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  comportamento
 
| Nayara Menezes |
Especialistas garantem: a pole dance, novo modismo lançado pela TV, reforça ainda mais a cultura machista


Sob Olhares Masculinos

 
 

No palco uma bela mulher se apresenta em trajes mínimos. Entre caras e bocas pra lá de insinuantes, ela rebola agarrada a uma barra de ferro. Homens boquiabertos aplaudem e pedem bis.
A cena da novela global Duas Caras, protagonizada pela atriz Flávia Alessandra, não só mexeu com a libido masculina como levantou discussões acaloradas e lançou modismos.

Milhares de mulheres do país inteiro lotam as aulas de pole dance, ou dança com a barra. Elas querem aprender os segredos da técnica que promete levar os homens à loucura. Psicólogos, sexólogos e sociólogos temem que essa seja mais uma maneira de reforçar o

pimenta na relação
Fátima Mourah,
professora de pole dance : “Um dos objetivos
das alunas é
surpreender o marido”

 

 

 

 

 


Mídia
Ao protagonizar a Alzira, Flávia Alessandra, subiu o ibope da novela global Duas Caras

 

 

 

 

 

 

 

 

 

 

 

 

 

 


 

machismo presente na sociedade. “Muitas vezes essas danças eróticas são uma forma de colocar a mulher no local que é dela. É como se implicitamente se dissesse que ela está ali para ser objeto de desejo do homem, para servir a ele sexualmente”, analisa Mônica Bara Maia, especialista em educação sexual.

Ela diz que a sedução da mulher sempre foi relacionada ao corpo, ao físico, enquanto a do homem está mais ligada ao lado material, ao poder provedor. “O homem geralmente se sente poderoso e sedutor quando está em um carrão. Já a mulher só se sente poderosa quando o olhar masculino se volta para ela, caso seja alvo de desejo, de cobiça”, compara.

O sexólogo Gerson Lopes, membro da Academia Internacional de Sexologia Médica, também vê com receio esses modismos. “Sou favorável à permissão sexual e à busca de novas formas de prazer, que quebrem a rotina do casal. No entanto, o que percebo na minha experiência de consultório é que, na maior parte das vezes, a grande motivação das mulheres na busca por essas novidades é a satisfação do parceiro e não delas próprias.” Para ele, as mulheres devem sim se liberar sexualmente, mas isso tem de representar a busca pelo prazer mútuo, o prazer dos dois e não apenas do outro. “Quando isso não acontece, ela acaba reforçando uma idéia de submissão feminina frente ao universo masculino”.

A personal sex trainer paulista e professora de pole dance, Fátima Mourah, garante que as mulheres procuram as aulas não só para satisfação do parceiro, mas também como forma de se liberarem sexualmente e “até de praticar atividade física, já que a dança é um ótimo exercício.” Mas a professora confessa que um dos objetivos das alunas é surpreender o marido, apimentar a relação.

Para Lopes, isso é um processo histórico e cultural. Em todas as formas de sexualidade é a mulher quem carrega o peso da responsabilidade. Segundo o sexólogo, ela é cobrada de prevenir o filho, tem que tomar anticoncepcional ou exigir o uso do preservativo. “Caso apareça uma gravidez indesejada, a culpa geralmente é dela”. Quando se trata de doença é também jogada para a mulher o papel de evitar. E por fim, a sexualidade voltada para o prazer, onde mais uma vez é ela quem é cobrada em criar, inventar e aprender novas formas de prazer. “A mulher sempre foi e continua sendo a responsável por tudo que envolva a sexualidade. É preciso mudar isso”, aponta.

Ou seja, mudar um comportamento que está impregnado na nossa cultura e história. Registros dão conta de que a dança já era usada há milênios como forma de sedução. A mais reconhecida para despertar o desejo masculino, a dança do ventre, surgiu há mais de sete mil anos. Na Idade Média, as cortesãs também ensaiavam passos para agradar seus amos.

Para a sexóloga Maria Helena Matarazzo, uma das responsáveis pela imagem supersexualizada da mulher nos dias de hoje é a mídia, que promove uma pornificação da cultura. “Essa cultura popular não é essencialmente um avanço para as mulheres em termos de liberdade e autonomia, não é abrir suas mentes para outras possibilidades da sexualidade, não é nem amor livre.

Muito pelo contrário, é um negócio essencialmente comercial, onde ser gostosa é a moeda de troca”, afirma. Mônica Bara Maia acrescenta que vivemos uma falsa idéia de liberação sexual feminina. “Basta analisarmos essas performances, como striptease e a pole dance. A mulher faz o jogo de sedução, mas na verdade, o homem não é um espectador passivo, é ele quem controla e domina. Caso ele responda de forma negativa, o jogo não se completará”, afirma.

A personal sex trainer Fátima Mourah afirma que a mídia influencia na legitimação de algumas mudanças de comportamento. “Muitas mulheres sempre tiveram vontade de fazer um striptease para o marido, mas só tomaram coragem após o filme com a Demi Moore”, conta. Ela diz que isso também ocorreu com a dança do ventre, na época da novela O Clone, e recentemente com a pole dance. “Quando a televisão ou o cinema colocam personagens, que não são prostitutas, fazendo essas performances e danças, as aulas logo ficam cheias.” Para se ter uma idéia, Fátima está com lista de espera de mulheres que querem aprender a dança.

E olha que não é um capricho que sai barato. Uma aula individual custa cerca de 150 reais. Os motéis que possuem barra para a prática da pole dance, também tiveram o movimento aumentado. Sinal de que, objetos de desejo ou não, boa parte das mulheres quer mesmo ingressar na nova moda. É como diz o velho jargão popular: “entre quatro paredes vale tudo”. Será?

   
   
 
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