| Neide Magalhães |
''Posso trair meu público''

Nos três andares do belo Museu Inimá de Paula, um prédio de 1932 no centro de Belo Horizonte, 131 obras assinadas pelo paulistano Vik Muniz, 48 anos, tomam conta do lugar. Primeira individual de Muniz na cidade, a retrospectiva – em cartaz até dia 2 de novembro – é mais do que a chance de conhecer a obra provocante desse fotógrafo, escultor, desenhista, pintor, escritor, roteirista de cinema. É o momento de também encontrar respostas para perguntas que não querem calar: o público em geral gosta desse tipo de trabalho? Um artista famoso só faz coisas boas? As respostas estão nas palavras de Muniz, cuja obra é calcada em imagens feitas sobre imagens de esculturas, pinturas, desenhos, e apresenta as fotografias dessas peças. Antes de chegar a BH, já levou quase 300 mil pessoas ao Museu de Arte Moderna do Rio de Janeiro (MAM-RJ) e ao Museu de Arte de São Paulo (Masp). A prova do sucesso é maior que os números grandiosos: “Um taxista me recomendou minha própria exposição quando cheguei, um dia, ao Rio”. Satisfeito por ver “um público mais comum” diante de seus quadros, ele declara que isso é o que vale a pena. Suas criações utilizam os mais diferentes materiais, do açúcar da premiada série que fez dele um artista famoso em Nova Iorque (EUA), onde passa boa parte do ano (a maior parte fica no Brasil, de sete anos para cá) até a composição de retratos de catadores de lixo com peças recolhidas no aterro de Gramacho, no Rio. Chocolate, pasta de amendoim, geléia, massinha de modelar, brinquedos (soldadinhos de chumbo e quebra-cabeças), arame, linha, diamantes, caviar e pigmentos também rendem obras relacionadas em séries diferentes. A que ele mais gosta? “Crianças de açúcar”. A razão é sentimental e muito prática também: “Devo meu sucesso a essas crianças”.
ENCONTRO – Você disse que esta retrospectiva é muito pequena em seu universo de artista. Tem ideia de quanto já produziu até hoje? Já catalogou sua obra?
VIK MUNIZ – Estou fazendo um catálogo agora, que está sendo produzido no Rio de Janeiro. A Capivara (editora) está fazendo o primeiro implemento de um catálogo raisonné. Mas ainda assim é ridículo, são coisas de 4.500 imagens em um período de 20 anos. Estão ficando de fora as imagens que são feitas de várias imagens. Estou impressionado com minha própria produção, porque não sabia que tinha feito tanta coisa. E não sabia que tinha feito tanta coisa ruim também. É quando se começa a fazer coisas melhores e a julgar o que na época pareciam boas, mas hoje em dia não são, que se pensa: não devia ter feito isso. Faz parte da produção.

ENCONTRO – E o que você fez que considera ter atingido um nível mais alto?
VIK MUNIZ – Várias coisas. Para uma obra sair de uma série e entrar nessa exposição, por exemplo, já é uma prova de que são as coisas de que eu gosto ou então são interessantes do ponto de vista do público. São 131 obras nesta exposição e quase todas elas são séries que funcionam muito bem com o público. Que tiveram uma reação positiva ou interessante quando as mostrei pela primeira vez. Para mim, algumas são mais importantes do ponto de vista pessoal, porque representam momentos da minha carreira, como as Crianças de açúcar – devo meu sucesso a essas crianças; depois delas minha vida ficou muito mais legal –, o chocolate, o diamante ou mesmo o lixo, que está aqui atrás. São muito significativas para mim em termos pessoais, mas é difícil julgar, porque começo a olhar e quase não consigo qualificar uma como melhor que outra, ou mesmo sendo diferente. Para mim, isso tudo é um trabalho só.
ENCONTRO – É a primeira vez que você faz uma individual aqui. Como se sente?
VIK MUNIZ – Falando em termos de Estados Unidos e Europa, Belo Horizonte é uma cidade enorme, uma metrópole. Trazer também um trabalho para cá que, mesmo sendo fotografia, tem uma peculiaridade grande em relação à escala, é muito importante para mim. As obras ficam na parede e as pessoas têm de se aproximar delas para perceber essa relação entre aproximação e escala. Não tem como você mostrar isso através de livro ou de internet. Depende muito do museu e requer a presença física do espectador. Então, poder mostrar isso de verdade é muito bom.
ENCONTRO – O espectador consegue perceber mesmo essa diferença, os detalhes do seu trabalho?
VIK MUNIZ – Outro dia, em um blog, um rapaz falou que achava meu trabalho idiota, e ele morava em uma cidade em que eu nunca tinha mostrado nada. Então perguntei a ele se tinha visto algum trabalho meu e ele disse: “Não vi e não quero ver”. Ainda perguntei se ele sabia a escala disso. Ele respondeu: “Não estou interessado”. Depois de uns três meses foi a Nova Iorque e me mandou uma carta completamente apologética, foi muito bacana, dizendo que agora entendia o que é o meu trabalho. Isso é muito comum: as pessoas vão muito pelo que está em revistas, em livros, e meu trabalho não tem essa facilidade de ser reproduzido.
ENCONTRO – As reações são muito diferentes entre públicos de vários lugares ou muito parecidas?
VIK MUNIZ – Na verdade, são parecidas. Elas estão mais relacionadas com camada social, um tipo de vida. Esta exposição é feita de trabalhos já testados, mostrados em individuais, e já sei mais ou menos o efeito que aquilo tem, o tipo de reação que as pessoas têm. A parte mais interessante é quando você começa a viajar com uma exposição como esta e a testar aquilo que já é peculiar, que já parece conhecer, em culturas diferentes. Já fiz exposição na Rússia, na China, no Japão, na Polônia, em lugares bem diferentes do contexto de onde esses trabalhos foram desenvolvidos. Acho que culturalmente elas funcionam de uma forma bem parecida. É decepcionante, mas o público na Rússia, por exemplo, tinha uma ideia muito igual ao dos Estados Unidos ou daqui. Mas acho isso legal porque você está se relacionando com ideias que têm caráter universal. Elas não são sobre uma cultura ou outra. Têm a ver com o ser humano mesmo.

