| João Paulo Martins |
| Cláudio Cunha |
Vida e Guerra em dois atos

1º ato: Pré-guerra
Para lembrar os 70 anos do início da Segunda Guerra Mundial, a Encontro buscou seis histórias de vida contemporâneas ao acontecimento. São experiências que transcendem o sofrimento e o drama.
Primeiramente, devemos lembrar que após a Primeira Guerra Mundial, que ocorreu de 1914 a 1918, a Europa encontrava-se com sérios problemas sócio-econômicos. E esse cenário foi perfeito para o surgimento de regimes totalitários, ou seja, ditaduras em que o poder do governante era absoluto.
Por aqui, em 1921, na pequena cidade mineira de Joaíma, no Vale do Jequitinhonha, nascia Divaldo Medrado. Sua família, composta pelos pais e 12 irmãos, morava em Crisólita quando decidiu procurar emprego em Belo Horizonte. Ele queria trabalhar na mais importante livraria da época, chamada Oliveira Costa. “Eu percebi que o dono da livraria morava perto do Fórum, na avenida Afonso Pena, e que saía toda manhã para fazer caminhada até a rodoviária”, lembra Divaldo. E o que ele fez? Postava-se diante da porta da loja toda manhã e cumprimentava o dono na ida e na volta da caminhada. Certo dia, o comerciante parou e perguntou o porquê de ele não abrir a livraria. Divaldo disse que não era o responsável pela abertura da mesma, e essa foi a deixa para conquistar seu primeiro emprego.

Ainda no Brasil, em 1927, nasceu em Santos, São Paulo, Minoro Shimabukuro. Quando morava com a família em Marília (SP), em 1940, partiu com seu irmão mais velho, Kammei, para o Japão, a fim de estudar. Foram para a ilha de Okinawa, onde tinham familiares. Ele ingressou na quinta série do primário. Sobre o Japão, Minoro escreveu: “O país encontrava-se numa época asfixiada pelo militarismo, era instituído como fundamento o rescrito imperial sobre a educação, a disciplina rígida, o respeito à etiqueta e ao ambiente escolar, tendo como lema a educação moral”.
Na Europa, Benito Mussolini liderou o Partito Nazionale Fascista e chegou a chefe de governo na Itália, em 1926. Tornou-se então Il Duce (o comandante) do povo italiano. Sua forma de governo populista, mas ditatorial, serviu de exemplo para outros aspirantes a líder, como Adolf Hitler, que criou o Partido Nazista na Alemanha e conseguiu alcançar o posto de chanceler em 1933.
Nesse ambiente de prosperidade ilusória nasceram nossos outros personagens. Na Polônia, numa cidadezinha chamada Pionki, nasceu Chanah Flam, em 1925. Segundo ela, lá existia a única fábrica de pólvora do país. O pai era comerciante, e a mãe, dona de casa. A família totalizava seis filhos.

Na Alemanha, governada pelo nazismo, nasceram: Karl Mathias Nikolares Berg, na cidade de Trier, sul do país, próximo à França, em 1937; Georg Busse, em Blankenfelde, uma espécie de subúrbio de Berlim, em 1938; e Karla Renate Berg, na cidade portuária de Danzig, em 1939. “Meu pai era suboficial do exército alemão, sargento”, lembra Karl Berg, que diz não ter tido muito contato com ele até 1950. Já Georg Busse se orgulha em dizer que o pai era o melhor mecânico de máquinas pesadas da região: “Era interessante, ele ganhava o maior salário da firma. E sempre queriam substituí-lo, colocavam um estagiário atrás do outro para ele ensinar. Mas ninguém conseguia montar uma máquina com a mesma precisão que meu pai. A solução, então, era aumentar seu salário de novo”. E o pai de Karla Berg era funcionário administrativo da prefeitura. “Ele não precisou se alistar no exército por que era muito importante para a cidade”, completa.
2º ato: Começa o conflito
Além de dominar a população, os líderes totalitários quiseram apoderar-se de outros países e regiões. E foi a ganância por territórios que iniciou a Segunda Guerra Mundial. Hitler, que já havia incorporado a Áustria, invadiu a Polônia em 1º de setembro de 1939. Por sua vez, Mussolini queria territórios para produção e fornecimento de alimentos, e ocupou países da África, como Líbia e Etiópia.

