Editora Encontro
   
   
     


































 
  grutas
 
| Ana Elizabeth Diniz | Projeto pretende evitar o desaparecimento de uma das regiões de maior diversidade
paleontológica, arqueológica e espeleológica do mundo


Por dentro da nossa história

 
 

São 120 quilômetros de um percurso que começa no Museu de Ciências Naturais da Pontifícia Universidade Católica de Minas Gerais (PUC-MG), no bairro Dom Cabral, e termina em Cordisburgo, mais precisamente na gruta de Maquiné.

No caminho, o turista pode visitar as grutas Lapa do Baú, Lapa do Balé, Lapa Vermelha e o parque do Sumidouro, já criado, mas ainda no papel, o cemitério onde o paleontólogo dinamarquês Peter Lund foi enterrado e a gruta da Lapinha, tudo isso na região cárstica de Lagoa Santa. Em Sete Lagoas, a gruta Rei do Mato e seguindo o sertão afora, a beleza exuberante da mata e incontáveis nascentes e grutas.

 

 


roteiro turístico
Tudo começa no Museu
de Ciências Naturais
da PUC. Depois, passa
por grutas como a
da Lapinha e Maquiné
(foto maior), na
região de Lagoa Santa

 

 


Registros de um tempo que prenuncia o presente. Essa é a Linha Lund, um megaprojeto ainda embrionário e que quer vencer a morosidade da máquina pública para se consolidar como roteiro turístico de qualidade internacional e evitar a extinção da impactada área cárstica de Lagoa Santa.

Um dos idealizadores e defensor incansável dessa rota é Castor Cartelle, paleontólogo e curador do Museu de Ciências Naturais da PUC-Minas. “Fábricas de cimento, mineradoras, loteamentos, o aeroporto de Confins (só recentemente licenciado), o futuro anel rodoviário e o Centro Administrativo do estado são ameaças concretas à sobrevivência de uma área de importância científica, cultural, ambiental e histórica e de reconhecimento mundial. A população não tem até hoje a menor consciência sobre a beleza da região que abriga grutas, pinturas rupestres, mananciais e vestígios do nosso passado. Ou a população reage ou essa riqueza estará irremediavelmente perdida”, desabafa Cartelle.

A Linha Lund está sendo proposta como forma de proteger esse verdadeiro santuário, “o único nas Américas do Norte, Central e do Sul, que reúne três áreas de pesquisa continuada: a paleontologia, a arqueologia e a espeleologia. Tudo isso está ali, no quintal de Belo Horizonte”, argumenta o paleontólogo. O projeto está sendo analisado pelo Grupo de Governança do Vetor Norte de Belo Horizonte que estuda sua viabilidade, aspectos ambientais e operacionais. “Ele será encaminhado para apreciação do governador Aécio Neves no início deste ano”, garante o subsecretário de Ciência, Tecnologia e Ensino Superior de Minas, Octávio Elísio Alves de Brito.

O percurso sugerido de 120 quilômetros até Cordisburgo precisaria ser adequado para que a Linha Lund pudesse se tornar atrativa turisticamente. “Teríamos que pensar uma alternativa para desviar o fluxo pesado de caminhões. Lojas, centros de artesanato, cultura, lojas de conveniência e alimentação deverão ser criados em antigas casas que ainda resistem ao longo da estrada”, defende Cartelle.

A Linha Lund pretende ser um roteiro de nível internacional. O passeio pela história tem início no Museu de Ciências Naturais da PUC-MG que guarda fósseis raros do período pleistoceno, como 15 animais gigantes, entre eles, a preguiça, tatus, tigre de sabre, mastodontes e macacos, e ainda 25 esqueletos animais descobertos e restaurados por Lund.

Daí, o turista segue até Lagoa Santa para ver de perto o local onde o paleontólogo descobriu 14.642 fósseis de animais de 11 mil a 12 mil anos e que estão guardados na Dinamarca. Foi lá ainda que o biólogo Walter Alves Neves descobriu, nos anos 70, o fóssil humano mais antigo encontrado nas Américas, Luzia, com cerca de 11,5 mil anos e que deflagrou o questionamento sobre as teorias da origem do homem americano.

Seguindo até Matosinhos, o visitante vai conhecer o local onde o biólogo Walter Neves descobriu fósseis de 11 mil anos. Está previsto um pequeno museu para abrigar essas descobertas como forma de dissemiar conhecimento e disponibilizar essa rica cultura. De lá, viajando pelo sertão de Guimarães Rosa até chegar a Cordisburgo, o turista vai se encantar com as informações sobre a fauna e a flora locais. “Nossa intenção é melhor equacionar o museu de Guimarães Rosa, o Camões brasileiro, revitalizar o comércio local e criar o Centro do Registro da Vida de Cordisburgo com o levantamento de plantas, animais e minerais da região. Esse espaço vai abrigar ainda uma biblioteca com 280 escritos sobre paleontologia de mamíferos de Minas Gerais”, anima-se Cartelle.

E para finalizar, dentro da gruta de Maquiné seria criada toda uma atmosfera de magia, com raio laser que se acende e apaga através de controle remoto, ao mesmo tempo em que uma voz vai explicando as riquezas e raridades dessa caverna, considerada berço da paleontologia e que detém a mais alta classificação para o gênero em todo o mundo: três estrelas. No último salão uma escavação vai mostrar as camadas geológicas.

Qual o custo dessa empreitada? “Nenhum”, responde Cartelle com indignação. “Investir em cultura, preservar nosso patrimônio arqueológico, paleontológico e espeleológico não tem preço. Esse projeto vai atingir milhares de pessoas ao longo de décadas. Turistas estrangeiros vão viajar até Minas para conhecer uma riqueza rara em todo o mundo.”


   
   
 
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