
Hoje, agradeço sinceramente a Deus, por não ter sido eleito presidente em 2002. Numa conversa a sós com Lula este afirmou que compreendia o que eu estava dizendo porque
também agradecia a Deus não ter sido eleito em 1989

Alguns políticos brincaram
de produzir uma crise
num momento radioso
para o Brasil. O fim da
CPMF é um tiro no peito do governo Lula e no do país
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E, inclusive, vencendo o governador mineiro
Aécio Aos 50 anos, divorciado da também política Patrícia Saboya, pai de três filhos, casado atualmente com a atriz Patrícia Pilar, Ciro Gomes é um político inquieto.
Dono de raciocínio e intelecto invejáveis, munido de oratória sedutora, fumante contumaz, que devora dois maços de cigarros por dia, ele esteve recentemente em Belo Horizonte, onde proseou com a reportagem da Encontro sobre os mais variados temas.
A sucessão presidencial, claro, integra o cardápio da conversa, embora Ciro evite discorrer sobre nomes de possíveis candidatos no cenário da batalha eleitoral que se aproxima. Advogado, professor, com pós-graduação na conceituada universidade norte-americana de Harvard, Ciro Gomes lamenta profundamente o fim da CPMF e ataca as elites que não aceitam a distribuição de renda empreendida pelo governo do presidente Lula, de quem é, até o momento, um dos mais fiéis aliados.
Aguerrido defensor de programas sociais, ele odeia, sem papas na língua, políticas de matiz neoliberal. Ciente do clima de revolta que acomete setores expressivos da população brasileira com o ambiente de impunidade e as graves acusações de corrupção que assolam a vida pública brasileira, defende a punição exemplar a colegas envolvidos em denúncias comprovadas, mas chama a atenção para o que batiza de “exposição dúbia desta faceta podre e constrangedora da vida brasileira”, realizada por factóides criados pela mídia. Com vocês, a metralhadora giratória sem disfarces de Ciro Gomes.
ENCONTRO – Recente pesquisa do Datafolha apontou o senhor como forte candidato à sucessão presidencial, ficando atrás somente do governador de São Paulo, José Serra. Interessa-lhe a disputa pela presidência?
Gomes – Já fui candidato duas vezes e cultivo a franqueza. Este é um traço de que não abro mão em 50 anos de idade e 30 de vida pública. Dizer que, pura e simplesmente, não quero ser candidato seria insincero. Entretanto, também a experiência acumulada nesse período e nas duas candidaturas não me autoriza de forma prudente a assumir uma candidatura distante três anos das eleições, o que é temérario e irresponsável, na medida em que precipitar a sucessão agora atrapalha o Brasil e o presidente Lula, a quem sou solidário e quero ajudar. Há uma agenda grave no Brasil, embora o momento seja bom. É importante que a gente se concentre nas questões estruturais, não podemos depender da boa vontade de um homem extraordinário como o Lula. É preciso viver o dia, se mantendo decente e coerente, aprofundando o conhecimento dos problemas. E isto eu faço.
ENCONTRO – O senhor disputou duas eleições presidenciais, foi duas vezes ministro. Que lições extrai dessas experiências? É possível apontar erro de percurso nas tentativas de se eleger presidente?
Gomes – Sem dúvida, especialmente na segunda. Agradeço sinceramente a Deus, nas minhas preces íntimas, não ter sido eleito naquela ocasião. E é curioso que estivemos eu e o Lula sozinhos, nós dois, numa conversa muito comovente em que ele afirmou que compreendia claramente o que eu estava dizendo porque também agradecia a Deus não ter sido eleito em 1989. A circunstância me fez negar com veemência aquilo que considerava um itinerário de tragédia social, econômica e política que o marco neoliberal protagonizado contraditoriamente pelo governo de Fernando Henrique em seus dois termos representava para o país. Não tinha crença de que o PT, com quem sempre tive grandes afinidades no campo social, ético e político, pudesse dar conta de passar da crítica à assunção dos problemas concretos do país. Graças a Deus e para o bem do Brasil, eu estava errado e esta compreensão me impôs certa vaidade, certa arrogância, que só vim maturar amargamente depois. Foram lições amargas, mas que me deram paz de espírito, calma. Até fiz uma brincadeira recentemente, disse que estou mais madurinho.
ENCONTRO – Muitos eleitores o consideram um político carismático. Isto pode ser visualizado em seu poder de retórica. Qual é a importância do território da palavra no cotidiano do político?
Gomes – Depende. O palavrório rococó, barroco, bonitoso, que não expressa nada e não é sincero, é lixo. O que expressa certa comoção é quando a palavra é expressão visualizável no olho, nas mãos, no coração, no gesto, de uma idéia formada com convicção. Aí sim, a palavra tem força definitiva na política.