Divaldo Medrado, que até então trabalhava na livraria, precisou do certificado de reservista para continuar no emprego: “Fui até o Exército, mas quando cheguei lá, o Brasil já estava em guerra e não eram permitidas novas baixas”. Ele se inscreveu, então, no curso de formação de oficiais, já que possuía o ginásio. Incorporado ao 11º Regimento de Infantaria de São João del-Rei foi treinar no Rio de Janeiro, de onde partiram os navios General Meighs e General Mann levando dez mil soldados da Força Expedicionária Brasileira (FEB) para a Itália (era a segunda remessa de tropas). O desembarque foi em Nápoles, sul do país, onde podiam aportar grandes embarcações. Saíram 56 barcaças com destino a Livorno, onde foi instalado o comando de guerra em San Rossore, antigo campo de caça da família real italiana. Entre as ações táticas, fatos curiosos aconteciam: “Certa vez, estávamos fazendo uma instrução e passamos numa fazenda, caminhando em cima da horta de um fazendeiro, já idoso. Ele virou uma onça e veio para cima da gente ‘Son tutto delinquente’. Um sargento de minha companhia pegou a metralhadora e queria matá-lo. Mas eu interferi e disse: ‘Nós vamos é levar esse velho conosco. É muito valente, enfrentar um grupo armado!’. Demos alimentos para ele”.

Em 12 de dezembro de 1944 Divaldo foi ferido na cidade de Abetaia, durante a batalha de Monte Castelo. “Eu fiquei muito sentido de ter de abandonar o fronte e deixar os amigos lá”. Mesmo após ter levado 13 tiros no ombro, ele continuou combatendo por três horas, até que seu comandante ordenou que fosse ao posto médico, e depois, de volta ao Brasil. Aqui, passou a trabalhar como representante comercial e ajudou outros ex-combatentes por meio da Associação Nacional dos Veteranos da Força Expedicionária Brasileira, Seção Minas Gerais.
Do outro lado do mundo, em Okinawa, no Japão, Minoro Shimabukuro ouviu a notícia do ataque japonês à base norte-americana em Pearl Harbor, no Pacífico. “Não esperávamos por esse ataque e até nos assustamos. Mas pensamos: ‘Agora temos de lutar”. Antes de terminar o ginásio, Minoro prestou concurso para a Escola Militar Juvenil da Aeronáutica e iniciou o curso para formação de camicase da força aérea de ataque especial em Oita, na ilha de Kyushu, sul do país: “Eu queria ser aviador camicase. Dar a vida pelo país”.
Os norte-americanos avançaram sobre o arquipélago japonês, bombardearam aeroportos e lugares estratégicos. Até que em 6 de agosto de 1945 o avião B-29, apelidado de Enola Gay, lançou a bomba atômica sobre a cidade de Hiroshima. Três dias depois foi a vez de Nagasaki. “Só ficamos sabendo das bombas atômicas através do rádio e pelo comandante da aeronáutica que nos reuniu no pátio para dar a notícia. Ficamos um pouco chocados e pensamos ‘Será que vamos aguentar ainda?’”. Uma recomendação do governo dizia que os trens que passavam pelas regiões afetadas pelas bombas deviam ter as janelas fechadas, para que os passageiros não vissem a destruição. Em 15 de agosto de 1945 o Japão assinou a rendição incondicional. “Se o imperador Hirohito não tivesse assinado a rendição, mesmo com os ataques atômicos, nós teríamos lutado até o fim”. De volta ao Brasil, Minoro casou-se, teve quatro filhos. Trabalhou como técnico para a Usiminas por mais de trinta anos.