ENCONTRO – Você costuma dizer que quer atrair principalmente aquelas pessoas que não frequentam galerias e museus. Nessa hora você não está sendo político também?
VIK MUNIZ – Sou politizado como pessoa, mas não sou como artista. Uma coisa que insisto em dizer é que artista é uma ocupação como qualquer outra. As pessoas tentam santificar ou endeusar o fato de se ter uma profissão criativa. Criatividade é uma quase que obrigação em qualquer atividade humana. Ao fazer um trabalho como artista visual é preciso ser fiel àquilo. Não acho que minhas opiniões políticas sejam corretas e não tenho autoridade para que possa usá-las no meu trabalho.
ENCONTRO – Mas você não acha que isso leva a muitas interpretações?
VIK MUNIZ – Não quero que meu trabalho crie uma interpretação. O interessante é criar uma espécie de arena onde você possa discutir ideias, em vez de criar uma posição. Não quero isso. Como pessoa, tenho outra preocupação, que é criar um tipo de imagem que seja organizada de forma que não seja elitista. Não querer ser elitista não é uma preocupação política, é uma preocupação humana. Quero ver crianças vendo o meu trabalho, quero ver velhinhos olhando meu trabalho, ter essa diversidade. O mais interessante do sucesso da minha exposição no Rio e em São Paulo não estava no número de pessoas que visitaram a mostra, mas na diversidade de tipos humanos que estavam ali presentes. De soldado a faxineiro, empregada doméstica, manicure, foi todo mundo ver. Um taxista me recomendou minha própria exposição quando cheguei, um dia, ao Rio. É disso que eu gosto.
ENCONTRO – Ao longo de sua carreira você procurou essa diversidade de público?
VIK MUNIZ – No começo, não. Vou ser sincero: no início estava querendo a atenção do público especializado mesmo, que meu trabalho fosse validado através dos meios normais já existentes. Não vou negar se um curador importante, que escreveu alguma coisa, ou um historiador de arte fizesse um comentário ou quisesse ver o meu trabalho, que aquilo ia me trazer uma satisfação. Eu também, na minha insegurança de artista jovem, precisava desse tipo de validação. Muita gente falou mal do meu trabalho e hoje em dia tenho pena deles. A história mesmo toma conta desse tipo de coisa. Agora, depois de 20 anos, não preciso disso e sou quem está validando meus próprios críticos. Estou mais interessado justamente em ir um pouco contra. A gente passa metade de uma carreira se fazendo e a outra metade se desfazendo.
ENCONTRO – Neste momento, que é o oposto disso, falam maravilhas do seu trabalho. Isso não leva você a querer fazer outras coisas?
VIK MUNIZ – Completamente. Acabei de fazer uma exposição de objetos, em Nova Iorque. Agora posso fazer isso. Posso me trair e trair meu público. De uma maneira que seja coerente com meu programa intelectual. Tenho um pouco mais de liberdade para poder me definir de forma maior. Tanto do ponto de vista da criação, como do ponto de vista de público. Atingir uma relação com o público menos especializado e também me tornar menos especializado naquilo que estou fazendo. Me dedicar mais a escrever ou organizar outras exposições ou mesmo criar trabalhos em outras técnicas, em outros meios. Agora estou pensando em cinema, em esculturas, em literatura, numa série de outras aplicações, inclusive, sociais do meu trabalho. Uma das vantagens de ter me estabelecido como artista é ter um pouco mais de liberdade econômica para poder fazer o que realmente estou interessado em fazer.
ENCONTRO – Esta exposição é a mesma que você vai mostrar na Europa?
VIK MUNIZ – Não existem muitas maneiras de contar a nossa história e muitas das obras virão desta exposição. A retrospectiva para a Europa, a partir de 2011, já tem três itinerâncias: Bonn e Berlim, na Alemanha, e Paris (França), e ainda a Itália, que estamos analisando também. Aqui, no Brasil, estava prevista para acontecer em São Paulo e no Rio, e já está com três outros museus que vão fazer. Daqui vai para Curitiba e depois, talvez para Fortaleza e Brasília.
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