| Tião Martins |
Lições de dança

No século passado, eram mais comuns as aulas de dança de salão. Se você não tivesse boa amiga, com tempo livre para lhe ensinar os primeiros passos, a saída era um curso de tango, bolero ou samba, com aulas duas vezes por semana, professoras pacientes e um grande espelho no salão, para apreciar seu desempenho.
Autodidata em quase tudo, a começar pela própria vida, confesso que me era estranha a ideia dessa intimidade semanal com regente desconhecida. Embora soubesse que não havia segundas ou terceiras intenções nos abraços móveis e ritmados, a cautela mineira falava mais alto que a razão.
Amigas que me encaminhassem nos volteios do bolero e no assanhamento explícito do samba nunca me faltaram. Quanto ao tango, nada. Nenhuma admitia ter sabedoria suficiente para me conduzir nessa autêntica obra de arte, que exige do casal perfeito entendimento estético e dramático. Por isso, sempre me limitei a admirar os bailantes do tango.
Mas como todo autodidata, por definição, é um curioso, certa vez aceitei, em nome também da minha companheira de dança, o convite para a festa de formatura de um amigo e sua esposa, que se matricularam juntos em um desses cursos e, naquela sexta-feira, receberiam alta, diploma e autorização formal para dançar.
Como prêmio, após a diplomação os convidados teriam o direito de invadir a pista, sem o dever de seguir as regras da academia. E lá fomos nós para o bairro do Prado.
“Éramos aprendizes de nós mesmos, sem matrícula e mensalidades. E, ainda que com certo sentimento de culpa, prosseguimos, até que a noite acabou”
Aplaudimos não só o casal amigo, mas todos os formandos, antes que nos dessem licença para dividir a pista com mestres e alunos. E dançamos nossos boleros e sambas durante uma hora ou mais, sem descanso, até que a reitora percebeu nossa existência e, abraçada a um dos mestres, aproximou-se de nós ao som de Solamente una vez.
Discreta, a jovem senhora sussurrou ao meu ouvido a sugestão mais desmoralizante que um sócio honorário da velha Estudantina Musical poderia ouvir em um dos bailes da vida:
– Se vocês gostam tanto de dançar, por que não aprendem?
Se fôssemos mais tímidos ou sofrêssemos de inibição crônica, teríamos parado naquele instante, envergonhados por desrespeitar as minuciosas regras da academia. Mas éramos aprendizes de nós mesmos, sem matrícula e mensalidades. E, ainda que com certo sentimento de culpa, prosseguimos, até que a noite acabou.
Hoje, um sentimento de culpa idêntico ao daquela distante sexta-feira botou a cabeça do lado de fora, quando li a notícia de que a professora chamada Leila Maria vai iniciar, em sala que fica no mesmo quarteirão do Sindicato dos Jornalistas, um curso de português com duração de um ano e promessa de ensinar gramática e produção de textos.
Apanhado em flagrante delito, foi como ouvir da gentil professora o mesmo conselho ou sugestão que poderia me salvar da condição de praticante, ousado e sem preparo, de outra arte só acessível aos iniciados:
– Se você gosta tanto de escrever, por que não aprende?
A mensalidade de 95 reais não é extorsiva e o curso promete dar ao aluno segurança para escrever e, ainda por cima, melhores condições para disputar vaga no serviço público. A perspectiva é fascinante.
E tão sedutora quanto a promessa de outro curso, na Oficina de Literatura do Espaço Cultural Letras & Pontos, que anuncia cursos, entre setembro e dezembro, para formar contistas mineiros. Este deve ser mais caro, mas, em compensação, oferece bolsa de estudos a alunos de baixa renda.
Seria uma glória, a esta altura, aprender a dançar como Vander Piroli, Oswaldo França Jr., Roberto Drummond, Paulinho Assunção ou Malluh Praxedes.
Pena que não sobre tempo, pois é preciso aprontar as crônicas de amanhã, do mês que vem e de todos os dias do ano. São 365, contados nos dedos. É triste ser amador em tudo, pelo resto do ano. E pelo resto da vida.
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