| José João Ribeiro |
Save John Hughes!

Muito triste, lamentável, mas 2009 será lembrado como o ano do desaparecimento de dois grandes gênios da cultura pop dos anos 80. Na música, Michael Jackson, que mudou de alguma forma a infância de muitos, quando o Fantástico na TV Globo transmitiu o clipe de Thriller pela primeira vez em dezembro de 1982. No cinema, a baixa recente tem o mesmo impacto da morte do ídolo que queria ser sempre criança. John Hughes, que praticamente foi tudo (criador, roteirista, produtor, diretor, homem visionário, enfim, um monstro de Hollywood), morreu em 6 de agosto, vítima de ataque cardíaco, enquanto caminhava em Manhattan (EUA). Hughes estava em Nova Iorque para visitar amigos. Tinha 59 anos.
Descrever quem foi John Hughes e seu cinema, sua importância, requer controle, pois lidamos com memórias e sensações muito queridas e singelas, lembranças muito bem guardadas que definem gostos e modos positivos de encarar a vida. John foi o pai do “cinema adolescente” na década de 80. Se Michael J. Fox é a cara daquela década nas telas, John Hughes foi seu cérebro e coração. Aliás, seus projetos eram desenvolvidos sempre com o coração. Antes dele, os filmes feitos e pensados para os jovens, eram toscos, sempre recorriam à linguagem chula e volta e meia mostravam uma cena gratuita de nudez, que nada contribuía para ensinar ou entreter intelectos teens. Hughes varreu tudo isso, apostando em um humor ao mesmo tempo esperto e muito descolado, recheado de sutil elegância, mas também ingênuo, principalmente para os dias atuais.
Sua obra é imensa, principalmente no que se refere à produção, roteiro e invenção. Quem não se lembra das malas voadoras e perdidas da série Férias frustradas, protagonizada pelo subestimado Chevy Chase? Filmes como Clube dos cinco, Gatinhas e gatões, A Garota de rosa shocking, sempre com a ruivinha Molly Ringwald nos créditos, definiram tendências, a moda, o que se consumia, desde música à comida junkie. Com a Mulher nota 1000, Hughes fez com que garotos sonhassem com um ideal feminino muito além do perfeito.
Sua obra-prima foi Curtindo a vida adoidado, de 1986, hoje um filme cult, com um carismático e novinho Matthew Broderick, que juntamente com o melhor amigo e a namorada faz de tudo para cabular um dia de aula. Até hoje, seu impacto na Sessão da Tarde é impressionante.
No início da década de 90, Hughes se reinventou, transformando em febre mundial o ator Macaulay Culkin, quando roteirizou e produziu os dois primeiros Esqueceram de mim. Todos se renderam às travessuras do cínico Kevin, que judiava sem piedade de dois bandidos bobocas.
John Hughes jamais foi indicado para o Oscar. Grande injustiça. Seu único prêmio foi o de produtor do ano em 1991 na Showest, ano do fenômeno Esqueceram de mim, uma forma de dizer muito obrigado pelas multidões que se espremiam nas salas de exibição. Sem dúvida, muitos hoje são críticos e apaixonados por cinema por culpa do “tio Hughes.” A maneira de analisar e apreciar começou com estas preciosas joias, nos idos da década de 80. Certamente, sem os filmes citados ao longo deste modesto, porém entusiasmado tributo, este articulista jamais estaria aqui hoje.
Save Ferris! Save John Hughes!
Realeza Americana

Se houvesse monarquia no universo literário americano, Toni Morrison seria rainha absoluta. Essa autora negra, ganhadora do prêmio Nobel de Literatura, é o que há de melhor na ficção feita e direcionada pelo prisma de “livro com lastro feminino”. A Companhia das Letras publica este mês o livro Compaixão, que descreve o amadurecimento e a formação da jovem escrava Florens no ano de 1690, quando liberdade era uma improvável quimera. Morrison tem um jeito bastante particular de narrar suas tramas, nos propondo principalmente sonhar. Sua obra mais significativa, Amada, ganhadora do prêmio Pulitzer, foi considerada a mais importante e melhor da literatura americana nas últimas décadas. Maior que esta engajada dama, impossível.
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