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  arte & cultura
 
| RAQUEL AYRES | Na série Meu auto-retrato a partir de meus
grandes mestres, o artista plástico Luiz Vieira usa da projeção para se reconhecer


QUEM SOU

 
 
Pendurados em ganchos afixados na parede, carteiras de identidade com fotos do roqueiro Lenny Kravitz, da poetisa Cecília Meireles, do médico Sigmund Freud, do cantor Chico Buarque e do desenhista Walt Disney. Todos têm uma única impressão digital: a do artista plástico Luiz Vieira. Na série Meu autoretrato a partir de meus grandes mestres, composta de 24 telas, aparece com cara de macaco, faz referências a Matisse, Leonilson e Nelson Lerner. Estaria padecendo de crise de personalidade? Nada disso.

Melhor pensá-lo como detetive, de lupa na mão, a certa distância do objeto investigado: ele mesmo! Assim, Vieira também se imagina um menino fazendo primeira comunhão,

MATÉRIA-PRIMA
Luiz Vieira: a partir
de referências afetivas
desenvolveu a exposição
No Jardim




 

vivencia a situação com todos os seus sabores e dissabores num pretexto para auto-análise.

Registra este, entre tantos outros deslocamentos, no livro Auto-retrato a partir de dados alheios. Carteiras de identidade, telas e livros são parte do trabalho Projeto Identidades, por meio do qual "me projeto no outro como espelho para me conhecer. Na terceira pessoa, me enxergo melhor." Ao olhar de longe para olhar pra dentro, cabelos emoldurados, livros de anatomia e o quadro no qual está retratado a figura de um homem forte - quase um toureiro - com costelas e entranhas à mostra são elementos com os quais Vieira nos diz o que, apesar de óbvio, teimamos em esquecer: por baixo desta pele, existe um animal. "Trabalho questões relativas ao instinto." Esta palavra que remete - sabe-se lá por qual razão - primordialmente à irracionalidade, em suas mãos transforma-se em ação que intenciona restaurar a realidade. Para ele, o momento exige reflexão política, histórica e filosófica, no qual não cabe arte apenas pela beleza. "Sonho humanizar minha vida e a de quem consome meu trabalho."

Formado em Artes Plásticas pela escola Guignard, com especialização em desenho em Barcelona e premiado desde o início da carreira, ele fala que transformou, ao longo dos mais de 20 anos de trabalho, a angústia - matéria-prima do artista - em humor e intenção lúdica. Foi assim que desenvolveu a recente exposição (março deste ano) No Jardim. Para este ambiente imaginário, deslocou cães, crianças subindo em árvore e gritando, adultos em meio à paisagem; personagens saídos de obras de artistas representativos de seu universo afetivo. "Penso sobre o indivíduo, mais que no coletivo."

Luiz Vieira aponta a volta da figuração na pintura, principalmente feita por artistas mais jovens. "Estou sempre buscando nomes novos. Passo muito tempo assimilando estes trabalhos. Não para utilizar suas soluções, mas para entender o que está acontecendo no mundo." E por falar nisso, não é que ele é otimista?! "Dentro de suas limitações, o mundo evolui, sim." Sobre isto, a primeira pessoa de quem escreve, não tem certeza, e até duvida. Mas entrar na casa e no ateliê de Vieira, olhar seus trabalhos - desenhos, telas, objetos, colagens - traz certo alívio sobre o presente e o futuro. Esperança de identificação com um universo com mais espaço para o afeto.

  

   
   
 
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