“Só eu sobrevivi. Fiquei sozinha, sem ninguém”. Com essas palavras, Chanah Flam, nossa personagem polonesa, mostra em resumo o que foi a perseguição aos judeus. Logo no início da Segunda Guerra as bombas caíram sobre a cidade de Pionki. “A gente teve de fugir para a floresta. Tínhamos medo de ficar lá e morrer”. Quando cessaram os bombardeios, em 1941, ela pôde voltar com a família para sua casa. Mas logo os soldados nazistas os levaram para Auschwitz-Birkenau, campo de concentração no sul da Polônia, onde foram selecionados. “Separavam jovens para a direita, velhos para a esquerda. Os doentes e idosos iam para a câmara de gás. Nós, jovens, fomos para o campo de trabalho em Oberschlesien (na divisa com a Alemanha)”. E foram marcados com números tatuados no braço, como o de Chanah, A-14972, que passou a usar, ao invés do nome. A vida nos campos era subumana. “Após uma semana Auschwitz não tinha mais espaço. Ficavam no beliche de sete a oito pessoas, encolhidas”. O frio também era um inimigo. “A gente usou sacos de cimento nas pernas, mas os soldados não deixavam. Tomávamos só sopa numa latinha. Quem não tinha a latinha, ficava com fome. De manhã recebíamos café, mas sem ser coado, com pó e tudo”.

