
“A
SOCIEDADE AGE COMO SE A PESSOA TIVESSE A DEPRESSÃO
BIPOLAR PORQUE QUER”
Zuleide Abijaodi, psicanalista, psiquiatra
e diretora da Clínica Central Psíquica
O professor de inglês,
Estêvão Gomes: “A
impressão que tenho é que a doença
pode se manifestar a partir do nada”
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ENCONTRO SAÚDE
CRISE
DE IDENTIDADE
Euforia
ou melancolia; alegria histérica ou depressão
profunda; socialização ou solidão.
Assim se caracterizam as faces extremas de um depressivo
bipolar
DANIELE HOSTALÁCIO
Comportamentos antagônicos, mas que juntos compõem
uma das doenças mais antigas na história
da humanidade, e uma das mais cruéis: o transtorno
ou depressão bipolar. Diferentemente da clássica
depressão, mais facilmente diagnosticada, a bipolar
caracteriza-se por quadros alternantes de mania e depressão.
O humor do indivíduo é alterado e oscila
como um pêndulo entre dois extremos: a mais profunda
tristeza, e o mais arrebatador entusiasmo. E não
é difícil imaginar o que a alternância
desses dois quadros pode provocar num indivíduo.
Trata-se de uma doença que, se não for
tratada, pode se tornar incapacitante, dados os momentos
desesperadores, próprios da depressão,
e os momentos de perda da realidade provocados pela
mania.
Estigmatizada, como toda doença psíquica,
a depressão bipolar atinge crianças, jovens,
adultos e idosos, sem distinção. De acordo
com a psicanalista e psiquiatra Zuleide Souza Carmo
Abijaodi, diretora da Clínica Central Psíquica,
as primeiras referências médicas a esse
distúrbio mental remontam ao ano 430 a.C., quando
Hipócrates cunhou os termos mania e melancolia.
Em 1896, outro estudioso da saúde mental, Kraepelin,
agrupou todos os sintomas da doença sob o nome
de Psicose Maníaco-Depressiva (PMD), denominação
que nos últimos anos tem sido substituída
pela de transtorno bipolar.
Os sintomas da doença são variados e se
distinguem de acordo com o quadro em que a pessoa se
encontra. A mania é caracterizada pela euforia,
pela elevação do nível de humor
do indivíduo. Os sinais são muitos: aumento
da capacidade e da velocidade da atividade física
e mental, provocando inquietação no sujeito;
aumento da energia e das atividades em geral; sentimentos
marcantes de bem-estar e eficiência física
e mental; aumento da atividade sexual; irritabilidade
e comportamento ameaçador, oriundos de sentimentos
de onipotência. "Outro forte sintoma da mania
é o humor alegre. A sociabilidade aumenta, o
indivíduo fala demais e cria uma familiaridade
rápida e excessiva com os outros. Ele fica próximo
das pessoas, ao mesmo tempo em que fica grosseiro, sem
pudores e limites para dar más respostas",
explica Zuleide.
O quadro da mania pode, eventualmente, ser acompanhado
de sintomas psicóticos, quando a pessoa será
atingida por alucinações e idéias
deliróides de grandeza. No momento da psicose,
o sujeito sofre os chamados colapsos, os surtos psicóticos,
e estará visivelmente alterado, fora da realidade,
num quadro que pode ser confundido com a manifestação
de outra psicose, a esquizofrenia. Os colapsos são
uma passagem para a loucura.
A outra face do transtorno bipolar é a da melancolia,
na qual o indivíduo é dominado por um
conjunto de sintomas conhecidos como típicos
das depressões clássicas: idéias
de culpa, de ruína e de hipocondria; humor deprimido;
perda de interesse e prazer nas coisas; auto-estima
e autoconfiança reduzidas; sentimentos de inutilidade;
desânimo; e pessimismo em relação
ao futuro. A energia é reduzida, por isso a pessoa
sente cansaço marcante mesmo após esforços
leves. Outros dois importantes sintomas são as
idéias e os hábitos autodestrutivos. "O
suicídio é um risco sério nessa
fase. A maioria deles ocorre durante quadros depressivos
do transtorno bipolar", alerta a psiquiatra.
