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    Julho - 2003 - Ano II - nº 17 Anuncie na Encontro Fale Conosco Receba a Encontro
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“A SOCIEDADE AGE COMO SE A PESSOA TIVESSE A DEPRESSÃO BIPOLAR PORQUE QUER”

Zuleide Abijaodi, psicanalista, psiquiatra
e diretora da Clínica Central Psíquica



































 

 

 

 

 

 

 

 

 

 

 

 

 

 

 

 

 

 

 

 

 


 

 

 











O professor de inglês,
Estêvão Gomes: “A
impressão que tenho é que a doença pode se manifestar a partir do nada”

 

ENCONTRO SAÚDE


CRISE DE IDENTIDADE

Euforia ou melancolia; alegria histérica ou depressão profunda; socialização ou solidão. Assim se caracterizam as faces extremas de um depressivo bipolar

DANIELE HOSTALÁCIO

Comportamentos antagônicos, mas que juntos compõem uma das doenças mais antigas na história da humanidade, e uma das mais cruéis: o transtorno ou depressão bipolar. Diferentemente da clássica depressão, mais facilmente diagnosticada, a bipolar caracteriza-se por quadros alternantes de mania e depressão. O humor do indivíduo é alterado e oscila como um pêndulo entre dois extremos: a mais profunda tristeza, e o mais arrebatador entusiasmo. E não é difícil imaginar o que a alternância desses dois quadros pode provocar num indivíduo. Trata-se de uma doença que, se não for tratada, pode se tornar incapacitante, dados os momentos desesperadores, próprios da depressão, e os momentos de perda da realidade provocados pela mania.

Estigmatizada, como toda doença psíquica, a depressão bipolar atinge crianças, jovens, adultos e idosos, sem distinção. De acordo com a psicanalista e psiquiatra Zuleide Souza Carmo Abijaodi, diretora da Clínica Central Psíquica, as primeiras referências médicas a esse distúrbio mental remontam ao ano 430 a.C., quando Hipócrates cunhou os termos mania e melancolia. Em 1896, outro estudioso da saúde mental, Kraepelin, agrupou todos os sintomas da doença sob o nome de Psicose Maníaco-Depressiva (PMD), denominação que nos últimos anos tem sido substituída pela de transtorno bipolar.

Os sintomas da doença são variados e se distinguem de acordo com o quadro em que a pessoa se encontra. A mania é caracterizada pela euforia, pela elevação do nível de humor do indivíduo. Os sinais são muitos: aumento da capacidade e da velocidade da atividade física e mental, provocando inquietação no sujeito; aumento da energia e das atividades em geral; sentimentos marcantes de bem-estar e eficiência física e mental; aumento da atividade sexual; irritabilidade e comportamento ameaçador, oriundos de sentimentos de onipotência. "Outro forte sintoma da mania é o humor alegre. A sociabilidade aumenta, o indivíduo fala demais e cria uma familiaridade rápida e excessiva com os outros. Ele fica próximo das pessoas, ao mesmo tempo em que fica grosseiro, sem pudores e limites para dar más respostas", explica Zuleide.

O quadro da mania pode, eventualmente, ser acompanhado de sintomas psicóticos, quando a pessoa será atingida por alucinações e idéias deliróides de grandeza. No momento da psicose, o sujeito sofre os chamados colapsos, os surtos psicóticos, e estará visivelmente alterado, fora da realidade, num quadro que pode ser confundido com a manifestação de outra psicose, a esquizofrenia. Os colapsos são uma passagem para a loucura.

A outra face do transtorno bipolar é a da melancolia, na qual o indivíduo é dominado por um conjunto de sintomas conhecidos como típicos das depressões clássicas: idéias de culpa, de ruína e de hipocondria; humor deprimido; perda de interesse e prazer nas coisas; auto-estima e autoconfiança reduzidas; sentimentos de inutilidade; desânimo; e pessimismo em relação ao futuro. A energia é reduzida, por isso a pessoa sente cansaço marcante mesmo após esforços leves. Outros dois importantes sintomas são as idéias e os hábitos autodestrutivos. "O suicídio é um risco sério nessa fase. A maioria deles ocorre durante quadros depressivos do transtorno bipolar", alerta a psiquiatra.