ENCONTRO – Recentemente, o governo perdeu a batalha da CPMF, imposto ao qual o senhor é favorável.
Que motivos o levaram a tomar essa postura de apoio?
Gomes – Aproveito a qualidade de sua pergunta e de sua publicação para uma ponderação. A CPMF merece crítica sob o ponto de vista técnico e tributário. Não é o melhor nem o pior tributo. Isso num país que cobra imposto de renda de 15% da classe média que, conseqüentemente, é obrigada a pagar dobrado para viver, porque não tem nada de volta do estado, precisa pagar plano de saúde porque não acredita na rede pública, paga educação privada aos 4 filhos porque não acredita na pública, anda com medo. Para eles, este é um tributo injusto. Não há defesa. Mas isso deve ser discutido no ambiente correto da reforma tributária. Este não é um laboratório, é um país. O modelo tributário tem de ser feito em transições, tirando aqui, pondo ali. Mas isto não foi colocado em discussão. O país pode ou não abrir mão de 43 bilhões de reais sem colocar nada no lugar? A resposta é não. Alguns políticos brincaram de produzir uma crise num momento radioso para o país, com o dobro do crescimento médio, com salários aumentando sua participação na renda nacional, com a informalidade caindo. Estamos próximos de 9 milhões de empregos com carteira assinada criados nos últimos cinco anos. O fim da CPMF é um tiro no peito do governo Lula e no do país.
ENCONTRO – O senhor defende programas sociais do governo Lula como o Bolsa Família, que sofrem ataques de opositores que não o vêem como projeto de geração e transferência de renda. Quais as razões desse medo de investir no social, que assola a política brasileira?
Gomes – É o conflito distributivo. É preciso tirar este véu retórico, o disfarce, o medo de assumir essa questão com clareza. Num país como o nosso, que não parou de crescer, a renda disponível praticamente não parou e estamos trazendo 2,7 milhões de jovens para o mercado de trabalho a cada ano, estamos ganhando em produtividade. No Brasil, infelizmente, trocamos gente por máquinas. Mas se isto é feito com a chegada de jovens a um mercado de trabalho em um ambiente de estagnação econômica, o conflito distributivo se intensifica dramaticamente. E, no Brasil, este conflito tem componentes selvagens.
ENCONTRO – Qual é a importância do filósofo Roberto Mangabeira Unger no seu processo de concepção do extrato político? É raro ver políticos no Brasil dialogando explicitamente com intelectuais...
Gomes – Ele é uma figura extraordinária. Na minha mente, é o brasileiro mais exuberante sob o ponto de vista intelectual. Nosso encontro foi um pouco isto. Eu tinha uma vida acadêmica incipiente, fui professor e era um precoce fazedor. Fui prefeito de Fortaleza muito cedo, fui o mais jovem governador do Brasil, eleito no Ceará com apenas 32 anos. Fui ministro da Fazenda com 36. Estava, naquele momento, com o saco cheio. Não queria, como ainda não quero, ser um político profissional, daqueles que vendem a alma para ficar por aí, mandato após mandato. Recebi convite para fazer um curso na universidade de Harvard, onde Unger estava. Foi um encontro maravilhoso em que chocamos nossas percepções em conversas sem fim. Tínhamos muitas afinidades e escrevemos um livro juntos (Próximo Passo: Uma Alternativa Prática ao Neoliberalismo), o primeiro a ser publicado na América Latina e a ousar naquela data, em 1995, sistematizar crítica ao neoliberalismo, apontando solução. Mas de uns tempos para cá, o Mangabeira me frustrou de forma dramática. Ele tem apetite político absurdo e, neste caso, é um desastre, o que é a prova da incompletude humana. Ele é um desastrado político, mas continua sendo meu amigo, um sujeito de grande generosidade.
ENCONTRO – A América Latina está sob os holofotes do mundo, devido ao temperamento explosivo do venezuelano Hugo Chávez. Que opinião tem a respeito dele?
Gomes – O livro que escrevi com Mangabeira Unger serviu de base e germinou um centro de estudos que reuniu políticos e intelectuais de centro-esquerda latino-americanos. Conheci o Chávez naquela época. Ele pediu para participar do grupo. Não deixamos porque, naquele período, duvidávamos da vocação democrática dele. Até que, hoje, respeito essa vocação, embora ache que ele tenha graves problemas de concepção do que seja democrático.
ENCONTRO – As recentes denúncias de corrupção ampliaram um clima crescente de indignação pela impunidade. Este é o maior mal do país?
