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Moda

| Zu Moreira |


Guarda-roupas de três mulheres da sociedade mineira são repletos de ­artigos clássicos de coleções antigas


Nostalgia que veste bem

* Cláudio Cunha
ìris Chaves compõe visual anos 40 com vestido gorgurão com bordado em palha e fio de ouro e bolsa francesa de gobelém

Os guarda-roupas da socialite Íris Chaves, da advogada Denise Guerra e da empresária Ana Ester têm algo em comum: guardam roupas impregnadas de memórias, que contam histórias bem interessantes. Cada uma dessas mulheres, em situações diferentes, em determinado momento de suas vidas, foi fisgada por alguma peça com cara, cheiro e nostalgia do passado. Mas se engana quem pensa que a atração se resume a colecionar peças de décadas anteriores. Não. Elas usam tudo – ou quase tudo – deste acervo ga­rimpado ao longo dos anos. E estão muito up to date com o momento, que prega o consumo consciente, a reutilização e a reciclagem. Em outras palavras, Íris, Denise e Ana Ester estão mais do que na moda: são re-fashionistas, o que existe de mais chique nos tempos atuais. O que as diferencia é a personalidade e a maneira de lidar e reaproveitar roupas.
 
Íris Chaves faz um estilo extravagante e se diverte compondo personagens. Na arara montada em seu ateliê, no bairro da Pampulha, ela destaca algumas preciosidades, entre elas um vestido preto, em gorgurão, anos 1940, com cintura marcada, e bordados de palha com fios de ouro, que pertenceu à avó da amiga Nina Pacheco. “Ele estava guardado em um baú, mofado e picado por traças. Nina teve o desprendimento de doá-lo para mim com a condição de que o restaurasse e o usas­se na exposição do seu marido, o artista plástico Fernando Pacheco”. A recuperação da peça não foi fácil: exigiu cuidados especiais para tirar o mofo, já que o tecido, antigo, frá­gil, não podia ser molhado; os fios do bordado, soltos, foram presos por dentro. Porém, os buraquinhos feitos pelas traças ficaram. “Im­possível cer­zi-los. Eles indicam a marca do tempo, tive que assumir. Foi muito gratificante perceber a emoção da Nina quan­do reviu o vestido pronto”, relata.

* Cláudio Cunha
Íris Chaves se diverte compondo personagens camaleônicos que vão aparecendo pelos diversos ambientes sociais pelos quais transita

Também fazem parte do acervo da socialite duas roupas da década de 80, que pertenceram à poderosa mi­nei­ra Betty Lagardère: um tomara-que-caia confeccionado em brocado  com paetês, assinado pe­­la estilista Mar­garetha Ley para Es­ca­da, e um tubo de seda drapeada e ca­­mélias gi­gantes da Dior Privé. “Tive o maior fetiche em comprá-los”, diz Íris.

Como o cafetã oriental anos 70, ad­qui­rido em um brechó em Ro­ma, o vestido sixty com es­tampa típica da época, em seda pura, sempre sai do guarda-roupa:. “Gosto de usá-lo com u­ma bolsa Paco Raban­ne de placas de metal dourado. Cos­tu­mo dizer que, nessas situações, eu sempre encarno a roupa, eu li­teralmente a possuo. É um processo de transferência”, enfatiza.

Para se ter idéia, o “brechó” de Íris conta com mais de 80 óculos, como o modelo preto Jackie by Gucci anos 50 e os “gatinhos”, que foram da sua mãe. Chapéus e luvas, inclusive o par de telinha de algodão da década de 30, também fazem parte da coleção.

De onde veio esta atração pelas coisas antigas? Ela não sabe dizer ao cer­to. “É algo meu, gosto das marcas que o tempo deixa nelas. Desde pequena sou criativa, tenho fascínio pelos acessórios, pelas novidades, pelo diferente”. Seu bisavô, José Martins Cha­ves, era alfaiate em Rio Casca; o avô, Jacy, herdou a profissão e costurava no bairro Carlos Prates. “Cresci brincando com tecidos em uma mesa de corte-costura. Tudo isto veio fortalecer meu DNA com relação à moda”, diagnostica Íris, acrescentando que aos 12, 13 anos, já fazia inter­ferências nas roupas e sa­patos. “Tin­gia e bordava a sa­pa­tilha e vendia4  pa­ra mi­nhas ami­gas na escola”.

