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Cultura

| Simone Dutra |


O Centro Técnico de Produção da Fundação Clóvis Salgado abre suas portas e mostra os bastidores do Palácio das Artes


Fábrica de sonhos

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Cenário grandioso e figurino requintado: pura magia no espetáculo Aïda

Tudo pronto para começar mais uma superprodução. A equipe, animada, manifesta ansiedade para mais u­ma temporada de trabalho. Poucos sa­­bem, mas antes de as cortinas se     a­bri­rem no Grande Teatro do Palácio das Artes, muitas etapas são cumpridas até a estreia. Na primeira reunião a i­deia surge ganhando dimensões e for­mas em anotações do roteirista, pa­ra que a interpretação do diretor, ce­nógrafos e cenotécnicos seja fielmen­­te reproduzida em cena. Tudo de­ci­di­do. Hora de colocar a mão na mas­sa e transformar o sonho em reali­da­de.
 
O tempo é curto, por isso cada gru­po dá o melhor de si: músicos, cantores ou maestros afinam os instrumen­tos, o elenco escalado ensaia para o grande dia; o figurino é confecciona­do; o cenário, montado pelos carpin­teiros, serralheiros e pintores; a ilu­­­minação, testada; maquiadores e aderecistas a postos. Ufa, quanta corre­ria! Mas é assim a rotina no Centro Téc­nico de Produção da Fundação Cló­vis Sal­gado: trabalho e dedicação pa­ra o espetáculo emocionar o público e ser aplaudido de pé.

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Além de espaço para criação de novos cenários, o centro técnico tem capacidade para preservar o acervo.

Desde 2003 a oficina de sonhos está localizada na antiga fábrica de tecidos da Com­pa­nhi­a Industrial Saba­ren­se, na Vila Operária de Mar­zagão, no município de Sabará, que fica a 15 minutos do centro de Belo Horizonte. Ocu­pa gal­pões com área aproximada de oito mil m2, e é gerenciado pelo Ins­ti­tu­to Cultural Sér­gio Mag­­­nani, por meio de par­ceria entre o governo do estado  e da Fun­da­ção Clóvis Sa­l­ga­do.
 
Hoje, o Centro Téc­nico tem condi­ções de preservar o­bras integrais, ce­nário, figurino e adereços, como das ópe­ras: Turandot, de Puccini, Aïda, de Ver­di, O Barbeiro de Sevilla, de Ros­sini, Pelléas et Mélisande, de Débussy, O Castelo do Barba-Azul, de Béla Bar­tok; espetáculos de dança como Entre o céu e a terra, Sonho de uma noite de ve­rão, Transtorna; e ainda algumas pe­ças de cenários do Centro de Formação Ar­tística (Cefar), como Pe­dro e o Lo­bo. Só no galpão onde fica o figurino, até 2006 foram catalogadas mais de cinco mil peças. Se­gundo a coordenadora de produção Cláudia Malta, isso não acontece sempre, porque o espaço é limitado, e para aproveitá-lo os cenários são transformados e usados em outros espetáculos. E brinca: “Cos­tu­mo dizer que aqui no CTP tudo se cri­a e tudo se transforma nada se per­de”.
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A estudante Adriele diz que aprendeu muita coisa no centro técnico, inclusive uma profissão

A equipe também é coordenada por Raul Belém Machado, que recentemente participou de um congresso na Argentina, e comprovou que o Cen­tro Técnico de Produção de Minas Ge­rais é o único da América Latina que detém dois títulos: de Centro de Tecnologia de Produção e Centro de Tecnologia de Es­pe­táculo. “Isso significa que além de cri­armos obras cenográficas, também for­mamos e capacitamos mão-de-obra para os processos de encenação. So­mos um centro técnico completo”, ga­rante o coordenador artístico.
 
De acordo com Raul Belém, no Brasil não existe outra escola com es­sa comprovação, de aulas dedicadas à cenotecnia, com segmento e estrutura cênica, como no CTP. “Existem faculdades de cenografia, mas não é curso técnico, portanto formam cenógrafos teóricos que não sabem construir a própria ideia”. Para ele, a cenotec­nia é que viabiliza e possibilita a construção da obra cenográfica. “O nos­so conceito é dar formas às nossas próprias ideias, elas são construídas a partir do nosso conhecimento organizado”.
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Cláudia Malta: “Fico emocionada quando as cortinas se abrem, pois me envolvo de corpo e alma com isto aqui”

Por isso o orgulho da coordenadora em dizer que, além do título, eles são responsáveis por gerar mais em­pre­go e aumentar a expectativa profis­sional de muitos jovens. “Con­ta­mos com a participação dos alunos do projeto Valores de Minas”, relata. O programa do Servas oferece o­ficina de teatro, circo, mú­sica, dança, artes plás­­ticas, além de aulas de história da arte, literatura, é­tica e cidada­nia. “Escolhemos os alu­­nos que mais se destacam na escola e­ trazemos para fa­zer par­te da nossa e­quipe, temporaria­mente, e ter uma for­mação. Cos­tu­mo brincar que so­mos a pós-gradua­ção do programa, por­que lá eles têm uma noção do que é o espetáculo, e aqui eles o realizam”.
   
Assim aconteceu com os estudantes Adriele Fernanda de Oliveira e Lu­cas Júlio, ambos de 18 anos. Adriele afirma que se sente fe­liz e bem amparada pelos profissionais competentes que a cercam no CTP, onde já aprendeu muita coisa, inclusive uma profissão. “Quero ser cenógrafa e continuar a trabalhar aqui”, afirma. A mesma opi­nião é compartilhada por Lucas, que sonha ser artista plástico: “Mac­be­th, de Verdi, é o primeiro cenário que ajudo a montar. Estou maravilhado com a grandeza de tudo. Com certeza esta ópera vai ficar guardada em mi­nha memória”. A artista plás­tica e professora no programa Va­lores de Mi­nas, Míriam Menezes, a­companha os alu­nos. Ela é responsável por selecioná-los e indicá-los para o Centro Téc­nico. E ressalta:“Tra­balho com Ra­ul Be­­lém desde 1993. Então, conheço bem o perfil dos jovens com quem e­le gosta de trabalhar”.
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Raul Belém: “Somos um centro técnico completo: criamos obras cenográficas e capacitamos mão-de-obra”

A produção de um grande espetáculo necessita de pessoas qualificadas, de recursos financeiros favoráveis, além de tempo, que nesse ca­so, geralmente é bem escasso. De a­cor­do com Cláudia, uma grande ó­pe­ra, com figuração, e equipe de fora para fazer alguns personagens, co­mo foi o caso de Macbeth, pode custar de 500 a 800 mil reais. A coordenadora frisa que todo o material fica disponível para aluguel. “Al­gu­mas pe­­ças do cenário de Aïda criaram o cenário em uma festa de 15 anos. Tam­­­bém locamos para um evento no Automóvel Clu­be roupas da ópe­ra O Bar­beiro de Sevilha”, recorda.
 
Apesar de todo o corre-corre e dos contratempos a ca­da produção, Cláudia sen­te alegria ao ver um es­pe­­táculo estrear. Pa­­ra ela, a sensação é do nascimento de mais um fi­lho da equipe. “Já tive momentos de chorar, quando as cortinas se a­brem e ve­jo a coisa a­contecer.” Por isso, re­­vela que Raul sonha e ela re­aliza. “A­doro ouvi-lo dizer: ‘Era is­so que eu queria, Dona Cláu­dia’, diverte-se.

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Lucas Júlio e Míriam Menezes: empolgados com a produção de Macbeth
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