Gomes – É preciso se indignar sim, colocar a boca no trombone. Não acho que exista exagero algum na denúncia dura, severa, das mazelas morais da sociedade brasileira e de seus políticos. Mas há exploração dúbia desta faceta podre e constrangedora da vida brasileira para fins aéticos, espúrios e antirrepublicanos. A tentativa é pegar o mau exemplo, fedorento, para tentar, insidiosamente, desqualificar a política como linguagem. É a idéia de que não há espírito público nem vida limpa e inteligente na política enquanto linguagem. Isto é um fenômeno mundial. O arquiconservadorismo precisa que a política como linguagem seja desmoralizada. Este é um elemento central do neoliberalismo, que precisa enfraquecer o estado e desmoralizar seus agentes. A corrupção é uma mazela grave. Mas mais grave do que ela é a hiperfragmentação na falta de ajuizamento das preocupações do estado. Mais grave é a fisiologia, que induz muitos parlamentares a entender sua função como tráfico de influências junto a colegas e instituições. O escândalo deve ser escandalizado, mas não é possível fazer com que a política seja entendida como mera novela.
ENCONTRO – Como vê o surgimento de factóides, intensificados pelo clamor midiático, como o movimento do Cansei?
Gomes – Existe também o industrial da ética, a questão do moralismo. Tive uma conversa recente, interessante, sobre isto, com o Fernando Gabeira. De repente, ele se desencantou da política como abstração e resolveu prestar contas aos seus admiradores e eleitores no Rio e no Brasil como uma espécie de chicote moral da nação. E só faz isto. E fico preocupado com a falta que faz o Gabeira no debate ambiental, em que ele é protagonista pioneiro e importante. Em 1964, eu tinha apenas sete anos. E o movimento de 64 foi feito em cima de valores entre os quais a moralidade, a tradição, as passeatas, com os jornalões apoiando. E deu no que deu.
ENCONTRO – Este espectro ainda nos ronda?
Gomes – Não, a sociedade está mais sólida. Moralidade é uma coisa. Ética é uma premissa, não um fim.
ENCONTRO – O Brasil encontrou grande reserva de petróleo no litoral paulista. A descoberta foi alardeada como decisiva para que o país se torne exportador do combustível. Não seria cedo demais para tamanho otimismo?
Gomes – Por que não comemorar? De onde vem este complexo de vira-lata? O povo pode compartilhar desta sensação de otimismo. O fato de termos boa notícia não irá esconder as más.
ENCONTRO – Quando surgiu há alguns anos, o Mercosul foi propalado como a grande chance de sobrevivência e resistência econômica diante da intensificação do processo de globalização. Do modo como funciona, o Mercosul é eficaz?
Gomes – Sem dúvida. Temos alguns problemas graves, que são as assimetrias brutais que persistem nas economias do Brasil, do Uruguai e também na Argentina, após os experimentos trágicos da era Menem. O Brasil é a 15ª economia industrial do mundo, é uma potência agropastoril. Mas ainda é cedo para evoluirmos em direção a um mercado comum, como é o europeu. O Brasil tem protagonismo nato, generosidade e capacidade de diálogo para ajudar na consolidação disso. O Brasil exporta para o Mercosul 17% a 18% de suas remessas mundiais. O mercado norte-americano que, já foi metade das nossas exportações, hoje representa apenas um quarto. Não carregamos todos os ovos numa mesma cesta.
ENCONTRO – O senhor acredita que Lula não quer mesmo nem ouvir falar de um terceiro mandato?
Gomes – Não creio que Lula pense em um terceiro mandato neste momento. O que acho fundamental é discutir os rumos do país. É preciso melhorar o nível da educação. Todos os rumos da vida social e econômica estão bons, menos os da educação, no quantitativo e no qualitativo. Se outrem melhor do que eu for o encarregado, desejo sorte. E eu falei outrem, para não falar outro nem outra – quem sabe está na hora de o Brasil ter uma mulher como presidente. Mas não cito nomes. No momento, qualquer nome é prematuro. O importante é a estratégia para se ter um país melhor.
ENCONTRO – O senhor é ferrenho defensor da transposição do São Francisco. Quais as razões que o levam a esta defesa?
Gomes – Isto é um projeto antigo, porque o nordeste setentrional, aonde eu vivo e fui formado, onde não teorizo, mas vivencio, tem um terço do mínimo necessário de água per capita que o padrão das Nações Unidas indica. Não por acaso, é daí que vem o fato do maior fenômeno migratório. O ciclo da seca é a realidade grave e a hiperurbanização é um fenômeno nordestino muito grande. Olhando concretamente as alternativas técnicas de solução e, empiricamente, desde o tempo de dom Pedro I, o único manancial com disponibilidade de água sobrando por perto é o rio São Francisco.
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