Sono perturbado e diminuição do apetite e da capacidade de concentração são comportamentos comuns aos dois quadros. "A vigília é uma seqüência de imagens desconectadas e sem sentido. Os sentidos abandonam lentamente a pessoa em depressão", afirma sobre a disfunção bipolar o escritor norte-americano Andrew Solomon. Autor de O Demônio do Meio-Dia – Uma Anatomia da Depressão, vencedor do prêmio nacional do livro nos Estados Unidos em 2001, Andrew mergulhou no estudo da depressão após ter vivenciado a doença. Na obra, além do relato de sua experiência pessoal, ele aborda aspectos históricos, psicológicos, filosóficos, sociais e médicos da depressão, dedicando parte da sua abordagem ao transtorno bipolar.

O livro traz inúmeros depoimentos de pessoas que tiveram as vidas estilhaçadas pela depressão. Um dos aspectos apontados como críticos para o doente bipolar é o preconceito. "As pessoas em geral são muito cruéis em relação ao sofrimento psíquico alheio. O doente é colocado à margem, e a sociedade age como se a pessoa tivesse depressão porque quer”, esclarece Zuleide. Segundo ela, são vários os casos de pessoas que perdem o emprego quando as empresas tomam conhecimento de que sofrem de depressão bipolar. No entanto, na maioria dos casos a pessoa volta normalmente à vida produtiva, a partir de acompanhamento médico e da combinação de medicamentos.

De modo geral, o indivíduo procura se resguardar do estigma escondendo a doença. A amigos, colegas de trabalho, vizinhos e parentes, até onde é possível, o PMD e sua família escondem as crises. O político Ulisses Guimarães é um dos raros e notórios casos de um brasileiro famoso, portador de depressão bipolar, que foi a público declarar a doença. Em outros países, ao contrário, assumir publicamente a PMD tem se tornado um corajoso gesto que visa a combater o preconceito. Em entrevistas, artigos ou biografias, a lista de pessoas que compartilharam com a sociedade a doença é extensa, e inclui nomes como os do cineasta Francis Ford Coppola, o músico Tom Waits e os atores Jean-Claude van Damme e Jim Carry.

As mais diferentes abordagens médicas, psicanalísticas e psicológicas ainda não conseguem precisar o que serve como estopim para uma primeira crise de PMD. Mas já existe uma espécie de consenso na idéia de que alguns eventos da vida – positivos ou negativos – podem ser desencadeadores do transtorno. De modo geral, são situações estressantes. "Perdas de todos os tipos: de familiares, financeiras, de emprego, além de traições, fins de namoro, separações, ou mudanças importantes na vida do indivíduo", explica Zuleide. Sabe-se, ainda, que a hereditariedade é um forte traço da doença. Se um pai ou uma mãe apresentar o transtorno, a incidência da disfunção em um dos filhos dessa família é de 12%. "Quando um gêmeo univitelino sofre de transtorno bipolar, a chance de que o outro gêmeo também possua é altíssima, de 96%", acrescenta.

Quanto à medicação, o cerne do tratamento é o uso de remédios reguladores de humor. Entre outros, a substância lithium é a mais usual. Mas o uso desses reguladores pode ser associado a outros medicamentos, como antidepressivos, no caso do quadro depressivo; sedativos, para o quadro da euforia; antipsicóticos, nos episódios de surto; e soníferos, para o caso das insônias. Esses medicamentos são combinados de acordo com a avaliação de cada paciente, pois há o risco de uma virada de quadro quando da administração de alguns deles. O uso de antidepressivos, por exemplo, pode desencadear a mania, o que torna a depressão bipolar mais difícil de ser controlada. Daí a necessidade de acompanhamento psiquiátrico permanente.

Se possível, o paciente deve fazer também psicoterapia, para tomar consciência das causas que desencadeiam as crises. "É fundamental, ainda, que o tratamento seja seqüencial, continuado. Só assim o uso dos medicamentos poderá ser aos poucos diminuído", sugere. Buscar atividades recreativas, como terapia ocupacional, é uma outra maneira de ajudar o indivíduo na sua integração à vida social e na adequação do seu humor à normalidade.

