Ele diminuiu o ritmo
intenso de trabalho. Quer focar apenas no mercado de moda. Assim, o cabeleireiro e maquiador Bruno Cândido começou a ter aulas de línguas em casa e uma agenda com menos clientes. Em 2008 quer se aprimorar no
exterior

Margaret Marinho, empresária e designer gráfico, mudou a estrutura de sua empresa para começar a desfrutar dos finais de semana e das tão sonhadas viagens de férias
em 2008

O publicitário Ildeu Paulo
de Souza Filho pediu demissão de uma grande empresa para ter seus próprios clientes em casa. A boa qualidade de vida
proporcionou o
desenvolvimento do dom
musical. Tem sua própria banda, a Confusion, e o ano novo chega com tempo
para os ensaios

Para Tarso Firace,
filósofo e escritor, um programa para o ano novo é uma coisa mais séria e precisa ser encarado melhor, ou então as decisões se vão como as bolinhas de champanhe

Depois de anos sem o mínimo controle dos seus horários, a consultora de moda Fabiana Drummond de Aragão se
prometeu trabalhar menos para ter tempo de fazer sua meditação diária e ioga duas vezes por semana
|
|
|
modo o mundo está dividido entre aqueles que têm oportunidades e que estão sob grande pressão para mantê-las e aqueles que não têm e procuram agarrar todas as que se apresentam. “Outra questão importante é o gosto pela vida acelerada. Estou acelerado, logo existo”, diz Pires. Até que uma hora estar sempre acelerado demais acaba não parecendo vida de verdade.
Aí vem o grito: pára o mundo que eu quero descer! E na contramão da vida moderna, vem a corajosa determinação: no próximo ano quero menos! A administradora de empresas Fabiana Drummond de Aragão foi uma que tomou esta decisão. Ela quer engravidar em 2008, e acha que para isso acontecer tem que mudar a rotina. “Hoje meus horários dependem da agenda do cliente, já que trabalho com assessoria de moda de lojas de todo o Brasil”, conta. Assim, ela se prometeu na noite de réveillon tirar algumas horas por dia para si mesma em 2008. “Quero fazer meditação todos os dias e ioga duas vezes por semana.”
Tomar as decisões adequadas no início do ano não basta. Boas intenções também não. “Elas povoam nossa mente, mas se vão como as bolinhas de champanhe. Um programa para o novo ano é coisa mais séria e precisa ser encarado melhor”, assim acha o filósofo e estudioso de física e astrofísica paulistano Tarso Firace. “É um renascer, como aconteceu comigo: já estou colhendo os frutos da mudança. Estou desintoxicando o empresário que fui por décadas e me pego a cada dia aprendendo algo novo que me faz bem”. Firace foi diretor da Federação das Indústrias do Estado de São Paulo (Fiesp), e hoje se dedica a escrever, compor e tocar piano e cello. Ele diz que o cérebro calejado com o ritmo frenético demora algum tempo para aceitar a mudança. “É preciso perseverança e paciência.”
É isso ou simplesmente pifar! Tique nervoso, má postura, falta de atividade física, pouca convivência com a família, poucas horas de sono e abandono dos amigos. Tudo isso foi acontecendo com Margaret Marinho, designer gráfica, sem que ela percebesse. “Sempre achei que tinha excesso de energia”, diz. Aos poucos, a enorme estrutura de sua empresa de webdesign foi sendo repensada, terceirizou alguns serviços, e assim, começou a ter tempo para reencontrar os amigos, dormir, fazer massagem e ir ao salão de beleza. Para 2008 ela se prometeu o que não faz há seis anos: viajar de férias. Neste mês de janeiro está indo a Punta del Leste, em março para o Canadá e em abril para a Índia. “Não vou parar de trabalhar, mas vou escolher melhor os meus projetos”.
O psicanalista da Escola Brasileira de Psicanálise e professor da Universidade Fumec, Sérgio Laia, diz que não basta nos dedicarmos ao ócio ou aos prazeres da vida porque, especialmente em nosso mundo, tal dedicação logo pode virar nova forma de obrigação, novo estresse. “Uma mudança se processa quando, diante de nossa ânsia pela satisfação, abre-se uma brecha para a pergunta: ‘É isso mesmo que desejo?’” Tentando responder isso, Bruno Cândido, maquiador e cabeleireiro mudou radicalmente de vida.
Isabeli Fontana, Ellen Jabour, Daniella Sarayba e atrizes de renome como Alinne Moraes e Silvia Pfeifer são algumas das celebridades que já passaram pelas suas mãos. Para conciliar seu antigo salão e trabalhos de moda ele viveu uma vida louca nos últimos seis anos. “Acordava às cinco da 4 manhã e almoçava um sanduíche entre um trabalho e outro, dentro do carro mesmo. Atendia mais de 20 pessoas durante a tarde e quando chegava em casa ainda tinha que fazer a produção para o dia seguinte. Tudo entre BH e São Paulo”, conta.
A vontade de Cândido era focar no mercado da moda, e planejava fazer isso em 2008, mas a mudança começou antes. Saiu do salão e está tendo aulas de línguas em casa para voltar a estudar em Paris, Milão e Londres. Enquanto a viagem não se realiza, sua casa acabou sendo o local para atender as clientes mais fiéis, com a agenda controlada por ele. Agora tem tempo de ir à academia, luxo que não se permitia. “O trabalho diminuiu, sei que é um risco, pois as pessoas sempre querem tudo na hora, mas confio que vai ser pro meu melhor”, pondera.
Afinal, se não existir equilíbrio, como vamos desfrutar do que conquistamos? Assim se sentiu Ildeu Paulo de Souza Filho, redator publicitário, sem tempo nem para gastar o dinheiro que ganhava na já bem-sucedida carreira. A ficha caiu há um ano, quando começou a perceber que o mercado nessa área em Minas Gerais – depois do Valerioduto – deu uma caída muito grande. “Profissionais bons não eram valorizados, muita gente boa estava desempregada, agências consolidadas diminuíram os salários e as grandes contas pararam de vir a Belo Horizonte. A partir daí o trabalho, no meu modo de ver, começou a ser feito da forma errada. Pedi demissão”, conta Ildeu.
Ele diz que no início foi muito árdua a adaptação. “O dinheiro dá uma sumida e temos que controlar muito mais o que gastamos, mas tive outros ganhos”. Ildeu agora tem horários mais flexíveis, trabalhando em casa: os próprios clientes o procuraram. Montou um estúdio para desenvolver um dom, que sempre ficava de lado. “Já tenho uma banda formada que mistura jazz, rock, baião e música latina e Confusion. Em 2008 poderemos intensificar os ensaios e as apresentações. Esse ganho só prova que podemos fazer as coisas de outra forma, sem perder a qualidade do trabalho nem da nossa vida”. E só assim, junto com Ildeu, Fabiana, Bruno, Tarso e Margaret poderemos genuinamente desejar feliz 2008, 2009, 2010, 2011... Sem pressa.
|