Em outro extremo, a elegante De­nise Guerra faz o gênero tradicional, avesso aos modismos, mas professa o mesmo credo. É uma re-fashionista na­ta. “Costumo dizer que sou antimoda, não sou consumista, não descarto o que tem qualidade, conservo aquilo de que gosto”, avisa a advogada, figura conhecida da sociedade mineira.
* Cláudio Cunha
Denise Guerra em seu vestido de renda francesa, usado pele primeira vez vez em festa na mansão do casal Zilda e Alair Couto

“Tenho uma costureira fantástica há mais de 30 anos, Maria Antonia Utsch. Nós temos uma afinidade enorme, ela sabe do que eu gosto, parece que existe uma telepatia entre nós. Levo para ela um modelo e, a partir dele, criamos juntas outro. Não copiamos na­da”, explica. Com outra vantagem: ela sabe que não correrá o risco de en­con­trar alguém com o mesmo mo­de­lito em coquetel ou festa a rigor.

Isto se aplica também no quesito re­ciclagem ou, como se dizia antigamen­te, reforma. “Se o tecido da roupa é bom, tem qualidade, não vejo problema nenhum em transformá-lo. Não é de agora, com a crise, que ajo assim. Mi­nha realidade sempre foi esta”, afirma.

Mas é no quesito habillée, que De­nise é completamente vintage. Ela ain­da guarda no seu armário o vestido que usou quando foi eleita Gla­mour Girl, promoção do colunista Eduardo Couri, em 1973. “Fiz algumas modificações para atualizá-lo. Ti­rei as mangas compridas e mandei co­locar decote tomara-que-caia para ir a uma festa no Haras Zuninga, em 2002”.

Outro exemplo? O modelo exclusivo de autoria do costureiro Gerson, confeccionado no início dos anos 1980. “Em 2001, o vesti no casamen­to da minha filha, Joana, e, em 2006, em um casamento em São Pau­lo. Essas roupas fazem parte da his­tória da minha vida, me trazem gran­des e boas recordações”, declara.
 
Ana Ester é outra que sempre  gostou de roupa fora de época. Mas foi na década de 80, quando se mudou para São Paulo, pa­ra trabalhar na Folha de São Paulo, que a jornalista descobriu o universo dos brechós.
 
Para abastecer seu estilo descolado, desde a adolescência, Ana Ester se valia, no início, das pontas de estoque. “Morava em Perdões e era vizinha da mãe da Eliana Queiroz. Quan­do a estação mudava, ela levava para dona Dalila as roupas das coleções anteriores e esta, por sua vez, promovia ótimos bazares”. A hoje empresária se lembra de algumas peças que comprou em uma dessas promoções, como um vestido roxo, canelado, de manga morcego, bem anos 1980. “Usava essas roupas extravagantes e o pessoal da cidade achava muito estranho. Nunca fui de seguir tendências, nem tenho um estilo definido. Sou versátil.”
* Cláudio Cunha
Ana Ester: “Sou versátil, cada dia me visto de um jeito, isto me dá a sensação que o dia está diferente”

Em busca de peças diferenciadas, a jornalista conheceu todos os brechós de São Paulo, da periferia às fa­velas. “Descobri que havia um bazar da Cruz Vermelha com produtos doa­dos por fabricantes europeus. Eram roupas ótimas, ba­ra­tíssimas, e muito retrôs. Então, resolvi que ia trabalhar com isso”.
 
Há 12 anos, ela abriu o San­tís­sima, o brechó mais estribado de Belo Horizonte. E foi colecionando criações de estilistas famosos, um acervo com cerca de 3 mil peças perfeitas, entre as quais as de Dener, Marquito, Pucci, Thierry Mugler, Pierre Cardin, Renato Lou­reiro, que vai sendo renovado e não está à venda. As raridades são emprestadas ou alugadas para figurinos de época. “O brechó colocou Belo Horizonte na rota dos figurinistas globais”, afirma.
 
Ana Ester tem uma clientela fiel, que também vai se renovando, passando de mãe para filha, gente que, como ela, está sempre de olho no retrô e no diferente.


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