Em dezembro de 1944, quando os russos começaram a forçar o recuo dos alemães, os prisioneiros foram levados de Auschwitz para o campo de Bergen-Belsen, na Alemanha. “Levaram-nos em vagões abertos. A neve caía sem parar. Não tinha comida nem água. A gente lambia o gelo”. Mas quando chegou ao novo destino, Chanah ficou doente, devido ao frio intenso: “Pensei ‘Agora vou morrer’. O médico limpou minha garganta, mas não adiantou”. A esperança chegou em abril de 1945 com a tropa inglesa que os libertou. E com a ajuda da Cruz Vermelha foi levada para tratamento na Suécia, onde conheceu o marido. Em seguida, partiu para o Brasil, onde já tinha familiares, levando o filho mais novo e grávida de seis meses.
Enquanto isso, na Alemanha, Karl Berg estava morando com a avó em Hermeskeil, próximo à sua cidade natal, quando viu seu pai partir para missões do exército nazista na Hungria, Tchecoslováquia, Grécia. A fome assolava o país quando a guerra chegou ao fim em maio de 1945. Os agricultores estavam no exército e não havia plantio. “As mulheres que ficaram passaram a trabalhar a terra, mas com pouco rendimento, pois era muito difícil. Os arados eram puxados por elas”. Mas houve um fato curioso ocorrido nesse período. Nas casas havia um extintor de incêndio composto por um balde e uma bomba manual com uma mangueira. Karl e seus amigos saíram pelas estradas por onde passavam as tropas norte-americanas em busca de jericans (galões) com resto de gasolina. Quando tinham o suficiente, enchiam o extintor de incêndio com o combustível. “Quando chegavam os comboios de caminhões norte-americanos, ficávamos escondidos no telhado e esguichávamos a gasolina sobre as lonas que cobriam alimentos e púnhamos fogo. Os americanos saíam correndo deixando tudo para trás. Então pegávamos tudo e fugíamos para a floresta”. Tempo depois, após trabalhar como eletricista, que lhe rendeu uma viagem a Veneza, na Itália, onde conheceu sua esposa Karla, Karl foi para universidade em Colônia. Formado em automação industrial, veio trabalhar no Brasil, onde se estabeleceu em Itabirito, Minas Gerais.
Nosso outro personagem alemão, Georg Busse, era muito jovem, mas lembra que seu pai era apolítico, e que em 1938 os amigos começaram a se preocupar com ele, pois nunca hasteava a bandeira nazista: “Eles diziam que ele teria problemas. Encheram tanto sua paciência que meu pai disse ‘Vou hastear a suástica no dia que meu filho nascer’. E assim o fez, mas como era 1º de maio era obrigatório o hasteamento e ninguém notou”.
O avanço russo sobre Berlim está vivo na memória de Georg. Sua residência em Blankenfelde foi ocupada por uma companhia do exército vermelho. “Como eram do interior da Sibéria, não tinham cultura. Parece mentira, mas não sabiam usar vaso sanitário. Fizeram as necessidades na sala, atrás do sofá, e usaram a água da privada para se lavarem. Ficaram uns quinze dias e quando foram embora, levaram tudo que tínhamos. Louça, prataria, tapete, tudo foi embora. A moto de meu pai foi amarrada sob o capô do caminhão. Até o sutiã de minha mãe ficou dependurado num barril na carroceria”. Sua família se mudou para o lado ocidental, onde ele se formou em engenharia de minas. Partiu, então, para trabalhar no Canadá, Haiti e por fim, recebeu convite para vir para Minas Gerais, em 1971, onde passou a viver na cidade de Congonhas.
Karla Renate Berg tinha 4 anos quando os russos estavam derrotando os nazistas e avançando para o oeste europeu. As pessoas tentavam fugir, mas os caminhos por terra estavam fechados. Só o mar estava livre, a partir do porto de Danzig. Seu pai não obteve permissão para deixar a cidade. Mas junto de sua mãe e irmã mais velha Ingrid, Karla conseguiu transporte num navio de carga com destino a Kiel (norte da Alemanha): “Eles formavam filas no porto, o que dificultava o ataque da marinha russa. Mas o nosso chegou a ser bombardeado e o motor pifou”. O navio parou então em Kolberg, Alemanha, para reparo. Quando chegaram à cidade de Rostock, Ingrid decidiu ficar por ali. “Minha irmã tinha 12 anos mais que eu. Ela pegou a mochila e saiu. Mamãe me pegou e fomos atrás”, recorda Karla. Mas como essa cidade já estava cheia de refugiados, seguiram então de trem para Wismar. “Lá, minha mãe conseguiu emprego numa fazenda”. Depois ficaram sabendo que o navio continuou a viagem até Kiel, mas afundou pouco antes, devido a minas subaquáticas.
O pai de Karla conseguiu fugir de Danzig num barco até Kiel. Chegando lá, procurou notícias da família, mas ficou sabendo do afundamento do navio. Ele foi então preso pelos ingleses e levado para trabalhar em Hannover. E o destino reservou mais um fato curioso. Ainda em Wismar, Ingrid ficou doente e com febre gritava o nome do pai. “Eles eram muito ligados. Quando nasci ele não ficou muito feliz, pois na época da guerra, eles preferiam homens. E meu pai sonhou que Ingrid o chamava, mas pensou: ‘Ela está morta”. Com essa dúvida na cabeça, ele seguiu de volta a Kiel, até a Cruz Vermelha, que, por sorte, já tinha informações da família. O reencontro aconteceu tempo depois e foram morar em Göttingen. Karla estudou desenho em Frankfurt. Após conhecer Karl, em Veneza, passaram a trocar correspondências. Vale citar um fato interessante. A família dele era católica e a dela, luterana. Então, os familiares não poderiam saber do namoro. Certa vez, quando Karla estava visitando o namorado em Colônia, o pai dele chegou para uma visita surpresa: “Ela foi amarrada em cima da minha cama retrátil, que foi colocada na posição vertical (fechada)”, conta Karl. Para aumentar a tensão, seu pai queria conhecer o dormitório dos estudantes e ficou de frente para a cama. “Disse que estava desarrumada”. Karla ficou nessa posição incômoda por pelo menos uma hora.
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