Sono perturbado e diminuição do apetite
e da capacidade de concentração são
comportamentos comuns aos dois quadros. "A vigília
é uma seqüência de imagens desconectadas
e sem sentido. Os sentidos abandonam lentamente a pessoa
em depressão", afirma sobre a disfunção
bipolar o escritor norte-americano Andrew Solomon. Autor
de O Demônio do Meio-Dia – Uma Anatomia
da Depressão, vencedor do prêmio nacional
do livro nos Estados Unidos em 2001, Andrew mergulhou
no estudo da depressão após ter vivenciado
a doença. Na obra, além do relato de sua
experiência pessoal, ele aborda aspectos históricos,
psicológicos, filosóficos, sociais e médicos
da depressão, dedicando parte da sua abordagem
ao transtorno bipolar.
O livro traz inúmeros depoimentos de pessoas
que tiveram as vidas estilhaçadas pela depressão.
Um dos aspectos apontados como críticos para
o doente bipolar é o preconceito. "As pessoas
em geral são muito cruéis em relação
ao sofrimento psíquico alheio. O doente é
colocado à margem, e a sociedade age como se
a pessoa tivesse depressão porque quer”,
esclarece Zuleide. Segundo ela, são vários
os casos de pessoas que perdem o emprego quando as empresas
tomam conhecimento de que sofrem de depressão
bipolar. No entanto, na maioria dos casos a pessoa volta
normalmente à vida produtiva, a partir de acompanhamento
médico e da combinação de medicamentos.
De modo geral, o indivíduo procura se resguardar
do estigma escondendo a doença. A amigos, colegas
de trabalho, vizinhos e parentes, até onde é
possível, o PMD e sua família escondem
as crises. O político Ulisses Guimarães
é um dos raros e notórios casos de um
brasileiro famoso, portador de depressão bipolar,
que foi a público declarar a doença. Em
outros países, ao contrário, assumir publicamente
a PMD tem se tornado um corajoso gesto que visa a combater
o preconceito. Em entrevistas, artigos ou biografias,
a lista de pessoas que compartilharam com a sociedade
a doença é extensa, e inclui nomes como
os do cineasta Francis Ford Coppola, o músico
Tom Waits e os atores Jean-Claude van Damme e Jim Carry.
As mais diferentes abordagens médicas, psicanalísticas
e psicológicas ainda não conseguem precisar
o que serve como estopim para uma primeira crise de
PMD. Mas já existe uma espécie de consenso
na idéia de que alguns eventos da vida –
positivos ou negativos – podem ser desencadeadores
do transtorno. De modo geral, são situações
estressantes. "Perdas de todos os tipos: de familiares,
financeiras, de emprego, além de traições,
fins de namoro, separações, ou mudanças
importantes na vida do indivíduo", explica
Zuleide. Sabe-se, ainda, que a hereditariedade é
um forte traço da doença. Se um pai ou
uma mãe apresentar o transtorno, a incidência
da disfunção em um dos filhos dessa família
é de 12%. "Quando um gêmeo univitelino
sofre de transtorno bipolar, a chance de que o outro
gêmeo também possua é altíssima,
de 96%", acrescenta.
Quanto à medicação, o cerne do
tratamento é o uso de remédios reguladores
de humor. Entre outros, a substância lithium é
a mais usual. Mas o uso desses reguladores pode ser
associado a outros medicamentos, como antidepressivos,
no caso do quadro depressivo; sedativos, para o quadro
da euforia; antipsicóticos, nos episódios
de surto; e soníferos, para o caso das insônias.
Esses medicamentos são combinados de acordo com
a avaliação de cada paciente, pois há
o risco de uma virada de quadro quando da administração
de alguns deles. O uso de antidepressivos, por exemplo,
pode desencadear a mania, o que torna a depressão
bipolar mais difícil de ser controlada. Daí
a necessidade de acompanhamento psiquiátrico
permanente.
Se possível, o paciente deve fazer também
psicoterapia, para tomar consciência das causas
que desencadeiam as crises. "É fundamental,
ainda, que o tratamento seja seqüencial, continuado.
Só assim o uso dos medicamentos poderá
ser aos poucos diminuído", sugere. Buscar
atividades recreativas, como terapia ocupacional, é
uma outra maneira de ajudar o indivíduo na sua
integração à vida social e na adequação
do seu humor à normalidade.
