| Rafael Campos |
Salto para o mundo

“Tinha uma pedra no meio do caminho / No meio do caminho tinha uma pedra”. O famoso verso drummondiano serve em parte para explicar um dos principais motivos que levou o belo-horizontino Bernardo Alves, 34 anos, a seguir os rumos do hipismo. Mas espere: troque a “pedra” por “hípica”. “Quando íamos para a fazenda da nossa família, em Justinópolis, sempre passávamos pelo antigo Centro Hípico Fazenda da Pampulha. Meu pai parava o carro e eu ficava ali, olhando...”. Começava assim a história vitoriosa de um dos principais cavaleiros do país.
Em uma dessas idas para a fazenda, o pai do cavaleiro, João Baptista Alves, resolveu colocá-lo na escolinha do centro hípico. “Tinha um pouco de medo, até porque com apenas 6 anos eu já montava cavalos grandes, não tinha pôneis”. Vieram as aulas, os conselhos de profissionais importantes, somados à experiência e talento do cavaleiro Vitor Alves Teixeira, um de seus primeiros treinadores, José Wilson, o Pelé, e Marcos Mendes, antigo titular do Cepel, já falecido. A ligação do mineiro com o esporte foi ficando mais forte a cada salto.
Morando há oito anos na Bélgica, Bernardo vem à terra natal no máximo duas vezes por ano, já que a carga de treinamentos e de competições se concentra na Europa. Apesar do oceano que o distância, ele faz questão de não esquecer as primeiras quedas que sofreu. “Tive alguns tombos, mas fazem parte, principalmente no início”.
Com apenas 10 anos, já embarcava para a Colômbia e Porto Rico para disputa de medalhas internacionais. “Não fui bem nesses concursos, pois os cavalos eram sorteados”. Mas sua maior tristeza não veio dos resultados ruins. “Lembro-me que montava uma égua, vendida poucos dias antes da competição. Fiquei muito chateado na época, porém, hoje entendo o que aconteceu e faria o mesmo”, conta, com um sorriso tímido. Antes de seguir para as disputas no exterior, Bernardo já havia conquistado o Campeonato Brasileiro de Mirins, em 1986, considerado pelo atleta como sua primeira grande conquista.
Veio a profissionalização, o cavalo era definitivamente a sua vida e, por intermédio dele, conheceria sua atual esposa, Carolina Greco, com quem tem uma filha, Júlia Greco Alves, de 1 ano. “A Carolina também montava, por isso, sempre apoiou minha carreira”. Carreira que receberia um impulso significativo. Mudou de treinador, ganhou o patrocínio de Jorge Gerdau Johannpeter (presidente do Conselho de Administração do Grupo Gerdau), conhecido também pela sua paixão por cavalos. Bernardo passou a montar os cavalos do empresário, que o convenceu a se transferir para a Bélgica. “Foi, sem dúvida, a melhor decisão que tomei na vida”.

