| Guilherme Torres |
O lado B da noite

É sexta-feira, pouco mais de meia-noite. A fila de entrada da boate Mary in Hell dobra à esquina entre as ruas Tomé de Souza com Professor Moraes na movimentada Savassi. A cena alternativa na capital nunca esteve tão em alta, badalada e bem vista como agora, os espaços se tornaram referência para a comunidade antenada em música de diferentes estilos, cultura outsider, universo pop- rock, eletro.
Os lugares, quase sempre situados em prédios ou casarões antigos, são na maioria das vezes apertados sem muito conforto, com iluminação baixa, num estilo urbano e cosmopolita. Atraem o público que quer curtir uma noite diferente do massificado batidão da música eletrônica nas boates convencionais, que não perderam seu lugar, mas agora, dividem o gosto da galera nas noites da cidade, mostrando que a onda do alternativo veio pra ficar.
A música é o principal atrativo desses lugares, de Gretchen (Conga La Conga) a Shakira (Estoy aqui), passando por Sidney Magal, pelos funks que embalaram o Brasil no início dos anos 2000 e até, acreditem, por Lua de cristal, da Xuxa. Essas pérolas revivem na pista, matando a saudade da infância e da adolescência, e põe a galera pra dançar e cantar. “A ideia é fazer uma noite sempre mais intimista, parecendo uma festinha em casa, porém um pouco maior e com um tipo de som que aproxima muito as pessoas”, explica Luciano Augusto, DJ e sócio da Velvet Club.

A mistureba total não é só da música, o público também se mistura. Seguindo o estilo friendly (amigável, em português), já bem famoso no Estados Unidos, várias tribos alternativas compartilham a pista e o som na maior harmonia, o que vale é a diversão, respeitar os estilos e diferenças, sem brigas. “Nesse estilo todo mundo se dá bem e se respeita”, conta Lucas Almeida, um dos proprietários e DJ da Mary in Hell.
Luciana Souza Simão, 22 anos, veio de São Paulo especialmente para se encontrar com amigos de BH e a balada escolhida por todos foi a Mary in Hell. Neta do artista Maurício de Souza e filha da mulher que inspirou a personagem Magali, Luciana resume o que a atrai nesse tipo de lugar: “A gente adora essa bagunça, o pessoal diferente, e todas as misturas inusitadas. É tudo ótimo”.
O estudante de jornalismo e frequentador dos “inferninhos” Layon Araújo, 22 anos, também defende seu gosto “pelo público alternativo e pelas músicas de diferentes estilos". Sobre o aspecto de interação, completa: "Aqui me sinto livre, a energia da galera é muito positiva e sempre me divirto."

De olho na boa aceitação do público, que varia de 18 a 50 anos, essas casas criam festas diferentes e com nomes que realmente chamam a atenção: Adeus Dercy, Ménage a trois, Safadezas e até um Baile dos solteiros. Tudo, claro, com espírito de brincadeira. Entre as personalidades que já deram as caras em BH estão o apresentador da MTV João Gordo, a eterna rainha do bumbum Rita Cadillac e Zé do Caixão.
Apesar da fama de vale-tudo, nesse tipo de lugar a realidade não é bem assim na Velvelt Club e na Obra as regras são bem claras: nada de drogas, serviço ruim ou ambiente sujo. “Não é porque se trata de um “inferninho” que é preciso beber cerveja e morrer de calor em um ambiente quente. A casa tem um cardápio variado de bebidas e conta com uma seleção excelente de cervejas importadas e sistema de ar condicionado”, explica Bruna Miranda, sócia da boate Velvet Club.

Quem entende de pick-up feito a palma da mão, como o conhecido DJ Robinho, famoso na capital com os seus remixes de house e tecno, e na estrada há quase 20 anos, conta que é preciso inovar para a balada não se tornar uma rotina. “Todo mundo já está fazendo música eletrônica em BH, não podemos fazer igual, precisamos de algo diferente”, dispara Robinho. Tocar música dos anos 80 e 90 representa algo totalmente diferente em sua trajetória musical e ele abriu mão de tocar somente seu estilo preferido para se arriscar em outra atmosfera tão promissora quanto a que fez de seu nome uma referência. “É muito fácil tocar o pop, porque é comercial e conhecido, além do que rola uma sincronia entre o lugar, o público e a música. Eu torço para que todo mundo que toca na noite traga um pouco mais de novidade para a pista, coisa boa: um lado B”, explica Robinho. Ele diz que baixa poucas coisas da internet: pega os próprios discos e passa para o computador. “Até gostaria de tocar o disco de vinil mesmo, mas o espaço dentro da cabine não comporta e daria mais trabalho” explica.
Um dos diferenciais dessas casas é que os DJs muitas vezes não são profissionais, fazem por hobby, usam muito do seu estilo próprio e de ser básico para bombar na pista. A prova de que se pode fazer a galera vibrar com o som sem precisar trazer para a pista um DJ internacional e famoso é Luísa Reiff, conhecida na noite também como LuHell. A morena notável de 19 anos é DJ há um ano e se veste sempre para ser notada; roupas num estilo vintage, salto alto e cabelos 4 revoltos. Na pista ela toma posse de uma taça de espumante, cigarro e sobe na pick-up sem muita preocupação “O lance é sentir o público e o que eles estão gostando de ouvir. Na noite alternativa a galera está mais disposta não só a dançar os hits atuais, mas também a se divertir com músicas antigas. O sucesso está em se adequar ao público, sentir a vibração e só depois definir as músicas”, conta Luísa.
A Obra
Rua Rio Grande do Norte, 1.168 – Savassi
www.aobra.com.br
Black Out
Avenida Getúlio Vargas,
1.423 – Savassi
www.blackoutbh.com.br
Deputamadre
Av. do Contorno,
2.028 – Floresta
www.deputamadreclub.com
Mary in hell
Rua Tomé de Souza,
470 – Savassi
www.maryinhell.com.br
Velvet Club
Rua Sergipe,
1.493 – Savassi
www.velvetclub.com.br
A trilha embalada por melodias inesquecíveis dos anos 80, mescladas com ritmos atuais não fica só dentro dessas boates, virou festa e das mais concorridas. O nome é Camarim, fortemente inspirada na Bailinho, festa que agita a noite carioca e conta com a presença de uma legião de famosos e anônimos em busca de boa música, simplicidade nas pick-ups e brincar de ser DJ por um dia. O que vale é reunir os amigos, cantar o refrão daquela música que você adora, mas não escutava há muitos anos.
O projeto da Camarim, que surgiu para agitar as tardes mornas dos domingos na capital, foi criado por quatro amigos que se surpreenderam com a aceitação e sucesso. Ícones da música como Michael Jackson, Madonna, AC-DC, Rolling Stones dividem espaço com hits como Chorando se foi (Kaoma) e Uma noite e meia (Marina Lima), por exemplo. “É sem preconceito mesmo. Poder tocar todas as músicas sem pudor algum é maravilhoso. Todo mundo está cansado de música eletrônica e tudo que é diferente, básico e que remete a uma nostalgia, está na moda”, conclui a DJ Sininho, uma das idealizadoras da festa Camarim.
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