MORTE EM VIDA
"Foi uma experiência penosa. Quando eu estava
na fase da melancolia, da tristeza, se tivesse um dia
em que não pensasse em suicídio seria
exceção. Só sentia vontade de morrer,
além de uma apatia generalizada", declara
Estêvão Gomes da Silveira, professor de
inglês, de 40 anos de idade, que há 12
anos vivenciou a primeira experiência com a depressão
bipolar. A manifestação da doença
aconteceu quando ele acabava de chegar dos Estados Unidos,
onde morava. "Meu pai havia sido diagnosticado
com câncer e, na ocasião, deram apenas
seis meses de vida a ele. Por isso decidi voltar ao
Brasil", lembra. A mudança repentina na
vida, a iminência da morte do pai, ou algo mais
que Estêvão não sabe precisar, o
conduziram aos sintomas da PMD. "Já na minha
primeira semana de volta ao Brasil meus familiares começaram
a perceber mudanças no meu comportamento. Eu
falava muito, não dormia e sentia como se não
precisasse dormir. Estava muito agitado", relata.
Introduzido nos labirintos de uma doença psíquica,
o primeiro quadro com que Estêvão se deparou
foi o da mania. Levado a um profissional de saúde
mental, que na ocasião não o diagnosticou
como vítima de uma depressão bipolar,
Estêvão foi conduzido ao mundo dos medicamentos.
"Fiquei impregnado desses remédios durante
dois anos. Minha vida era praticamente vegetativa. Engordei
muito, sentia-me fraco, meus membros superiores ficaram
enrijecidos. Eu precisava de pessoas para me alimentar
e me dar banho, tamanho o efeito dos medicamentos sobre
mim."
Um neurologista o salvou da impregnação.
"Ao chegar ao consultório ele viu o meu
estado, provocado pelo uso dos medicamentos. Meus olhos
estavam estagnados, sem brilho", conta. Mas como
a depressão bipolar não havia ainda sido
diagnosticada, o uso de outros medicamentos –
antidepressivos – desencadeou a mania e acelerou
a ocorrência da primeira grande crise, o primeiro
colapso, que se caracteriza por uma fuga total da realidade.
"Foi minha primeira internação".
Na clínica onde esteve internado, o diagnóstico,
também incorreto, foi de esquizofrenia.
O diagnóstico definitivo de depressão
bipolar só aconteceu anos depois, quando ele
morava novamente nos EUA e teve outro colapso, durante
as férias. Estêvão trabalhava em
uma companhia aérea norteamericana quando começou
a manifestar os sintomas do transtorno. "Durante
as férias tive um episódio de crise e
acabei sendo internado. Nesse momento, fui diagnosticado
como bipolar. Fiquei seis meses de licença. Quando
retornei, fui demitido. Ficou claro que o motivo era
a doença. Fui vítima de preconceito, pois
eu tinha condições de retomar a vida produtiva,
encontrava-me estável, tomando medicamentos,
e o desemprego só me fez sentir pior.”
Uma das atitudes dele hoje, face à depressão
bipolar, é estudar a doença. "Eu
leio e procuro me informar ao máximo sobre ela,
é algo que me faz bem e é importante".
Em sua investigação sobre a própria
biografia, ele descobriu que a questão genética
é um importante fator desencadeador da doença.
"Tempos depois soube que minha avó materna
se suicidou e apresentava sintomas parecidos com os
da depressão bipolar", conta.
Estevão também decidiu não esconder
a doença, assumi-la sempre que necessário
ou questionado e lutar para vencer o preconceito. "Estou
processando a companhia que me demitiu", conta.
Hoje, Estêvão tem consciência de
que precisa fazer uso permanente de medicamentos. Está
numa fase estável, mas vive a angústia
de conviver com a iminência de novos colapsos.
"A impressão que tenho é que a doença
pode se manifestar ou não a partir do nada. E
quando se manifesta, é incapacitante. Durante
as fases melancólicas, eu não me sentia
apenas apático. Vivi uma experiência de
dor. Cheguei ao fundo do poço. Eu não
cometi suicídio, mas o que vivi não deixa
de ser uma morte em vida."
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