Em Bruxelas, capital da Bélgica, o belo-horizontino diz ter sofrido pouco com a mudança de ares. Sua filha nasceu naquele país, onde pretende criá-la. “Sinto falta dos amigos daqui, mas também fiz boas amizades por lá.” Os amigos? Dois deles, o ex-cavaleiro Nelson Pessoa, o Neco, e o filho Rodrigo Pessoa, também cavaleiro. Eles possuem um manèje (espécie de hípica particular), que Bernardo utiliza para treinar.
Bernardo geralmente monta cavalo da raça alemã holsteiner. “Monto qualquer cavalo, o importante é saltar”, brinca. “Mas essa linhagem realmente vem dando bons resultados”. O mineiro lembra uma história curiosa nos primeiros anos da amizade com Jorge Gerdau. “Ele me passou um puro-sangue argentino, que era da filha dele. O cavalo tinha algo mais. Em três semanas ganhei os principais grandes prêmios do país. Chamava-se Tuco-Tuco, talvez, o cavalo da minha vida”. Foi realmente a partir de sua ida para a Europa que a carreira deslanchou. Nos Jogos Pan-Americanos de Winnipeg, no Canadá (1999), Bernardo integrava a equipe brasileira que ganhou medalha de ouro no salto. A mesma posição voltaria a se repetir no Pan do Rio de Janeiro, em 2007.
Este ano, Bernardo conquistou o Grande Prêmio de Hamburgo, na Alemanha, um dos principais do circuito mundial. O sonho? “Como todo atleta brasileiro, quero um ouro olímpico.” Morar na Bélgica significa para Bernardo estar no centro do hipismo mundial. Segundo ele, competições são comuns em quase todos os fins de semana. “No Brasil, falta ainda 4 maior profissionalização, entretanto, sempre surgem bons cavaleiros, devido aos grandes patrocinadores”. O belo-horizontino chama atenção para ideia errada que a maioria das pessoas tem sobre o hipismo. “Algumas vêem o esporte de maneira muito elitizada, mas conheço vários atletas que começaram em condições econômicas inferiores e conseguiram seu espaço”.
Na capital, na bela e espaçosa casa do sogro, localizada na Pampulha, o atleticano Bernardo descansa depois de ter participado do Athina Onassis Horse Show, no Rio de Janeiro (RJ). Na competição, ele terminou em 16º lugar. Como de costume, o descanso é rápido por terras belo-horizontinas (cinco dias), pois já estava com viagem marcada para a Holanda, onde disputaria outro concurso.
Um dos principais incentivadores, o pai, o engenheiro João Baptista Alves, de 65 anos, não poupa elogios ao filho. “Ele é muito ´sério. A persistência o levou a subir degraus tão altos”. Não menos orgulhosa, a mãe, Maria José Alves, 64 anos, afirma que a distância não é empecilho. “Acompanhamos pela internet e quando dá, vamos aos concursos”. Perguntado sobre até quando pretende seguir no hipismo, Bernardo responde fazendo referência a um de seus ídolos. “Nelson Pessoa montou até 65 anos, então...”

Lucas Araújo (Sênior), Júlia Ferreira (Mirim), Pedro Salgado (Júnior), Anderson Lambertucci (Amador), Paula Xisto Câmara (Jovens Cavaleiros), entre outros. São muitos cavaleiros e amazonas que estão surgindo no estado como boas promessas de seguir os passos, ou melhor, os saltos de Bernardo Alves.
Paula, de 18 anos, é líder na classificação mineira da categoria Jovens Cavaleiros B (obstáculo com um metro de altura). Apaixonada por animais, iniciou os primeiros galopes há quatro anos no Centro Hípico Vale do Sol (Chevals), em Nova Lima. “Quero saltar obstáculos de 1,40 m ou 1,50 m e chegar às olimpíadas”, almeja Paula, que monta o cavalo Spencil (mistura de quarto-de-milha com mangalarga) e a égua Yvvy (holsteiner). Em setembro, dias 12 e 13, ela irá disputar a sétima das oito temporadas mineiras da chamada Corrida dos Campeões, que definirá o Campeão Mineiro.
A amazona é exemplo de bom trabalho nas categorias de base. Marcos Rocha Rabello, presidente da Federação Hípica de Minas Gerais, destaca que as chamadas escolinhas do estado passaram por uma transformação cultural. “Atualmente, não são vistas apenas como porta de entrada para o hipismo. Não existe mais aquela pressão sobre as famílias e alunos para que se transformem em profissionais”, afirma, alertando que a idade mínima para se iniciar no esporte é de seis anos.

Outra mudança se refere aos centros hípicos – 16 em todo o estado –, antes centralizados em clubes. “Os proprietários de cavalos montaram suas próprias hípicas, pois nos clubes os gastos são elevados”. Conforme especialistas, o custo para se manter um cavalo de competição varia de R$ 800 a R$ 1.500 por mês.
Em outubro, dias 2 e 3, o Cepel irá sediar o Concurso de Salto Nacional. “Será muito importante, pois virão cavaleiros e amazonas de todo o país”, afirma o cavaleiro Pedro Paulo Lacerda, titular do Cepel e vencedor do Campeonato Mineiro, categoria sênior, deste ano.
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