MORTE EM VIDA

"Foi uma experiência penosa. Quando eu estava na fase da melancolia, da tristeza, se tivesse um dia em que não pensasse em suicídio seria exceção. Só sentia vontade de morrer, além de uma apatia generalizada", declara Estêvão Gomes da Silveira, professor de inglês, de 40 anos de idade, que há 12 anos vivenciou a primeira experiência com a depressão bipolar. A manifestação da doença aconteceu quando ele acabava de chegar dos Estados Unidos, onde morava. "Meu pai havia sido diagnosticado com câncer e, na ocasião, deram apenas seis meses de vida a ele. Por isso decidi voltar ao Brasil", lembra. A mudança repentina na vida, a iminência da morte do pai, ou algo mais que Estêvão não sabe precisar, o conduziram aos sintomas da PMD. "Já na minha primeira semana de volta ao Brasil meus familiares começaram a perceber mudanças no meu comportamento. Eu falava muito, não dormia e sentia como se não precisasse dormir. Estava muito agitado", relata.

Introduzido nos labirintos de uma doença psíquica, o primeiro quadro com que Estêvão se deparou foi o da mania. Levado a um profissional de saúde mental, que na ocasião não o diagnosticou como vítima de uma depressão bipolar, Estêvão foi conduzido ao mundo dos medicamentos. "Fiquei impregnado desses remédios durante dois anos. Minha vida era praticamente vegetativa. Engordei muito, sentia-me fraco, meus membros superiores ficaram enrijecidos. Eu precisava de pessoas para me alimentar e me dar banho, tamanho o efeito dos medicamentos sobre mim."

Um neurologista o salvou da impregnação. "Ao chegar ao consultório ele viu o meu estado, provocado pelo uso dos medicamentos. Meus olhos estavam estagnados, sem brilho", conta. Mas como a depressão bipolar não havia ainda sido diagnosticada, o uso de outros medicamentos – antidepressivos – desencadeou a mania e acelerou a ocorrência da primeira grande crise, o primeiro colapso, que se caracteriza por uma fuga total da realidade. "Foi minha primeira internação". Na clínica onde esteve internado, o diagnóstico, também incorreto, foi de esquizofrenia.

O diagnóstico definitivo de depressão bipolar só aconteceu anos depois, quando ele morava novamente nos EUA e teve outro colapso, durante as férias. Estêvão trabalhava em uma companhia aérea norteamericana quando começou a manifestar os sintomas do transtorno. "Durante as férias tive um episódio de crise e acabei sendo internado. Nesse momento, fui diagnosticado como bipolar. Fiquei seis meses de licença. Quando retornei, fui demitido. Ficou claro que o motivo era a doença. Fui vítima de preconceito, pois eu tinha condições de retomar a vida produtiva, encontrava-me estável, tomando medicamentos, e o desemprego só me fez sentir pior.”

Uma das atitudes dele hoje, face à depressão bipolar, é estudar a doença. "Eu leio e procuro me informar ao máximo sobre ela, é algo que me faz bem e é importante". Em sua investigação sobre a própria biografia, ele descobriu que a questão genética é um importante fator desencadeador da doença. "Tempos depois soube que minha avó materna se suicidou e apresentava sintomas parecidos com os da depressão bipolar", conta.

Estevão também decidiu não esconder a doença, assumi-la sempre que necessário ou questionado e lutar para vencer o preconceito. "Estou processando a companhia que me demitiu", conta. Hoje, Estêvão tem consciência de que precisa fazer uso permanente de medicamentos. Está numa fase estável, mas vive a angústia de conviver com a iminência de novos colapsos. "A impressão que tenho é que a doença pode se manifestar ou não a partir do nada. E quando se manifesta, é incapacitante. Durante as fases melancólicas, eu não me sentia apenas apático. Vivi uma experiência de dor. Cheguei ao fundo do poço. Eu não cometi suicídio, mas o que vivi não deixa de ser uma morte em vida."

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