, temos o ciclo do ouro, o aspecto religioso e os casarões coloniais, que são importantes para a rica história do estado”, afirma o prefeito Giovane Neiva.
 
Recentemente, uma importante parceria com a Petrobras, por meio da Lei Federal de Incentivo à Cultura, foi fechada para modernizar o Museu e Arquivo Histórico de Catas Altas da Noruega. No lugar, além de contar a história da queda da imagem de Nossa Senhora das Graças, são preservadas verdadeiras relíquias, objetos que pertenceram ao padre Luiz Gonzaga Pinheiro, pároco da cidade por 46 anos. No museu, há também imagens e documentos históricos,  desde o ciclo do ouro até a emancipação da cidade.
* Cláudio Cunha
Pedra-sabão: fonte de renda para a família do artesão Antônio Teodoro, 78 anos

Lembrar do padre Luiz Gonzaga – que morreu em 1995 – é também entender o motivo do fato que aguça a curiosidade de fieis e turistas. A história da cidade se divide em dois capítulos, antes e depois de 1949, é­poca da queda da santa de um avião. Maria da Conceição, a do­­na Naná,  trabalhou4 com o pároco desde os 9 anos. “Devoto fervoroso de Nossa Se­nho­ra, ele chegou aqui e logo encomendou a imagem para  meu tio buscar em Belo Horizonte, mas ele se esqueceu. Nesse intervalo passou o avião e jogou a imagem para a gente”, conta. Segundo dona Naná, a briga foi grande entre o padre Luiz e o homem que havia encomendado a imagem em Belém (PA). “Depois do padre Luiz insistir, o rapaz cedeu e deixou a peça ficar na cidade”, diz.
   
Além da devoção, o padre Luiz tinha o espírito empreendedor. Foi por intermédio dele que a cidade construiu a primeira rede de água potável, pontes, estradas, escolas e capelas. A partir das iniciativas do pároco, o município passou a ter ainda energia elétrica, uma banda de música e até um time de futebol. “Ele fez milagres também. Sua água benta curava até câncer”, revela dona Naná emocionada, ao lembrar a cura da própria fi­lha, Maria das Graças, aos 9 anos.

De clima ameno, Catas Altas da Noruega não possui hotéis, mas existe o desejo da atual gestão de que as fazendas que cercam o município se transformem em pousadas, para receber visitantes em busca de sossego. João Lucas Mansur, de 27 anos, morava em Belo Horizonte, mas há dois anos optou pela tranquila vida ­catas-altense. “Aqui tenho qualidade de vida e bem menos violência”, avalia João, que possui uma fazenda onde cria muares.
 
Conhecer Catas Altas da No­ruega é também entender a importância da pedra-sabão. O município ao lado de Ouro Preto e Mariana é  im­portante polo de extração e exploração do mineral. Antônio Teodoro da Costa, de 78 anos, conhece muito bem a atividade, pois foi dela que tirou o sustento de seus oito filhos. “Criei minha família com a pedra sabão e tenho muito orgulho”.  Seu trabalho? Peças muito bem trabalhadas como panelas, va­sos, pe­quenos Cristos, entre ou­tros objetos.
 
Em parceira com algumas instituições de pesquisa, foi criado o Projeto Pedra Sabão que visa  melhorar a segurança dos artesãos. “Quase 90% da pedra que chega à oficina é pó. Há uma pesquisa para aproveitá-lo na agricultura”, afirma Evandro Car­rus­ca de Oliveira, geólogo e coordenador do projeto.

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